I Tertúlia do Aventar: Salgueiro Maia e a Memória da Revolução

Como temos vindo a divulgar, é já no dia 5 de Dezembro que se realiza a I Tertúlia do Aventar. Subordinada ao tema «Salgueiro Maia e a Memória da Revolução», pretende transformar-se num debate sobre a memória de Salgueiro Maia e a sua herança à luz da pobre democracia que temos hoje em dia.

E porque Abril é de todos – dos Capitães e dos civis, da Esquerda e da Direita – queremos uma Tertúlia que seja mais do que o habitual desfiar de histórias militares e actos de heroísmo. Todos sabemos o que aconteceu naquele dia mágico, partamos dali para as suas consequências.

Assim, temos um enorme prazer em anunciar a presença de duas figuras incontornáveis do Portugal dos nossos dias e cuja posição ideológica é bem diversa. De um lado, Carlos Abreu Amorim, professor universitário e um dos autores do «Blasfémias»; do outro lado, João Teixeira Lopes, também professor universitário e destacado dirigente do Bloco de Esquerda.

E no final, celebremos todos à mesa, ali bem perto, no «Verso em Pedra», a memória de Salgueiro Maia. Um convite que nem é displicente nem brincalhão e que se coaduna perfeitamente com o espírito do evento. Estamos a celebrar Salgueiro Maia, caramba, não estamos a enterrá-lo.

Lembro-me de um episódio ocorrido logo a seguir ao 25 de Abril, quando uma «striper» negra se despia, no Cais do Sodré, ao som do «Grândola». A revolta, a blasfémia, o pecado por se usar a música da Revolução – enquanto isso, o Zeca só se ria.

Estão, pois, todos convidados. 5 de Dezembro, 18 horas, no lindíssimo edifício do Clube Literário do Porto (perto da Ribeira). «Salgueiro Maia e a Memória da Revolução: Petição para a preservação da casa onde nasceu o Capitão de Abril».

O exemplo de Ernesto Melo Antunes

Fundação Calouste Gulbenkian (sala 2), 27 e 28 de Novembro de 2009

 

Militar, Pensador e Estadista, Melo Antunes (1933 – 1999) foi sobretudo um cidadão comprometido que deixou a sua marca e testemunho em diferentes momentos do século XX português. Primeiro, em plena ditadura, ao tentar apresentar-se como candidato oposicionista (na lista CDE) às eleições legislativas de 1969.

 

Foi um dos primeiros a aderir ao Movimento dos Capitães e a participar activamente no movimento que levou ao derrube do regime. É incumbido de redigir o Programa das Forças Armadas, por ser um dos mais politizados elementos do movimento.

 

Membro da Comissão Coordenadora do Programa do MFA e Conselheiro de Estado, assume sucessivamente responsabilidades governativas.

 

Homem de cultura e de forte consciência cívica, Ernesto Melo Antunes é uma figura central da História Contemporânea Portuguesa que curiosa e inexplicavelmente, continua a ser um desconhecido para a maioria dos Portugueses

 

Podem encontrar o Programa em www.ernestomeloantunes.com.pt

Jovens brasileiros comemoram o 25 de Novembro

 

 

Aniversário do 31 da Armada, claro. O Jaime Neves foi convidado mas não apareceu.

 

 

A máquina do tempo: foi há 34 anos

 

 

Faz hoje 34 anos, por esta hora, uma boa parte dos portugueses sentia-se triste – a festa da liberdade acabara – falava-se no advento de uma «democracia musculada», fosse lá isso o que fosse. Um tal tenente-coronel Ramalho Eanes, que fora do meio militar ninguém conhecia, aparecia nos noticiários como o senhor desta guerra – óculos escuros, patilhas compridas, frases curtas e com uma pronúncia estranha, não auguravam nada de bom. A comparação com Pinochet era inevitável. Temia~se que se reproduzisse aqui o que dois anos antes ocorrera no Chile. Na foto da época, vemos a seu lado, outros dois protagonistas do movimento: ao centro, Jaime Neves, conotado com a direita militar, no outro extremo Vasco Lourenço, signatário do documento dos «Nove» e que se dizia estar ligado ao Partido Socialista. Neves e Lourenço eram conhecidos. E quem seria o «gajo» de óculos escuros? Soube-se depois que também estava ligado ao chamado «Grupo dos Nove» e que fora encarregado de encabeçar o movimento militar de 25 de Novembro.

 

Havia outros portugueses que respiravam de alívio – àquilo a que chamávamos «festa», chamavam «choldra», «bagunçada», «anarqueirada»… Passados 34 anos, já é possível falar dessa data (quase) sem rancores, nem falsos clichés. E, a propósito, o meu sentido de justiça obriga-me a saudar a transformação que se produziu em Ramalho Eanes – o bisonho tenente-coronel converteu-se num homem culto, ponderado e apresentável. Hoje em dia, seria uma opção para a Presidência. Em princípio, eu não votaria nele, mas seria uma figura respeitável. Coisa que não era há 34 anos. Mas não nos antecipemos. A nossa máquina do tempo vai viajar até ao dia 25 de Abril de 1975.

 

É matéria ainda sensível, apesar da distância de 34 anos que nos confere já uma apreciável perspectiva histórica do acontecimento. Vou cingir-me à síntese dos acontecimentos e a uma ou outra opinião pessoal, emitida sem prosápias de analista (que não sou), na perspectiva do simples cidadão que tem, por enquanto, o direito, e até o dever, de opinar. É a minha perspectiva, não viso a verdade científica, nem sou imparcial. Sujeito-me às críticas de quem não concordar, mas, pelo menos, tento não ser acusado de falsear a história.

 

Um documento emitido por oficiais da esquerda militar em 8 de Julho de 1975, em pleno «Verão Quente» – «Aliança Povo/MFA – para a construção do socialismo em Portugal», enchera de esperança o povo de esquerda. No mês seguinte, um documento provindo da esquerda moderada tentou aplacar o incêndio que lavrava de Norte a Sul – o chamado «Documento dos Nove», sem aludir ao anterior, recusava o modelo socialista da Europa de Leste, bem como o modelo social-democrata da Europa Ocidental.

 

Propugnava um socialismo alternativo, apoiado numa democracia pluralista, respeitadora das liberdades, direitos e garantias fundamentais. Note-se que o primeiro documento também não defendia o comunismo do tipo soviético e, por isso, não colheu grande simpatia entre as hostes pecepistas; mas deu corda às esperanças da esquerda extra-parlamentar que inundou as ruas com as suas manifs entusiásticas.

 

As posições extremavam-se. No Norte as sedes dos partidos de esquerda, eram assaltadas e destruídas. Os confrontos multiplicavam-se com o ELP (Exército de Libertação de Portugal), criado pelo inspector da PIDE, Barbieri Cardoso, presidido pelo general António de Spínola e sediado em Espanha, a levar a cabo alguams acções contra os militares e contra os partidos de esquerda. O espectro da guerra civil assolava o País.

