Má imprensa

A sugestão de injecções de desinfectante que Donald Trump fez há dias não foi a sua primeira irresponsabilidade quanto a indicar formas de tratar a covid-19. Já o tinha feito antes com a cloroquina, sem que houvesse uma base médica credível e, como agora se soube, com intenções duvidosas.

“And then I see the disinfectant where it knocks it out in a minute. One minute. And is there a way we can do something like that, by injection inside or almost a cleaning?

“So it’d be interesting to check that.”

Pointing to his head, Mr Trump went on: “I’m not a doctor. But I’m, like, a person that has a good you-know-what.” [BBC]

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Crónicas do Rochedo 38 – Tempos de Excepção, medidas de Excepção

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O que acontece se o sector da Restauração e similares (restaurantes, bares, cafés, confeitarias, etc) não recupera rapidamente?

Nenhum problema, eu sou agricultor e produtor de fruta e legumes, continuo a plantar e a mãe natureza encarrega-se do resto”. Errado: o sector da Restauração e Similares é o principal consumidor de frutas e legumes. Sem ele o agricultor terá de fazer como já se vê em muitos dos países atingidos pela pandemia: deixar na terra a maioria da sua produção por não ter quem compre. O mesmo no caso dos produtores de gado.

Nenhum problema, eu sou produtor de vinhos e as uvas continuam a nascer e o vinho a produzir-se”. Errado: o sector da Restauração e Similares é o principal comprador de vinhos a nível mundial. Sem restaurantes e bares bem que os produtores de vinho terão de reduzir em 75% a sua produção.

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O vírus e os governos do lado da ganância

O expoente máximo da ordem económica mundial canibalista* em que vivemos, drogada no lucro e na competitividade, é … o patrão e accionista maioritário da Amazon, Jeff Bezos. Esse monstruoso poço de egoísmo e cinismo, que não faz segredo de querer substituir os seus empregados por robots – e que como tais já os trata – recebeu em 2014 o título de “pior patrão do mundo” da Confederação Sindical Internacional. As empresas que se subjugam ao seu Marketplace são igualmente esmifradas e, se têm sucesso, arriscam-se a que lhes seja roubado o negócio pela própria Amazon. No início de Novembro, Bezos foi nomeado o homem mais rico do mundo pela revista norte-americana “Forbes” e pela plataforma de notícias “Bloomberg”.

Perversamente, a pandemia do coronavírus beneficia a empresa de Bezos como poucas outras. De acordo com o índice Bloomberg Billionaires, desde o início do ano os activos do chefe da Amazon aumentaram em 23,6 mil milhões, para 138 mil milhões de dólares. Nenhuma outra pessoa na lista da Bloomberg dos 100 mais ricos do mundo aumentou tanto os seus bens desde o início do ano, como Bezos. Já em plena crise, a Amazon contratou 100.000 novos funcionários nos EUA – e agora anunciou mais 75.000 posições.

Mas, em consonância com o seu implacável instinto predador, a protecção da saúde e segurança dos trabalhadores durante a crise do coronavírus é desprezível para Bezos. Nos EUA, três empregados que denunciaram falta de qualquer material de protecção foram de seguida despedidos por “repetidas violações das orientações internas”.  E na terça-feira passada, um tribunal francês decidiu que a Amazon não tinha cumprido devidamente as suas obrigações de protecção nos seus centros logísticos em França, tendo determinado que durante um mês a empresa só pode vender bens essenciais, enquanto elabora novas medidas de segurança.

20 anos após a entrada na bolsa, a Amazon tem um valor total de 457 mil milhões de dólares. Obviamente, Bezos aproveita também as manigâncias fiscais a que os governos fecham os olhos, pagando assim impostos minimalistas. Em 2017, a Comissária responsável pela concorrência, Margrethe Vestager, declarou em conferência de imprensa em Bruxelas, que, entre 2006 e 2014, a Amazon não tinha pago impostos sobre três quartos dos seus lucros na Europa, devendo 250 milhões de euros ao estado luxemburguês – coisa de que este último se mostrou inocentemente surpreendido (ou não fora um dos paraísos fiscais europeus).