 

Passado um «Verão quente» e um princípio de Outono agitado, o início de Novembro fora marcado com as notícias vindas de Angola – recrudesciam os combates entre as forças do MPLA, reforçadas com unidades cubanas, e as da UNITA, apoiadas por tropas sul-africanas e mercenários portugueses. Em 11 de Novembro, foi proclamada a independência. Enquanto decorriam as cerimónias em Luanda, na presença do almirante Rosa Coutinho, que cessava as suas funções de Governador e delegava o poder nas mãos de Agostinho Neto, escutava-se nas imediações da capital o troar das peças de artilharia, pois os combates prosseguiam. Os ecos dessa luta ouviam-se também em Portugal.

 

No dia 12, o Palácio de São Bento, sede do Governo e da Assembleia Constituinte, era cercado pelo trabalhadores da construção civil que sequestraram os deputados durante várias horas. No dia seguinte, uma grande manifestação, com centenas de milhares de pessoas, percorria as ruas da capital, exigindo o advento do Poder Popular.

No dia 20, o Governo auto-suspendeu as suas funções exigindo que as forças da ordem garantissem o normal funcionamento das instituições. No dia seguinte, no Ralis (Regimento de Artilharia de Lisboa), realizava-se um juramento de bandeira sui generis – os soldados juraram e saudaram a bandeira de punho cerrado e erguido.

 

A temperatura atmosférica, matizada pelo chamado «Verão de São Martinho» era amena. A temperatura política era escaldante. O abismo aproximava-se quase sem que para ele caminhássemos. No dia 24, uma gota fez transbordar a taça da paciência conservadora – o Conselho da Revolução tomou medidas que a muitos desagradaram – substituiu alguns comandantes militares, dissolveu a base-escola de pára-quedistas de Tancos. Tropas pára-quedistas ocuparam de imediato as bases da Ota, de Tancos e de Monte Real. Elementos do Ralis posicionaram-se nas principais entradas de Lisboa, controlando estrategicamente os acessos à capital.

 

O presidente Costa Gomes decretou o estado de sítio. Chamou Otelo Saraiva de Carvalho ao Palácio de Belém. Otelo, recorde-se, graduado no posto de general, comandava o COPCON (Comando Operacional do Continente), a força operacional mais bem apetrechada e potencial foco de uma reacção violenta e quiçá decisiva da esquerda militar. Otelo foi à reunião com Costa Gomes, sabendo que, na prática e sob outra designação, estava a ser detido, retido, impedido de actuar,  use-se o eufemismo que se quiser para prisão, porque na realidade foi isso que aconteceu.

 

E aqui, abro um parêntesis, para contestar algumas acusações que têm sido feitas (inclusivamente no Aventar) a Otelo. Conheço-o bem, somos amigos, nessa medida serei algo suspeito. Pese essa circunstância, reconhecendo que poderá não ter sido ao longo do processo revolucionário (e, sobretudo, depois) um modelo de ponderação, mas ao deixar-se deter em Belém, evitou conscientemente uma guerra civil. Sem ser no Aventar, já ouvi imbecis e atrasados mentais a acusar o Otelo de estupidez. Reajo sempre mal, pois sei que lhe devemos que o 25 de Novembro não se tenha tornado numa data negra e não se tivesse saldado por muitas, muitas mortes. Otelo pediu a demissão do COPCON que ficando decapitado permitiu que o Regimento de Comandos da Amadora, quase sem constrangimentos dominasse os pontos estratégicos de Lisboa, acabando por controlar a situação.

 

Faz hoje 34 anos, a esta hora a «festa« acabara. Voltava-se à «normalidade». Pergunto agora aos militares de Novembro – todos ou quase todos tinham sido militares de Abril: – Esta normalidade que temos, mais de três décadas depois, era a que sonh
av
am em Abril de 74? E em Novembro de 75 foi  esta a normalidade que quiseram proporcionar ao País?

 

 

Buíça (1) aí uns cobres!

 

 

Segundo o Público, Mário Soares está raladíssimo com a crise em que o PSD se afunda. Sabedor como poucos do tipo de contratempos que a travessia no deserto da oposição significa para um Partido, M.S. diz que é necessário dar uma ajuda ao grémio laranja. No mundo onde roda a engrenagem das rotativas – na imprensa e no Parlamento -, são sempre necessários dois comparsas para a dança do costume. É que todas as precauções são poucas, pois embora o colega Silva Lopes, jovenzinho de setenta e sete anos – proveniente do caetanismo pró-terceira via – tenha cometido a proeza de se fazer nomear para a gestão de uma grande empresa "com ligações ao Estado", estes lugares jamais poderão deixar de ser cativos: "ou são para vós, ou são para nós, nada de penetras!"

 

E agora, só para irritar os do falso mas miliardário Centenário, aqui vai mais um naco de prosa de um ex-republicano, que em 1912 decidiu dizer (2):

 

"Com a República não há salvação possível. Uma esperança! Uma única! A restauração monarchica poderia trazer uma reacção benefica. Uma salutar licção para monarchicos e para republicanos. Talvez retardasse um pouco, pelo menos, a queda rapida, escorregadia e lobrega em que vamos para o abysmo. Mas com a república, está inteiramente, e desde já, tudo perdido."

 

Homem Christo, in Banditismo Político, Madrid, 1912.

 

(1) Buíça: em dialecto do sul de Moçambique, quer dizer "dá cá". Nada de confusões, p.f.

 

(2) isto não foi escrito após o debate do Prós e Contras de segunda-feira. O Português escrito é pré-Costa/Formiga Branca/Camioneta Fantasma/Leva da Morte.

 

O país iô-iô

Impostos sobem, impostos não sobem. Não basta estar deprimido, com a criminalidade em alta e a justiça em baixa, agora temos também o país iô-iô.

 

Há uns anos, Jorge Palma cantava "Ai, Portugal, Portugal, de que é que estás à espera?".

 

Talvez a resposta seja: "De um milagre".

Deixem os algoritmos do Google em paz

A pesquisa por imagens de Michelle Obama dá como primeiro resultado no Google uma distorção simiesca da dita senhora. Parece que houve reclamações, a empresa pediu muita desculpa mas explicou que os motores de busca não escolhem destinos.

Trata-se de uma variante imagética do velho google bombing, um bombardeamento via Google que agora parece estar muito a dar para o lado das imagens.

A coisa seria de todo irrelevante não viesse atrás a ideia de que os motores de busca devem censurar as pesquisas.

É certo que os motores de busca censuram as pesquisas, a pornografia por exemplo é em boa parte desclassificada, mas não abusemos.

A ideia de controlar politicamente os meios de que nos servimos para encontrar sítios na rede é a mais tenebrosa das ameaças sobre a liberdade de informação. O risco da pior das censuras.

Além disso as bombas google são bombinhas de mau cheiro, parvas mas inofensivas. Não liguem e deixem estar que o fedor passa num instante.

 

O paraíso socrático na bancarrota

Os sinais começam, ainda envergonhados, a vir à luz do dia.

 

Hoje no (i) Martim Avilez Figueiredo já lhe coloca o ferro a arder.  "…é indispensável que os portugueses se insurjam. Portugal está na bancarrota e ninguem parece preocupado. Devia estar. A situação é dramática"

 

Ontem já Vítor Constâncio, a "caixa de ressonância do governo" veio anunciar, como quem não quer a coisa, que o aumento de impostos é  inevitável.