Segundo os cálculos da Comissão Europeia, a taxa efectiva de imposto que pagam as grandes empresas tecnológicas é de, em média, 9,5% – enquanto a generalidade das empresas paga em média 23%. Mas a Europa continua a dar-se ao luxo do faz que faz, mas não faz, quanto ao imposto sobre os gigantes tecnológicos (GAFA) e deixou a França, que acabou por avançar sozinha, exposta às ameaças de aumento de taxas alfandegárias de Trump. Muito altos são os interesses a impedir que a cobrança de tal imposto venha dar uma ajuda ao financiamento desta crise que ainda tanto vai doer.

*(na expressão do sociólogo suiço Jean Ziegler)

Da Liberdade à Igualdade

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[Ilídio Marques]

Todos os anos, neste dia, volto aqui. E irei sempre voltar. Esta celebração deveria ser também uma celebração da independência das ex-colónias. Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Samora Machel desejavam não só a libertação dos seus povos mas também a libertação do povo português de um regime autoritário. O que nunca vimos, até hoje, foi o contrário: a grande massa do povo português, ou até alguns dos seus líderes da revolução, desejarem a independência das colónias. Vimos, sim, o desejo do fim da Guerra de África, que é uma coisa completamente diferente. As repercussões arrastam-se até aos dias de hoje. Liberdade sim, mas ainda estamos longe da plenitude dos seus valores básicos, de uma vida em democracia, para todos os que cá vivem. E poderemos começar por um pedido de desculpas diplomático às ex-colónias. Até lá, esta não será uma celebração para todos. Será apenas para os brancos. Quer se acredite ou não se acredite.

O 25 de abril nasceu em África e esta é uma verdade que custará sempre a admitir a uma grande parte da sociedade deste país.


Celebrem a liberdade, mas não desistam da igualdade. Ainda há um longo caminho pela frente.

Stop the madness!

trump

[Marco Faria]

Trump não era apenas um ignorante, um arrogante e um irresponsável à frente da maior potência mundial. Passou a ser um caso extremo de saúde pública…e de insanidade mental.
A Sala Oval tem um homem das cavernas a gerir uma crise, que já matou mais de 51 mil americanos. O Aprendiz parece um Nero dos tempos modernos. Não sabe tocar harpa, mas o monstro come pipocas, enquanto espera que o fogo apague com lixívia. Só o Brasil roça o absurdo com o seu covid-evangelista.
A pandemia virou manicómio.
Stop the madness!

Liberdade? Sim, mas q.b.

Povo: Felizmente, agora somos um povo livre sem as amarras de um Estado tirano.

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Grândola

Com sete letrinhas apenas se escreve a palavra Salazar

… e a ponte sobre o Tejo
— Pedro Ayres Magalhães/Heróis do Mar

T.V. is the reason why less than ten percent of our
Nation reads books daily
Why most people think Central America
means Kansas
— Disposable Heroes Of Hiphoprisy:
Television The Drug Of The Nation

Magro, sombrio, encurvado
sob o açoite do Pecado,
com que o persegue Satan,
o pobre gêbo parece o monstro do Lockness
ou um monge de Zurbarán.
— Roberto das Neves, “Salazar

***

Nasci no dia em que a PIDE assassinou José António Ribeiro dos Santos. Durante os meus anos portugueses, o 25 de Abril foi sempre vivido na baixa, na Avenida dos Aliados e arredores, quase invariavelmente na excelente companhia do meu pai. Nos meus anos alemães, comprava rote Nelken no Hauptmarkt de Trier e festejava Abril de cravo vermelho na lapela, enquanto pedalava a minha fiel Diamant, trauteando o E Depois do Adeus, no regresso à Olewiger Straße. Chegado a casa, eternizava Abril, depositando os meus cravos na jarra com água que projectava pela sala os raios de sol do quintal onde cresciam morangos selvagens. Ainda tenho essa jarra. Há bocado, aproveitei as compras semanais no supermercado ali da esquina e trouxe um perfume de liberdade em cravos a estes 44 dias de confinamento bruxelense. Estou eternamente grato a quem lutou pela possibilidade de Portugal ser um país livre.

Muita gente fica eufórica com este filme, no qual vemos a palavra SALAZAR a ser retirada à martelada da ponte mais a jusante do Tejo.

Não gosto deste filme. Efectivamente, eis um acto cheio de significado, baseado num princípio com o qual estou plenamente de acordo. Todavia, trata-se de um mero gesto de fachada. Os princípios de nada valem se forem materializados em actos para inglês ver.