 

A propaganda do governo, está a passar à segunda fase da sua política de gerir as expectativas. Face à verdade, nua e crua, põe os segundos tenentes a anunciar a má nova, enquanto Sócrates e o Teixeira dos Santos vão mudando o vocabulário.

 

Aumentar os impostos eis a solução  inovadora proposta por Sócrates, quando se sabe que já são os portugueses os europeus a quem é exigido o maior esforço fiscal.

 

O país está a chegar a uma situação onde nunca chegou, e não culpem só a crise. O PS está no governo desde 1996 (com a ausência de 2,5 anos).

 

O buraco são sete  mil milhões. Faltam milhões de euros para as despesas do Estado e faltam ideias para resolver os 8% do défice. O desemprego não pára de subir, como se vê, diariamente, com as falências das empresas e já vai em 10%, se é que não ultrapassou (basta contar com quem não tem emprego mas não conta para o desemprego).

 

A dívida pública é de tal maneira monstruosa que o governo nunca fala dela, mas é tão real como Sócrates perder grande parte da credibilidade, com as trapalhadas em que se envolve (ou em que se deixa envolver).

 

 O governo jura que não vão subir impostos mas o governador do Banco de Portugal dá uma ajuda : não há alternativa. É ultrajante. Sócrates não encontra solução para Portugal. Mas se Sócrates não encontra solução para o país e é primeiro-ministro, quem encontra?

 

Na Europa discute-se relançar a economia com uma poderosa reforma fiscal – pôr tudo em causa. E há mais alternativas que na Europa se discutem, mas que não passam pelos TGVs e por mais autoestradas. Nenhuma fará milagres, mas é criminoso ver o país à beira da bancarrota e fingir que não se passa nada!

Varabilidades

TEXTO DE FRANCISCO LEITE MONTEIRO

 

A media em geral continua a dedicar largo espaço à investigação do já famoso caso “Face oculta” em que o ex-ministro socialista do governo de Guterres, Armando Vara, é sem dúvida a “estrela” dentre os vários arguidos, prosseguindo a investigação das suas habilidades, a cargo do Juízo de Instrução Criminal de Aveiro. A notícia destas “varabilidades” traz à mente uma outra que foi de primeira página, no Público de 10 de Janeiro do ano passado, quando Vara deixou a Caixa Geral para assumir o cargo de Vice-Presidente do BCP. Então fazia depender a aceitação do novo cargo da condição de lhe ser concedida uma licença sem vencimento, sem abdicar do cargo na Caixa Geral, assegurando assim um “oportuno” regresso à Caixa. Qual terá sido o desfecho dessa “varabilidade” – lembra o dito popular britânico “Have the cake and eat it…” quase o mesmo que tirar partido do “melhor dos dois mundos”… – não terá sido clarificado, como também subsistem dúvidas sobre a obtenção de uma outra “maravilha” que veio a público. Não se sabe bem como, Armando Vara obteve uma Pós-Graduação em Gestão Empresarial no ISCTE e só bastante mais tarde viria a concluir uma licenciatura na famigerada Universidade Independente, a mesma universidade onde o seu amigo Sócrates – com quem mantém contactos telefónicos frequentes, como se sabe – obteve uma licenciatura em engenharia, que também deu brado.

Sem especular, importa aguardar a conclusão da investigação e que, oxalá, não tarde o esclarecimento público de toda a verdade e a justiça seja exercida.

 

Mulher a crescer, machismo a tremer

 1. Introdução em forma de fandango

 

A temática é imensa. O debate com a minha equipa nunca mais acaba. Porém, encurralo as ideias para começar apenas com a do título. O meu título é uma hipótese. Uma hipótese depreendida da experiência da minha pesquisa, como é habitual. Pesquisa que analisa crianças. Análise de criança necessária para o adulto entender o seu contexto. Adultos a mudarem vertiginosamente nos últimos tempos. Na década do Setenta do Século XX, estudei no Chile, com uma equipa formada por mim, por Blanquita Iturra, analista, e Nilsa Tápia, Assistente Social, um grupo de mil mulheres casadas a viverem nas suas casas, objecto da minha investigação. As casas serviam para cuidar dos pequenos e alimentá-los. Lares dominados pelos homens, maridos ou não, pais das crianças ou não, mas lares dominados contra o prazer das mulheres. Ainda me lembro da mulher que falava do seu lar e do orgulho que sentia por ele e pelo seu homem ser capaz de lhe dizer o que fazer. A raiva que sentia, ao mesmo tempo, porque tudo o que ela fazia, não era da sua satisfação. Mulher a não saber era do amor, mas sim da servidão. Mulher com raiva do marido, mas com o orgulho de sentir que tinha um homem que mandava e entendia o mundo.

Esse que ela parecia não perceber. Mulher que falava enquanto as outras senhoras do grupo calava a olhar para o chão. História já referida por mim num outro artigo deste jornal.

Trinta anos depois, esta história aparece diferente no meu sentir. Faz-me pensar que o homem procurava amparo na mulher e vice-versa. Homem que não queria ter mais uma outra voz em casa a dizer o que fazer. Homem criado para governar o lar com palavras, sem entender as horas vazias da mulher mãe, da mulher empregada de cozinha, da mulher varredora do chão, lavadora de roupa, aquecer a cama à espera do homem que quer amar. Homem criado para mandar e aparentemente sábio na sua autoridade. Eis a filiação da infância cujo estudo me interessa e absorve. E, enquanto penso, sinto a solidão do homem, pai, companheiro, culturalmente autoritário. Machismo, dirá o leitor? Machismo, dirá a leitora? Machismo, digo eu, da mulher e do homem. Mulher a crescer, a entender o mundo além do lar. Homem habituado a ser apenas ele a perceber o mundo fora do lar. Batalha travada faz séculos e ganha hoje em dia pela luta feminina. Feminismo, onde não se dá luta nenhuma pela masculinidade. Ideia esta, a da masculinidade, certa e segura durante séculos e em várias culturas. Até que um dia a economia faz tremer, faz tremer a sociedade e o homem perde a arrogância pelo desamparo no qual fica. Desamparo que o homem sofre por parte da mulher, que entra na economia. Esse domínio definido sempre como masculino. Enganado ou não. Certo ou não. Festa ou drama. Triunfo ou derrota. Dança espalhada pelo mundo, quer no fandango, quer na lei, quer na doutrina: da costela do barro do homem, foi feita a mulher, diz o Génesis da Bíblia. Da licença do marido para a mulher trabalhar, dependia a liberdade da mesma, dizia o Código Civil Napoleónico, organizado como Código Civil Português em 1867, reformulado nos anos setenta do século XX, para autonomizar a mulher. Da orientação do homem depende a opção da mulher, tem dito o Código de Direito Canónico de 1917 e 1983; e a Doutrina Católica que governa grande parte do mundo, regulamenta a interacção social e em consequência as formas sociais de entender. Recebes uma mulher, não uma escrava, costuma dizer a mulher para o homem. Vou a casa preparar a comida do meu homem, oiço dizer as mulheres pelos vários sítios onde estudo os seres humanos e as suas ideias, faz já trinta anos.

 

2. Mulher a crescer

 

Mulher a crescer? Essa, uma entidade adulta? Sim senhor, mulher a crescer desde o minuto que começou a entender que sem o seu contributo económico, a casa, o lar e as crianças, não conseguiam serem sustentadas apenas com o trabalho ou contributo de um dos membros do lar: largamente o masculino. O masculino mais adulto, o masculino mais velho. Trabalho produtivo, porém, criado para uma mentalidade específica, a mentalidade que sabe comandar e tem tido autoridade ao longo de milénios. A nossa cultura greco-judaica, cristã ou não, escolheu a mulher para ser um troço da economia reprodutiva de seres humanos. Seres humanos a serem dados à luz, como Teresa Joaquim debate em 1983 e dedilha de forma mais aprofundada em 1997, como Berta Nunes analisa em 1997 e Lígia Amâncio distingue em 1994. Forma de trabalho que coagem a mulher para um canto da casa, tal e qual comenta Pierre Bourdieu em 1998: Aristóteles entendia que todo ser penetrado não tinha direito a voz, fosse masculino ou feminino. A mulher, esse ser, destinado à penetração de forma concebida pela fisiologia que nos governa, tem continuado a existir relegada ao domínio do doméstico. Quer nos factos, quer no pensamento social. Prova é, não apenas o quotidiano das pessoas no Ocidente, bem como as estatísticas a dizerem a primeira mulher Primeiro-ministro da Inglaterra, a primeira mulher Presidente duma República da Europa, da República do Chile e outros casos. Como nas Presidências dos Bancos, das industrias, das Reitorias das Universidades, na direcção dos hospitais, na gestão dos trabalhos da terra. Como Madame Curie, vestida de homem para assistir à Universidade, a perder o seu nome pelo casamento. Como as mulheres todas a lutarem pela igualdade com o homem, a começar pelas que reclamavam o direito a voto. Mulher a invocar a declaração de princípios da Independência dos U.S.A, escrita por Thomas Jefferson(1775):

Todos os seres humanos nascem livres e iguais Mulher a orientar o lar a partir da lei do divórcio. Casos históricos e públicos. Os mais cobiçados pelas pessoas que gostam do poder para controlar o que entendem, entendam ou não; os mais desprezados pelas pessoas que procuram entender que a legitimidade da autoridade está no entender com amor e sem poder… Mulher a crescer, porém, entre duas formas de perceber a feminilidade: o pensamento social patriarcal, o pensamento social feminista. Feminismo construído como movimento, feminismo fabricado pela economia que nos governa desde 1979, essa de Milton e Rose Marie Friedman e os seus discípulos da escola de Chicago. Escola de Chicago estendida pela Europa, pela África, pela América Latina, especialmente pela União Europeia a concorrer com a união mais poderosa dos Estados Unidos de América. Mulher que cresce, queira, saiba ou não, dentro do pensamento até faz pouco, masculino apenas, do tecido social que fabricamos. Mulher a crescer e deitar culpas ao homem que a enclausurou, reduziu a reprodutora dele e das crianças. Mulher que cresce sem o norte milenário do pensamento masculino, introduzido no seu pensar faz trinta anos, ou mais. Pensar que não a sua prática tem sido apenas a de orientar o lar portas adentro. O homem, a governar o mundo de portas afora. Fêmea crescida a presa, ao som da economia que faz dançar aos acordes, da conta bancária, dos juros, do carro a comprar, das jóias a exibir caso for preciso, do preço do dinheiro, do valor do que sabe fazer e que aprendeu, de forma nova, dentro do seu grupo social. Mulher masculinizada em esta gestão a concorrer com as ideias patriarcais que agora também possui. Ideias a bater na antiga forma patriarcal Ocidental e Oriental. Mulheres a crescerem e mudarem de forma e maneira, que nós homens, e várias mulheres ainda, acabam por as não entender como merecem. Nem eu, que tenho observado o caso e estudado com as já citadas autoras. Que, como pai e marido eu próprio, ficara sempre imbricado no meu entender cultural da vida, traído pela educação a nós transferida desde a infância. A nós. Os de todos os sexos e orientações. Filiação a dar origem a uma infância que percebe melhor por não ser geração de transição, como a nossa.

 

 

3. Machismo a tremer

 

Um conceito delicado, este de machismo usado neste texto. Machismo é um sentimento que gosto definir como o de mandar nas emoções da pessoa que se penetra, seja física, seja idealmente. Com o corpo ou com as ideias. Sentimento de dominação do espaço social e dos afazeres. Comando sobre a lei costumeira e a lei positiva. Sentimento necessário, como o etnocentrismo, de pensar que somos os melhores, os que mais sabemos, os que entendemos o contexto e o definimos. Machismo, conceito aplicável a toda idade e toda relação entre seres humanos, quando há um que diz e ao outro toca ver, ouvir e calar. O machismo que treme, porém, não é o masculino do homem. É o masculino da economia que nos vê agir e nos manda comportar. Os homens, habituados à forma patriarcal do comportamento social, ficam perdidos. Bem gostam de serem gentis e sedutores, oferecerem flores e carícias, visitarem, convidarem, apalparem… A resistência é dura. A sedução é um comportamento distribuído de forma igual entre as pessoas. Até é difícil, num texto como este ou noutros semelhantes que tenho escrito, diferenciar entre homem e mulher. Entre heterossexual, bissexual, andrógino e outras classificações semelhantes. A partir de Sábado 16 de Setembro do ano 2000, no dia que a Holanda aprovou a lei de matrimónio entre pessoas do mesmo sexo lei justa e largamente esperada por tantos e em tantos países, como invoca o jornal que a anuncia –o machismo deixou de ser o privilégio dum sexo para passar a ser um conceito passível de ser aplicado a todos os que, na relação emotiva, comandam sem autoridade e com força subversiva. Blanca Iturra, Coordenadora del Programa de Reparación e Atención Integral en Salud y Derechos Humanos, PRAISE, no seu gabinete de Hospital. Este é o machismo que levou a muitos seres masculinos a perderem as pessoas femininas das suas vidas, por não terem entendido a liberdade real que essa pessoa companheira, merecia. Pessoa companheira, a não entender essa liberdade; pessoa que deixa de ser companheira ao sentir que a sua liberdade não é que lhe esteja fechada: é que a não entende. Não entende como ser utilizada. Não entende como acompanhar e completar o outro ser que, no seu ver, a limita, a fecha, parece ser abandonada em casa. A viver essas horas mortas de criar uma pequenada que mama, come, chora, procura meios para explorar a vida. Meios que apenas encontra no adulto que fica com essa criança, em casa. Seja uma ela ou um ele; seja uma mãe, um pai; Sejam duas mães, dois pais, avôs, uma empregada ou nana. O machismo está a tremer e nós, a ficarmos sós, desamparados. O sentimento social mudou e nós, adultos de hoje, criados na infância de ontem, não sabemos qual o modelo para nos orientarmos ou para dar apoio à geração seguinte, essa que pede conselho. Qual é o que podemos dar? Será preciso reler Tomás de Aquino, Adam Smith, Milton Friedman? Autores por tantos ignorados e, no entanto, por todos praticados, saiba-se ou não. Ou ver Johaness Vermeer, pintor ao óleo, Século XVII, Holanda, e lembrar?