Peguemos num princípio tão corriqueiro como ter o escritório de casa arrumado. Imagine-se agora que me dava para arrumar o escritório só quando tivesse visitas cá em casa. Obviamente, como sou uma pessoa de princípios, sentir-me-ia incomodado quando me definissem como sendo uma pessoa com o escritório de casa arrumado. Por esse motivo, deixei de receber visitas no escritório.

Com efeito, a carga simbólica da passagem de Ponte Salazar a Ponte 25 de Abril é imediatamente anulada pela persistente presença de Oliveira Salazar na toponímia portuguesa. Actualmente, Portugal continua a prestar vassalagem à memória de Salazar, da mesma forma que o Diário de Notícias o fazia no dia 27 de Julho de 1970, com o célebre (negritos meus)

Portugal está de luto. Morreu o Presidente Salazar. Esta manhã, às 9 e 15 deixou de viver um dos mais ínclitos portugueses da história de Portugal.

Exactamente (está à venda):

Em honra de Salazar, até existe uma alameda (uma alameda!) em Vila Nova de Gaia (em Vila Nova de Gaia!). Para quem não souber, Vila Nova de Gaia é o terceiro maior concelho de Portugal, ficando a dita alameda no Olival. Enquanto houver uma Alameda Dr. Oliveira Salazar em Vila Nova de Gaia, enquanto andarem por aí cantando e rindo, é escusado voltarem a passar o filme da ponte no meu televisor.

Há uma grande diferença entre o país ideal, com o cravo de Abril na lapela e com a Ponte 25 de Abril sobre o Tejo, e o país real, com a Alameda Dr. Oliveira Salazar no terceiro maior concelho do país e com o povo viciado em televisão a aproveitar a primeira oportunidade que lhe aparece à frente para fazer de Salazar o maior português de sempre, espalhando-se a notícia em inglês, alemão, eslovaco, francês, espanhol, checo, neerlandês, croata, etc. De facto, como previsto no Livro de Leitura da 3.ª Classe de 1937 (pdf), as gerações futuras haviam de “dizer baixinho, de olhos fitos no altar da Pátria – Foi um grande Português!“.

Escutemos essas horríveis palavras, na maravilhosa leitura em voz alta de Mário Viegas: [Read more…]

Apeadeiro da Meia Praia

apeadeiro_meia_praia_linha_do_algarveAli mesmo ao pé de Lagos.

Seguidismo

seguidismo – substantivo masculino, qualidade de quem segue ou é defensor incondicional de alguma ideia, teoria ou partido, sem nunca se questionar ou fazer juízos de valor (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

 

Eu, finalmente, consegui perceber. E foi mais uma vez a voz avisada da Directora-Geral da Saúde, pessoa de elevada perspicácia, coerência e assertividade, que me mostrou a “luz”. A justificação para se poder comemorar o 25 de Abril nos moldes em que vai ser comemorado na AR, está na própria configuração do Parlamento. É a forma arquitectónica, o amplo espaço interior e o desenho avançado do hemiciclo que garante as condições sanitárias para que a comemoração se possa fazer tranquilamente. Eu, limitado como sou, apesar de ainda não precisar de um manual de instruções para cantar o que quer que seja à janela, principalmente quando me permitem desafinar e fazer “lyp sinc” (não faço a mínima ideia do que seja, mas como está em servo-croata, deve ser coisa modernaça), pensava que era o estatuto das pessoas ou a própria data. Mas não. Aliás, nem podia ser de outra maneira. Não se iria, obviamente, comemorar uma data que prometeu acabar com os privilégios das castas políticas e com a desigualdade de direitos que o Povo experimentava, fazendo EXACTAMENTE a mesma coisa. Obrigado, Graça Freitas.

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Solidário com Joacine

Inadmissível silenciarem uma deputada da nação no dia 25 de Abril.