4. Coda final.

Será que o leitor vive este sentimento? Sentimento que é um feito observado por mim durante trinta anos em Continentes e gerações diferentes. Gostava de lhe dizer que as temáticas sobre a emotividade do nosso Século XXI, são muito difíceis, são apenas uma exploração do agir da transição que começa a aparecer junto a nós. Nos tempos da nossa juventude, nos tempos da nossa maturidade, nos tempos de que falei nesse artigo do mês de Junho e que nunca mais me abandona, como ideia central para entender a epistemologia da criança. O machismo é um elo central a analisar para entender a criança: ficamos a saber mais de nós, dos nossos aparentes fracassos individuais e o seu contexto. Factos resultado apenas duma mudança na forma de ser, no acontecimento do dia a dia, das formas de amar, das formas de gerir os raros recursos que a economia nos permite. Há quem diga que é o Governo, há quem diga que é o Diabo, ou Deus. Ninguém quer ver dentro de si para entender que a História mudou e alastrou à individualidade na sua mudança. Mudança normal quando lemos do passado, difícil de entender na nossa época. Essa que nos faz, forma e reforma. A filiação das nossas crianças é heterogénea. Apenas cabe aceitar. Sem raiva. Como essa mulher da minha história, que nos começos dos anos setenta, acabou por gritar no meio das outras: quem m
e dera que a minha casa desaparecesse, que as suas paredes esbatessem e eu possa vir para rua…a fazer…o quê, não sei, mas deixar esse lar que me asfixia
. Era a mulher de Ventura, Rosa, de Huilquilemu, perto de Pencahue, em Talca, Chile. Mulher que foi para a rua, e na rua ficou só. A aprender até hoje, o como viver a vida gerida por ela, sem mais ninguém. Só. No dedilhado da suite de Bach, com som de fandango. Queira o leitor responder.  A Minha resposta é simples: Afrodita o Venus de Milo, representa o que muitos de nós ainda procuramos

Bibliografia.

Amaule, El, Jornal em linha, Região do Maule, Centro do Chile:Entrevista Dra.Blanca Iturra de Toro.

Amâncio, Lígia, 1994: Masculino e Feminino. A Construção Social da Diferença, Afrontamento, Porto.

Aquino, Tomás de, (1267-1273) 1969: Summa Teológica, University of Nôtre Dame, Indiana.

Bourdieu, Pierre, (1998) 1999: A dominação masculina, Celta, Lisboa

Friedman, Milton e Rose, (1979) 1980: Liberdade para Escolher, Europa-América, Lisboa.

Franklin, Benjamin, 1775: Declaration of Independence, varias edições.

Iturra, Raúl, 1972: Elementos para el Estudio de la Movilización Campesina, CEAC, Universidad Católica de Chile, Talca.

2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto

Junho, 2000: Os meus pais não são pessoas, in A Página da Educação, Profedições, Porto.

Joaquim, Teresa, 1983: Dar à Luz, Dom Quixote, Lisboa

1997: Menina e Moça, Fim de Século, Lisboa

Nunes, Berta, 1997: O Saber Médico do Povo, Fim de Século, Lisboa.

Smith, Adam (1776) 1874: The Wealth of Nations, Murray. A., Londres. Há versão portuguesa.

Vandermeer, Johannes, 1665, pintor Nêerlandes

 

Estorietas de rufar de tambores de guerra

 

 Pelos mais recentes relatórios que na imprensa surgiram, as clivagens entre os militares do Reino Unido e dos EUA foram profundas, logo desde o início da Guerra do Iraque. Estas divergências têm antecedentes bastante conhecidos e para não irmos muito longe, bastará recordar o gáudio dos oficiais ingleses perante a tremenda derrota sofrida pelos G.I. às mãos de Rommel, na batalha do Passo de Kasserine. Para citarmos outro exemplo, a inépcia do comandante-em-chefe Aliado, o sr. Einsenhower, provocou uma investida das forças da Wehrmacht na Bélgica (Dezembro de 1944), quase comprometendo a viabilidade da Frente Ocidental. Montgomery zurziu violentamente na capacidade de discerrnimento dos seus aliados de além-Atlântico e as considerações tecidas pelos comandantes de campo ingleses, em relação à capacidade dos mastigadores de chewing-gum, foram tema de conversa nos clubes militares londrinos ao longo de décadas.

 

 

 

Uma poderosa logística, onde não faltam loções para a barba e quiçá depilatórios, oferece imensas possibilidades de contentamento pessoal às tropas em campanha. No entanto, para o sucesso, os EUA sempre recorreram muito legitimamente à força da sua indústria, carpetes de bombas, desfolhamento maciço, o 30 para 1. Por vezes, poderemos ser tentados a pensar no que teria sido a Guerra de África, se os aliados americanos tivessem facultado a Portugal uma ínfima parte do equipamento desperdiçado no Vietname e que era necessário às nossas forças?

 

Não se duvida da valentia e abnegação do soldado americano, mas este frenesim em tudo controlar através de um descarado exibicionismo, é simplesmente caricatural.

 

Quem não se lembra das públicas e grosseiras reprimendas do general Schwarzkopf  ao comandante-em-chefe do exército saudita, Kalhid bin Sultan durante a 1ª Guerra do Golfo? O truculento germano-yankee, não suportava a ideia de poder ser sublimado aos olhos dos soldados árabes, por um "cameleiro qualquer" que para cúmulo, era um príncipe, um pecado mortal. In God We Trust!

 

Estórias que a História não se cansará de repetir. Agora, os ingleses provam do remédio que costumavam administrar a certos Aliados. É a lei das compensações. Bem feito!

 

 

 

 

Contos proibidos: Memórias de um PS desconhecido. A editora «Perspectivas & Realidades» e a resistência ao Partido Comunista

continuação daqui

 

«A editora Perspectivas & Realidades, hoje propriedade de João Soares, foi constituída por escritura notarial de 24 de Setembro de 1975, com um capital de 300 contos dividido em partes iguais entre João Soares e Victor Cunha REgo. Era inicialmente co-dirigida por Bernardino Gomes e Ivone Cunha Rego, sendo o seu primeiro lançamento «O Triunfo dos Porcos», de George Orwell. Mas quando este conhecido livro foi publicado, já o PCP estava em declínio e as «P & R» acabariam por se transformar essencialmente, nos anos seguintes, na editora dos livros sem mercado dos principais dirigentes do PS, com destaque para os de Mário Soares. (…)