Novamente sitiados…

Não existe comparação possível entre o fim de semana da Páscoa e o fim de semana alargado de 1 a 3 Maio. Autoritário e arbitrário como sempre, apesar do estado de emergência terminar no dia 2, o governo já avisou os portugueses que irão permanecer sitiados nos concelhos de residência durante todo o fim de semana. Quero ver se será para todos, ou haverá para aí uma excepção imaginativa que permita às centrais sindicais comemorarem o 1º de Maio. Cada vez mais farto destes políticos, que julgam sempre saber o que é melhor para nós, como se fossemos crianças mal comportadas e tivessem que nos educar…

Menos Cravos. Mais Liberdade.

Em tempos de pandemia, finalmente se fala de assuntos importantes: a celebração do 25 de Abril. Realmente, admitamos, numa fase em que Portugal atravessa uma crise sanitária, o importante é discutir a celebração simbólica de um dia importante para o país. Pode faltar um ventilador, mas que não falte um cravo na lapela. É hipócrita defender que não é democrático não celebrar este dia. As pessoas que defendem isto devem acreditar que Salazar volta em espírito se não for cantado o Grândola Vila Morena. As pessoas que defendem que tem de haver uma cerimónia na Assembleia por respeito à liberdade são as mesmas que não hesitaram em tirar essas mesmas aos portugueses.  É hipócrita atacarem os partidos que, conscientemente, não querem festejar o 25 de Abril de anti-democratas, e terem votado contra a intervenção de Joacine Katar-Moreira. Sim, a esquerda democrática votou contra e os fascistas perigosos votaram a favor. O 25 de Abril não deve ser comemorado uma vez por ano, mas sim honrado todos os dias. Coisa que não acontece, pelo menos, por parte do Estado. [Read more…]

Direitos do Leitor

Ler é um direito. Ler é uma obrigação. Ler é uma necessidade.
Hoje é o Dia Mundial do Livro.
Ler. Ler. Ler até ao fim.

“Le droit de ne pas lire.
Le droit de sauter des pages.
Le droit de ne pas finir un livre.
Le droit de relire.
Le droit de lire n’importe quoi.
Le droit au bovarysme (maladie textuellement transmissible)
Le droit de lire n’importe où.
Le droit de grappiller.
Le droit de lire à haute voix.
Le droit de nous taire”Daniel Pennac

Críticas leva-as o vento

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[Anabela Laranjeira]

Hoje, por curiosidade, estive a ver as duas “aulas” para o 1ºCiclo na RTP Memória. Fui apanhando também, sem surpresa, a chuva de críticas às professoras que lá apareceram.
Concordo que, para actrizes, são bem canastronas, mas eu não faria melhor figura. Não sei que imagem têm vocês, os das críticas, da figurinha que fazem frente a câmaras.

O Matias viu comigo a professora Isa e gostou muito da história da Mosca Fosca; até já conhecia a história, e respondeu com ânimo às perguntas que ela ia fazendo. As crianças, em geral, identificam-se com a figura dos professores. Têm-lhes respeito e manifestam empatia, a empatia que vocês, os das críticas gratuitas a quem trabalha, não têm.

Li muitos comentários parvos por aqui, tenham juízo! A professora Isa não é contadora de histórias, também não é animadora de festas de anos, não critiquem a forma autêntica como se vestiu e como leu a história. Ela é isso mesmo, uma professora, não é a Xana Tok Tok! Mudem para o Canal Panda se querem mais ânimo amigos.
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Educação: proximidade à distância

[Rui Correia]

Tenho andado um bocadinho apreensivo com a utilização que vai sendo feita das videoconferências com alunos.

Estamos a atravessar um momento que representa uma grande oportunidade para colocar em prática aquilo que uns chamam Aprendizagem ou Pedagogia Diferenciada e outros chamam outras coisas, mas que significam a mesma preocupação:

a cada miúdo uma atenção especial. Particular. Única como ele.

Porque a aprendizagem remota pode aproximar-nos, muito humanamente, uns aos outros.

Há professores a dividir as suas turmas em grupos, multiplicando as videoconferências e a sua carga de trabalho, para poder dedicar mais tempo a cada aluno.

Aplaudo sonoramente essa dedicação e profissionalismo.

A ideia de replicar um modelo magistral, unidireccional, de ensino por videoconferência, ou seja, circunstâncias em que um fala e os outros escutam é, per se, uma prática pedagogicamente muito limitada e mortalmente aborrecida. Não deve ser repetida agora em vídeo.