No seguimento da Conferência de Estocolmo, aumentaram as delegações que vieram a Portugal exprimir o seu apoio ao PS, sendo os apoios financeiros normalmente canalizados através da já referida conta na Holanda. Por vezes, contudo, o dinheiro vinha das maneiras mais improvisadas, tendo eu assistido, em casa de Tito vde Morais, a uma entrega por parte de uma delegação sueca que acabara de chegar e que, de repente, começou a triar maços de notas dos bolsos de cada um dos membros da delegação. Nessa altura ainda Carlos Carvalho era tesoureiro do Partido, mas era assessorado por José Manuel Duarte. A partir de certa altura, Carvalho, que fora fundador do PS em Bad Munstereifel, desapareceria para sempre da cena política, passando essa tarefa para Fernando Barroso, que acabara de chegar de Moçambique, onde vivera durante muitos anos. A partir de então Fernando Barroso ocupar-se-ia desse cargo, assim como da administração financeira das Fundações ligadas ao Partido, até ao IV Congresso em 1981. O secretário-geral tinha entretanto saído do Governo e ao ocupar-se do dia-a-dia do PS, compreendera a importância das finanças, que controlaria rigorosamente através do seu cunhado. Uma das medidas adoptadas nesta área seria a progressiva descapitalização da conta na Holanda, movimentada por José Neves e a abertura de uma conta pelo próprio secretário-geral no Bank fur Gemeinwirtschalf em Frankfurt. Esta conta a que Gunter Grunwald chamaria «contas especial do Mário»  só seria encerrada anos mais tarde e, pelo que consegui apurar, movimentaria somas consideráveis. (…)

Naquele período, a resistência ao PCP representava um verdadeiro sorvedouro de dinheiro, que Mário Soares ia mandando entregar  por intermédio dos seus colaboradores. 

E bem melhor do que a minha memória, os meus registos mostram as seguintes entregas em dinheiro para acções de resistência ao PCP: a 23 de Setembro, 300 contos depositados na conta da Associação António Sérgio e, nesse mesmo dia, 1000 contos entregues a Gustavo Soromenho para o jornal «A Luta». No dia 27 de Setembro, 1000 contos entregues ao cunhado de Mário Soares, José Manuel Duarte. Depois, ao tesoureiro do PS entregaria 1000 contos a 30 de Setembro, 2000 contos a 28 de Outubro e 500 contos a 11 de Novembro. A 20 de Novembro, seriam entregues quinhentos mil escudos mais. No rescaldo do 25 de Novembro, certamente para pagar despesas pendentes, seriam entregues a 1 de Dezembro 1800 contos à Administração Financeira do PS e, a 4 de Dezembro, mais 500 contos ao tesoureiro Carlos Carvalho.

Evidentemente que não conheço a totalidade do conteúdo das caixas de biscoitos, nem os movimentos das contas de Frankfurt e da Holanda, nem, tão-pouco, outras verbas relacionadas com este período, oriundas dos americanos ou as que o ex-presidente Carlos Andres Perez disse ter entregue a Mário Soares.  Consegui, contudo, apurar que antes da reunião de EStocolmo Rolf Theorin mandaria transferir para a conta na Holanda mais meio milhão de coroas suecas. Também o PSD da Dinamarca enviaria mais 304 690$00 em Março e 29 734 coroas em Setembro.

 

 

Pimenta no cu dos outros para nós é refresco

"Existe uma separação entre o foro judicial e o foro político, mas nada impede uma acusação (e eventual condenação) na ordem política, porque se trata de um juízo totalmente distinto e independente da ordem penal (…) Num país democraticamente maduro, o que estaria em discussão era a substância do problema (ou seja, a censurabilidade política dos factos em causa) e não a legitimidade ou pertinência da apreciação da conduta do ministro do ponto de vista da sua responsabilidade política."

Vital Moreira em 2002 e a propósito de Paulo Portas, citado por Pedro Lomba no Público de hoje.

Isto está a passar das marcas

Na Sabado, o Gonçalo Bordalo Pinheiro  ( transcrição livre )

 

"Isto está a passar das marcas" diz Sócrates. "Isto" é um processo de corrupção que está ser investigado e que envolve vários socialistas e um grande amigo, Armando Vara. "Isto" são os meses a fio em terá sido escutado sem autorização do Supremo. "Isto" é o facto de não ser arguido e ter visto as suas conversas privadas transcritas. "Isto" é a impunidade com que se persegue o primeiro-ministro.

 

No entanto, antes do linchamento dos procuradores e dos juízes, responsáveis por mais uma campanha negra, valeria a pena esclarecer algumas das queixas de José Sócrates.

 

Em primeiro lugar ele não foi envolvido nas escutas. Envolveu-se ao manter uma relação com um suspeito de corrupção. Em segundo, ele não foi escutado meses a fio – quem foi escutado foi Armando Vara, Sócrates aparece nas escutas por falar regularmente com alguem suspeito de participar numa "rede tentacular ".                                                 

 

Em terceiro, as suas conversas privadas não foram transcritas – o que foi transcrito foram as conversas que um juiz considerou indiciarem um crime. Finalmente, isto não é outra perseguição – é mais um caso judicial em que o nome de Sócrates aparece envolvido e em que a sua conduta é questionável.

 

Isto, sim, começa a passar todas as marcas!

A máquina do tempo: Gualdino Gomes – uma operação de resgate (2)

(primeira parte aqui)

 

 

 

 

 

Caricatura de Gualdino Gomes por Rafael Bordalo Pinheiro (1900).

 

Por volta de 1913 ou 1914, espalhou-se um dia pelos cafés da Baixa de Lisboa a notícia da morte de Gualdino Gomes. Quem conta é Raul Brandão: «o Ratola, velho companheiro na Biblioteca, se apressou a cumprir o seu dever de amigo, de camarada e de poeta. O Ratola é um funambulesco, balouçando-se dentro de uma sobrecasaca empertigada, luneta de tartaruga e ar de quem cumpre sempre uma missão importante – até quando vai à retrete. Subiu as escadas do prédio onde morava o morto (tinha lido o número da casa no Diário de Notícias), relembrando algumas frases de efeito… Abriu-se a porta do quarto onde o morto, coberto com um lençol, deitava já um cheiro adocicado – a cadáver e a aguardente. Duas mulheres, de preto, choravam ou rezavam. Ratola compenetrou-se, assoou-se com solenidade e disse para a que supunha ser a viúva: – Minha senhora: os meus sentido pêsames… Ele foi o que se chama um grande boémio – mas muito bom rapaz. O vulto de preto ergueu-se, protestando com dignidade ofendida: – Meu marido, senhor, nunca foi um boémio! Meu marido foi um modelo dos esposos e dos retroseiros! Mas o Ratola, que se sentia também magoado no seu valor e no seu conhecimento da vida, obtemperou: – Ora essa, minha senhora! Eu conheci muito bem seu marido e fui companheiro dalgumas borgas literárias… Um boémio! – Oh, meu Deus! Meu marido um boémio!… E, um a teimar que sim, a outra a protestar que não, estiveram quase a pegar-se diante do cadáver – até que empurraram o Ratola pela porta fora. – Eu conheci-o! O Ratola não conhecera aquele… Houvera engano. Quem morrera fora outro Gualdino Gomes, brasileiro», pois o nosso Gualdino, estava a essa hora na Biblioteca Nacional a encher verbetes, com o olho do Raul Proença em cima.