A utilidade de uma aula não se mede por tudo quanto um professor faz, mas por tudo quanto os seus alunos produzem. [Read more…]

Planeta dos Humanos

Planeta dos Humanos.
Uns não vão gostar de ver, outros não vão perceber.
É o documentário mais recente, e de acesso gratuito, do americano Michael Moore.

Se me chamasse Sara Azera de Almeida

My other callers are all professional. Banal psychiatrists and grasping second-raters. Pencil-lickers.
Hannibal Lecter

***

Efectivamente, se me chamasse Sara Azera de Almeida, garanto-vos, processava a presidente do júri e impugnava o concurso.

Como se trata de assunto grave, fica aqui o pdf ao dispor dos interessados.

Continuação de uma óptima semana: com muita saúde e sem infecções.

***

Embargar a China? Why not?

CH

Não querendo entrar em teorias rebuscadas sobre a origem do novo coronavirus, de natureza conspirativa, parece-me inegável que a China foi desonesta com o resto do mundo, ao ocultar, deliberadamente e durante várias semanas, a gravidade do problema que tinha em mãos.

Vai daí, é meu entendimento que o mundo deve exigir à China compensações financeiras pelo caos que a sua opacidade aprofundou. Vou ainda mais longe: parte significativa do Plano Marshall que a Europa e o mundo vão precisar, quando a crise económica que já se sente ocupar o primeiro plano das nossas preocupações, deve ser assumido por Pequim.

Caso a China decida não colaborar, defendo que deve haver coragem, pelo menos do mundo democrático, em impor sanções pesadas, e, eventualmente, um embargo total. De caminho, e pensando apenas no espaço europeu do qual faço parte, parece-me que estamos perante o momento ideal para um plano ambicioso de reindustrialização da Europa, capaz de, simultaneamente, gerar emprego e acabar com a dependência das importações chinesas. Isto será absolutamente crítico em sectores como o têxtil ou o automóvel, apenas para citar dois exemplos.

Naturalmente, tal intenção enfrentará poderosas forças de bloqueio, não só da própria China, como do sector financeiro e da grandes multinacionais ocidentais, cujos lucros, estratosfericos, dependem dos baixos custos de produção e de matérias-primas que a grande fábrica do totalitarismo chinês lhes proporciona. Mantendo o actual status quo comercial, é praticamente impossível ao Ocidente competir com um regime que explora a mão-de-obra, ignora direitos laborais e não respeita direitos humanos.

Ainda no campo dos interesses do modelo económico ocidental, importa realçar que a China é hoje um dos maiores mercados de consumo a nível mundial e um dos maiores clientes de produtos de luxo produzidos pela Europa e pelos EUA. Um embargo total à China resultaria numa perda significativa de vendas para inúmeras marcas, do sector da moda ao automóvel entre muitos outros. E o capitalismo, que não se deixa abalar por contradições éticas ou morais, dificilmente cederá. É o lucro que importa, não os direitos humanos. Muito menos a democracia.

Assim, encontramo-nos numa encruzilhada. Por um lado, estamos reféns de um regime comunista totalitário, que controla e comanda parte significativa da economia mundial, incluindo empresas estratégicas na Europa e EUA. Por outro, estamos nas mãos de multinacionais e instituições financeiras, que se deitam com qualquer oligarca ou autocrata que lhes pague o preço certo em euros. Ou dólares. Ou yuans. Talvez precisemos de uma revolução. E os ares de Abril costumam ser propícios para derrubar ditaduras. Why not?

Crónicas do Rochedo 37 – Já alguém avisou quem nos governa?

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Há quase um mês, mais precisamente a 20 de Março escrevi a primeira crónica sobre a verdadeira catástrofe económica que se avizinhava com a queda do turismo fruto da pandemia. Mais tarde, abordei a questão dos supostos apoios lançados pelo governo e depois sobre outro sector com uma ligação muito forte ao turismo, o da restauração e similares.

Hoje, em Espanha, começam a surgir os primeiros números da realidade. Todos eles explicam que as previsões negativas apontadas pelo FMI afinal são mais optimistas que a realidade. A média apontada para a queda do sector em 2020 é de 81,4% do PIB. Sendo a menor nas Canárias (-76%) e a maior nas Baleares (-95%) e na Catalunha (-84%). Neste momento o sector já aponta para perdas superiores a 124 mil milhões de euros em 2020. Recordo que o Turismo e Similares representa cerca de 12,5% do PIB espanhol e 15% do PIB português.

Estes valores significam uma queda do PIB em Espanha (e em Portugal, não se iludam) superior, bem superior, à prevista pelo FMI no final da semana passada. Ora, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, desaconselhou os europeus a marcar férias em Julho e Agosto. Na passada sexta, a Ministra do Trabalho espanhol foi mais longe, ao afirmar que não acredita que as restrições actuais existentes no que toca ao turismo possam ser levantadas antes do final do ano. Para piorar, a IATA reviu em baixa as suas previsões anteriores apontando que o tráfico aéreo talvez atinge um valor de 50% do normal no último trimestre do ano e o tráfico aéreo interno talvez chegue aos 50% no terceiro trimestre. Por isso mesmo, uma parte dos empresários do turismo nas Baleares assim como em Benidorm já assumiu que nem sequer vão abrir este ano, independentemente de serem ou não levantadas as restrições colocadas pelo governo espanhol.

O caso português não será muito diferente. Não será mais positivo. Podem esperar, se nada de concreto e real for feito antes, com no mínimo mais de 2 milhões de pessoas atiradas para o desemprego só neste sector e nos sectores com ele conexos. Milhares de micro, pequenas e médias empresas falidas. Mesmo acreditando (tenho muitas dúvidas) nos que dizem que em 2021 teremos uma recuperação do sector em 50% e que em 2022 já estará em valores normais, será preciso que as empresas e os postos de trabalho lá cheguem. Os custos para o Estado, para o país no seu todo, serão maiores que os custos das ajudas directas que o sector vai precisar para chegar vivo a 2021. Se o Governo e os partidos que o apoiam (BE e PCP), mais o PSD não perceberem isto, vai ser trágico para a economia nacional no seu todo e por vários anos.

Em Espanha acordaram hoje para os números desta catástrofe e para a necessidade de um plano de resgate urgente. Em Portugal alguém avise quem de direito…

Brasil: Militares criam Conselho Nacional da Amazônia excluindo indigenas.



Enquanto a Covid19 avança num pais cujo presidente negacionista incentiva a população a quebrar o isolamento, os povos indígenas estão sofrendo duplamente: invasões de suas terras por garimpeiros e grileiros e entrada do vírus, ações subsidiados pelo governo que não se preocupa de verdade com o meio ambiente nem povos indigenas.

Aos povos indígenas e povos tradicionais brasileiros foi dado mais um passo em sua política de destruição.
Na semana passada o Vice Presidente general Hamilton Mourão formou o Conselho Nacional da Amazônia Legal, que agora passará a funcionar na Vice-Presidência sem representantes do Ibama e da Funai, órgãos que atuam diretamente na proteção ambiental e dos povos da Amazônia e colocou 19 militares nos postos de comando. Os nomes foram publicados no Diário Oficial nesta sexta-feira, 17.

A isso soma-se decreto de Jair Bolsonaro em fevereiro, transferindo o Ministério do Meio Ambiente para a Vice-Presidência, e diversas funções antes atribuídas ao Ibama serão cumpridas por membros do governo que não tem experiência nenhuma com situações vividas pelos povos amazônicos.

Além dos militares no Conselho, 4 delegados da Polícia Federal foram indicados pelo ministro Sérgio Moro. A Funai é vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e não tem representantes indígenas.

Enquanto isso a Amazonia vive um dos seus maiores períodos críticos recentes de ameaça, com aumento de 51,45% de desmatamento nos 3 primeiros meses de 2020, queimadas criminosas, invasões de terra e assassinatos de lideranças indígenas e campesinas.