 

Não abundam, infelizmente, as fontes escritas sobre este homem que pouco escreveu e muito falou. Por isso, colhemos as migalhas de informação que fomos colhendo ou que, de uma forma ou de outra, nos chegaram. Por exemplo, Raul Proença agradeceu, no prefácio do primeiro volume do seu monumental Guia de Portugal, a assistência «paciente e crítica» de Gualdino na gestação daquela sua obra. Porém, o texto mais eloquente sobre a personalidade de Gualdino Gomes é, quanto a nós, as palavras da dedicatória do grande Aquilino Ribeiro, no seu livro Estrada de Santiago, palavras que transcrevemos na íntegra:

 

«Com a devida vénia de quem o sabe avesso à publicidade, peço licença para lhe dedicar este livro que leva um nome pomposo da arquitectura celeste e não passa de um nicho das almas, desses nichos de singela e cândida fábrica que velam à beira dos caminhos. No ofício das letras, tão mofino e miserando em Portugal, que ou a pena se parte, se acanalha, a guia fadário ou o Espírito Santo, a sua sombra, Sr. Gualdino Gomes, é, se volvo os olhos à retaguarda, uma das que encontro sobre os meus passos aprazível e tutelar. Vejo-o lá longe, no meu começo, apadrinhando o Jardim das Tormentas com a astúcia e a bondade discreta dum filósofo de Eleia. V. , que conhece todos os livros e ninguém vê com um livro, metera-o no bolso do jaquetão e dias a fio subiu e desceu o Chiado, à espreita a imagem verde, flamante, que lhe alegra a capa. Por este meio singular e outros, alvoroçou a curiosidade dos que o conhecem – ia dizer chamou a atenção da confraria literária em que capricha manter-se irmão leigo. Quando em Paris fui informado, enterneci-me. E, eu lhe digo, nessa circunstância, o impenitente perdulário do espírito, o amável zombador, que em si deslumbram, ofuscaram-se ante o homem de ânimo benigno, talhado dir-se-ia sobre um padrão de Anatole, se espontaneamente, visceralmente não fora essa a sua índole, muita sua por obra e graça só de Deus. Certo e ser V. como Sócrates, por Platão comparado aos Silenos que se viam expostos nas oficinas dos escultores, com uma gaitinha nos dedos. Ao abrir as duas partes de que se compunham, apareciam estátuas de divindades. Como ele, herdou de Mársias a veia faceciosa. O sátiro tangia frauta; a Gualdino basta a palavra para fascinar quem o ouve. Como ele, tem horror à escrita e joga ao vento, com um desapego soberano, o oiro de suas vozes e pensamentos e até o veneno subtil dos seus juízos. Como ele, ainda, é o catequista dos incipientes. Por todos estes argumentos que brotam do cérebro ou sobem do coração , eu lhe devia a fruste oferta deste livro. Muitas vezes, à janela, nas noites de lua baça, quando a Terra, em redondo, parece a boca dum cesto enorme, suspenso ao firmamento pelo aro luminoso da Via Láctea, em que tudo soçobra, homens, coisas e loisas, metia a mão no seio a procurar. Achava espinhos, remorsos, uma ou outra flor imarcessível, e a gente que aí vai, alguma celestial e sobre-humana, da muita que eu via andando, andando Estrada de Santiago fora. Digne-se, Sr. Gualdino Gomes, a ceitar a pobre homenagem, e, de meus ousios em escalar o céu, a Deus prestarei contas mais confiado.»

 

Gualdino Gomes é por muitos considerado um «escritor menor» e deste modo displicente atirado para as catacumbas do esquecimento. Vimos já que ele próprio se considera um «não-escritor.» Como bem diz Raul Brandão, «a sua mocidade irrespeitosa prolongou-se até aos cabelos brancos» e sempre preferiu arranjar mais um inimigo a perder a oportunidade de desferir uma das suas estocadas de ironia ácida. José-Augusto França define-o como uma «curiosa figura de erudito e de «blagueur» do Chiado.» Como podemos ver pelo testemunho de Correia da Silva e pelas palavras de Aquilino Ribeiro, a despeito da sua persistência na crítica mordaz, soube conviver com os mais jovens e ajudá-los sempre que lhes reconhecia valor e mérito. Um dos testemunhos orais que nos chegaram, foi o de Manuel da Fonseca, um dos jovens que teve o privilégio de o conhecer, e que afirmou ser Gualdino «um conversador fascinante.» E Manuel da Fonseca, além de extraordinário escritor, foi  também um emérito conversador e contador de histórias. Não esqueçamos o testemunho de Beatriz Costa que, num livro autobiográfico disse  só ter aprendido a ler aos 13 anos de idade e sozinha e que iniciou a sua alfabetização à mesa da Brasileira, rodeada por homens como Almada Negreiros, Gualdino Gomes, Aquilino Ribeiro e Vitorino Nemésio.

 

 

Balas de Papel foi o título de quatro opúsculos panfletários que nos legou, projecto de uma revista bimensal que durou dois meses, entre Novembro de 1891 e Janeiro 1892. Tratava-se de uma publicação de sátira política, social e cultural, cuja inspiração pode ser encontrada nos textos das Farpas e de Os Gatos, embora as diatribes não possuíssem a mesma riqueza formal dos modelos. No primeiro número, salienta-se a dedicatória a Fialho: «Ao Fialho de Almeida/Preito de vassalagem ao maior de todos os escritores portugueses/Saudação vibrante de entusiasmo ao escarnecedor justiceiro e temível dos Gatos.» Como sabemos, uma ironia de Fialho sobre um soneto seu ter-lhe-ã bloqueado a veia criadora. Pelo menos, essa é a desculpa que dá ao longo dos quase sessenta anos que se seguiram para quase nada ter publica
do
, pois além desses pequenos folhetos, escreve ao todo pouco mais de uma dúzia de artigos, dispersos por revistas e jornais. Publica também um soneto na Seara Nova, para além desse tal outro que, ridicularizado por Fialho, é, segundo Gualdino a causa próxima da ruína da sua carreira. É talvez muito pouco para justificar uma vida que se prolongou por mais de 90 anos e em que pelos menos 70 foram votados à literatura. Porém, não esqueçamos, Gualdino Gomes é sobretudo um leitor, a sua função é ler e dar a sua opinião, nem sempre caridosa, mas sempre honesta e desassombrada. As «balas de papel» que disparou não foram muitas, mas aquelas que fez de palavras proferidas nas mesas do Café Chiado, da Brasileira, ou do Martinho, tiveram preponderante influência em sucessivas gerações de gente das letras. Algumas perduram até aos nossos dias. E, se pensarmos bem, isso já não é pouco.