Fonte: mídia ninja

Trump, o fascista malvado

O título foi escolhido por mim, mas podia muito bem ter sido criado pela redação da SIC ou qualquer outra televisão generalista. Tal como tem sido hábito desde a eleição do atual Presidente dos EUA, a comunicação social sempre se apresentou bastante parcial quando o assunto era Donald Trump. Desde a forma que apresenta as notícias que nos chegam da América até aos espaços de opinião. Este tom que se tornou normal afetou a forma de pensar das pessoas e fez com que estas, na sua maioria, se colocassem contra Trump, mesmo não conhecendo nenhuma das suas medidas. Estes mesmos são aqueles que se colocam a favor de Obama e fazem deste um revolucionário. Mas este é um dos resultados da comunicação social doutrinada que temos. Só em Portugal se acha normal que um pivô de informação como Rodrigo Guedes de Carvalho diga em direto “que, ideologicamente, as liberdades não são tão queridas à direita”. Por vezes, uma pessoa já não entende se o telejornal é para informar ou se é um chorrilho de lições de moral daquela vizinha que anda cá há mais tempo do que vocês. [Read more…]

Vamos festejar qual 25 de Abril??? E desculpem lá o francês…

Revolución-de-los-claveles

O 25 de Abril de 74 é mais do que uma data. Quero festejar a data sempre, todos os dias e não num dia certo. A questão aqui é outra. Querem festejar o 25 de Abril em 2020? Força, por mim podiam ir todos para a AR, a seguir descerem a Avenida de Liberdade. Sou suficientemente liberal para defender que cada um faz o que muito bem entender DESDE que não prejudique os outros. E este, até prova médica cientifica em contrário, é o ponto essencial de tudo o que se está a discutir.

Se os bacanos que o querem fazer e o fizerem em ABSOLUTA segurança para terceiros, que no final das comemorações se coloquem em quarentena durante 15 dias, então façam o favor. Agora, não me venham com as hipocrisias do costume: vão festejar o quê? O 25 de Abril prometido ou o 25 de Abril que eles, directa e indirectamente continuam a criar prejudicando a esmagadora maioria dos portugueses? É que esta malta que tanto quer ir para o folclore de Abril é a mesma que pactua com os Jerónimos Martins e boa parte das empresas do PSI20 cujos lucros são tributados nas “holandas” desta vida, são os mesmos que deixam os bancos matar as empresas exigindo, em clara violação da Lei, garantias pessoais  nas linhas COVID19, são os mesmos que deixam os senhores da EDP fazerem o que querem (e estão lá todos, os que chuparam aquilo enquanto foi do Estado, os que a privatizaram aos chineses por tuta e meia e, todos eles, que sustentam esse verdadeiro DDT chamado Mexia.

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25 de Abril com distanciamento social

Adoro o 25 de Abril. Se o 25 de Abril fosse uma pessoa, faria tudo para que me considerasse seu amigo. Todos os anos, comemoro o 25 de Abril, porque o considero um dos meus maiores amigos. A generosidade do 25 de Abril vai ao ponto de ser bom para quem não gosta dele. Às vezes, penso que o 25 de Abril chegou a frequentar a catequese e saiu de lá cheio de amor ao próximo, incluindo os vendilhões do templo. Não que seja perfeito, mas não me lembro de ter amigos perfeitos.

O meu amor ao 25 de Abril não vai ao ponto de gostar das comemorações oficiais. Não preciso delas. Por um lado, irritam-me os que se consideram seus proprietários, censurando os que não gritam as mesmas palavras de ordem; por outro lado, ainda me irritam mais os que nunca lhe perdoaram, os que participam nessas comemorações a contragosto, exibindo, julgando-se superiores, a ausência do cravo na lapela, sempre prontos a descobrir defeitos na democracia e a relativizar a ditadura, a ditadura do Salazar honesto que não metia dinheiro ao bolso, como se isso transformasse um escroque num virtuoso.

Os que querem comemorar o 25 de Abril à força fazem-me lembrar os beatos que só podem orar a Deus em Fátima, numa estranha crença que, como é costume, chega a desprezar a Omnipotência em que, afinal, não acreditam. Não lhes ficaria mal, num tempo em que se recomenda o distanciamento social comemorarem o 25 de Abril à distância. [Read more…]

Uma semana em cheio

Instruments sometimes have songs in them.
David Ellefson

Unser Schreibzeug arbeitet mit an unseren Gedanken.
Nietzsche

***

Uma semana com factores, *inteletuais e *contatado não ficaria completa sem um *fato no sítio do costume.

Ei-lo.

Desejo-vos um espectacular fim-de-semana.

Votos de óptima saúde.

***

Investimento seguro

Há que garantir boa imprensa nos tempos difíceis que se aproximam.

A trafulhice fiscal das Holandas desta vida

TH

Panama Papers, Swiss Leaks ou o famoso “double Irish, Dutch sandwich” (se não estão familiarizados com a expressão, sugiro que a pesquisem e se maravilhem com os embustes que são o milagre irlandês e ética financeira holandesa), existem esquemas para todos os gostos e à medida de cada evasor fiscal. E todos eles, sem excepção, contam com a participação de “respeitáveis” instituições financeiras europeias e norte-americanas. E de estados-membros da União Europeia. E com a inércia e o silêncio cúmplice da Comissão Europeia. Ou não estivessem, todos eles, nas mãos dos principais beneficiários dessa trafulhice. Sim, trafulhice. Deixem-se de politicamente correctos e chamem os bois pelos nomes. É trafulhice, sim. E é trafulhice feita à custa de milhões de pessoas, que pagam a factura em doses cavalares de austeridade, independentemente do nome que se decide, em cada momento, dar a essa austeridade.

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A 1.ª Lei da Termodinâmica e o Paradoxo de Fação

Physical attraction 
It’s a chemical reaction 
It’s a physical attraction 
Sweet satisfaction
Madonna

Tezeo. Vem a meus braços, fiel amigo, e releva-me o errado conceito, que de ti formei.
António José da Silva (O Judeu), “O Labirinto de Creta

So when it was time to register for the [Spanish] class, we were standing outside, ready to go into the classroom, when this pneumatic blonde came along. You know how once in a  while you get this feeling, WOW? She looked terrific. I said to myself, “Maybe she’s going to be in the Spanish class —that’ll be great!” But no, she walked into the Portuguese class. So I figured, What the hell­­—I might as well learn Portuguese.
Richard Feynman

***

Há uns tempos, estive para escrever algumas linhas sobre estas intervenções de políticos (do PSD). Naquela altura, uma delas deixara no ar a probabilidade quer de o secretário de Estado da Energia (do PS) desconhecer, por exemplo, a 1.ª Lei da Termodinâmica, quer de essa lacuna o desqualificar para o cargo. Acabei por não escrever as linhas, mas ri-me. Contudo, o meu riso não foi motivado pelos comentários. Antes pelo contrário. Ri-me, isso sim, do ensurdecedor silêncio. O ensurdecedor silêncio dos políticos do PSD, dos políticos portugueses em geral e da população portuguesa activa nos meios de comunicação social e nas redes sociais, aquando do “agora facto é igual a fato (de roupa)“. O “agora facto é igual a fato (de roupa)” foi escrito por quem assinou o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 em nome da República Portuguesa. Exactamente. O silêncio cúmplice mantém-se até hoje.

No que diz respeito ao [Read more…]

Bem prega frei Tomás…

Será hoje votada na A.R. a renovação do estado de emergência, que deverá manter em casa a maioria dos portugueses. Aproximando-se a data do 25 de Abril, decidiu o parlamento manter a sessão solene de comemoração da data, mas pasme-se, apesar de reduzir os deputados no hemiciclo a um terço, decisão controversa, porque cada deputado é titular do seu próprio mandato, que não pertence aos partidos e muito menos ao presidente da A.R., pelo que à partida, só não estarão presentes os deputados que não quiserem estar. [Read more…]

Os *inteletuais em Portugal

Programs characterized by instability and/or hostile environments were associated with lower effect sizes.
Ann C. Willig (apud Stephen Krashen)

I was raised in a religious atmosphere, Mr. Verger, but whatever that left me with, it’s not religion.
Alana Bloom

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Em princípio, os negociadores, promotores e amigos do Acordo Ortográfico de 1990 não estarão satisfeitos com as frequentes supressões do cê medial de facto, de contacto e de secção que actualmente vão acontecendo em português europeu. Mas ignoraram os avisos e criaram as condições para este desastre. No entanto, há excepções. Por exemplo, Pedro Santana Lopes desejou e até promoveu a supressão do cê de facto, com o célebre

Agora facto é igual a fato (de roupa).

 

Facto, contacto e secção são as vítimas a quem tenho dado palco, quer aqui, quer ali, quer alhures.

Mas há mais.

Recentemente, o excelente leitor do costume (que tem andado entretido com outras vítimas do AO90) enviou-me esta ocorrência de *inteletual no sítio do costume:

Em Abril de 2008, Fernando Venâncio previu [Read more…]