 

Eis a ficha biográfica que as enciclopédias não trazem:

 

Gualdino Gomes nasceu em Lisboa, em 19 de Abril de 1857. Nesta cidade passou a infância e fez os seus estudos, licenciando-se em Letras (Curso Superior de Letras). Durante a juventude viveu algum tempo no Brasil, no Estado do Pará, regressando depois a Portugal onde foi admitido como bibliotecário na Biblioteca Nacional.Em 30 de Novembro de 1891, lançou, com Carlos Sertório, a publicação Balas de Papel, da qual sairíam quatro números. Em 1 de Fevereiro de 1894, subiu à cena no Teatro Avenida de Lisboa a revista A Tourada que Gualdino Gomes escreveu de parceria com o conceituado dramaturgo Marcelino Mesquita. Fez parte do «Grupo da Biblioteca» que, liderado por Raul Proença, esteve na base de muito do que, na época, aconteceu na vida cultural do País, incluindo a criação da revista Seara Nova (lançada em Outubro de 1921). Desse grupo faziam parte, além de Gualdino, Jaime Cortesão, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Afonso Lopes Vieira, Reinaldo dos Santos, José de Figueiredo, Raul Lino, Luciano Pereira da Silva.  Aquilino Ribeiro dedicou-lhe, em 1922, o seu livro de contos e novelas Estrada de Santiago, escrevendo um expressivo e comovido texto. Em1924,Raul Proença, no prefácio do primeiro volume do seu Guia de Portugal, agradeceu-lhe a colaboração prestada. Publicou em 1926, na Seara Nova, um soneto, uma das poucas obras que nos legou. Em 1927, atingiu o limite de idade, sendo aposentado do seu cargo na Biblioteca Nacional. Durante algum tempo, exerceu as funções de director-interino daquela instituição. Na passagem do seu 90º aniversário, em 19 de Abril de 1947, um grupo de amigos prestou-lhe uma homenagem realizada no Museu de João de Deus. Com 91 anos, morreu em Lisboa no dia 18 de Setembro de 1948.

 

 

 

Prós e Contras – É a credibilidade, estúpido…

Hoje juntaram-se quatro homens do Direito, para falarem do Estado da Justiça.

 

O que esteve subjacente foi, como não podia deixar de ser, o processo "Face Oculta". Nenhuma opinião consensual para além das que até o homem da rua entende. Tudo o mais opiniões diferentes. Sustentadas pela Lei, por artigos, números, pelas burrices dos deputados, enfim, um rio de saber  que ao chegar ao destino se reparte em mil braços.

 

Em relação à  "Face Oculta" houve uma vertente que ganhou prepoderância com o debate, assomou com muita frequência nos discursos dos quatro magistrados e professores de Direito.

 

A credibilidade de quem exerce funções públicas!

 

O PGR tomou decisões mas a dúvida persiste. Dois magistrados em Aveiro reconheceram índicios de crime grave contra o Estado. Quem tem razão? Na Alemanha em caso idêntico, o PGR deu a conhecer aos cidadãos os índicios do crime que levou aos tribunais o primeiro ministro kron. O povo português não merece saber o que levou dois magistrados a reconhecerem índicios de um crime grave? Ou são dois inimputáveis?

 

Depois há a questão da "relevância social". Resolvida a questão criminal, jurídica, persiste o alvoroço social, a comunicação social, a oposição política, os cidadãos.

 

Este alvoroço seria o mesmo, ou haveria alvoroço, se o político fosse outro ? Cavaco, Soares, Sampaio, Guterres, Eanes alguma vez se viram envolvidos neste circo de descrédito ? Foram muito atacados no plano político, mas no plano da credibilidade pessoal, alguma vez a sua vida privada e política deu azo a suspeitas? Com esta intensidade e com este ritmo?

 

Quem não quer ver que sem credibilidade pessoal não é possível governar, não entende os sinais do tempo. A Fátima Ferreira já ali disse que as escutas vão aparecer na comunicação social, e que  há procuradores do leitor de jornais que, face à inquietação pública, já confirmaram que vão publicar.

 

Em Democracia é assim !

 

 

Estamos em depressão

De repente damos por nós em pleno colapso. Sentimo-nos em baixo, sem vontade, sem determinação, arrasados por uma série de problemas ou circunstâncias, perante as quais não apresentamos capacidade de reacção. Se não estamos em depressão, é um sentimento que anda lá muito próximo.

 

O pior é quando o colapso é colectivo. Não é apenas uma pessoa, uma família, uma comunidade isolada mas todo um país. Assim anda Portugal.

 

Mergulhado num mar de incertezas, o país continuam num clima económico miserável, e do qual tardará em sair, um Governo em estado vegetativo, sem rumo aparente, um primeiro-ministro acossado por suspeitas, uma liderança da oposição ausente e naufraga, uma justiça em colapso, enredada em milhares de leis que só servem para a atrasar e uma desconfiança permanente em redor dos seus agentes. Eles desconfiam uns dos outros e o povo desconfia de todos eles.

 

Estamos deprimidos. Quem nos acode?

Estranhas aventuras… na praia de Inverno

Normalmente sou “obrigado” a ir à praia durante as férias de Verão, por causa do meu miúdo, por isso uma ida à praia de livre e espontânea vontade é um acontecimento raro. Não é que não goste de praia, mas sinceramente prefiro o campo e a montanha. Por isso mesmo, prefiro ir à praia no Inverno; o clima é mais agreste como o da montanha e como bónus, fica-se muito mais à vontade porque não há “montes” de pessoal a acotovelarem-se por um sítio livre onde possam ver e ser vistos por toda a gente. Isto faz-me pensar que na realidade as pessoas gostam do calor do sol e não da praia propriamente dita. A prova disso é que no Inverno a praia está sempre vazia.

Tenho de reconhecer que não entendo o fenómeno da praia-praia. Aquela normal praia de Verão. Não percebo como se consegue estar para ali espraiado a esturricar ao sol, tentando avidamente obter o bronzeado mais homogéneo e escuro possível. Nem sequer entendo o próprio fenómeno do querer ficar bronzeado.

Não tenho paciência nenhuma para estar sentado/deitado na areia a queimar a pele ao sol, cronometrando precisamente o número de vezes em que preciso de me virar para obter “aquele” bronzeado uniforme e espectacular. Até o conseguiria suportar se volta e meia conseguisse mergulhar na água. O problema é que as águas do Norte têm essa característica peculiar de serem absolutamente gélidas. É como acabar de tomar um banho quente e depois ir meter os pés num bidé cheio de pedras de gelo. Depois é a própria lógica da coisa que não faz sentido: aquecer o máximo possível ao sol, até a um nível insuportável que depois torne suportável entrar em águas geladas, que por sua vez tornam novamente suportável o facto de se estar tecnicamente a esturricar aos poucos… não entendo.

Mas também não vejo mal nenhum nisso. Pelo menos, existe um contacto directo com a natureza, coisa rara nos dias de hoje, repletos de betão e centros comerciais. É apenas a lógica da coisa que eu não entendo.

As raras vezes que vou à praia de livre vontade é porque me apetece apenas olhar o mar. Sentir a sua imensa força e poder, o seu cheiro e o medo que me inspira. Adoro o som forte e seco das ondas a rebentar nos rochedos. Convida à reflexão. E estando aqui a olhar para o mar não consigo deixar de me perguntar: donde veio toda esta água? Sendo que o ciclo da água é um ciclo fechado, e que eu saiba, não é possível “criar” água, portanto, donde terá vindo esta água toda? E porque é que este planeta coberto em dois terços da sua área por água se chama Terra?

Muitas mais questões me surgem enquanto olho o mar, mas sinceramente, não consigo responder. Sentado sozinho na areia, gelado pelo vento, a escrever num velho caderno preto, sem acesso ao grande cérebro digital que é a internet, sem “googlar” e “wikipediar”, chego à conclusão que não sei muita coisa básica porque tomo estes e outros "factos" como garantidos. Sentir o mar “põe-me no meu lugar” perante a complexidade e força da natureza. Põe-me no meu minúsculo lugarzinho no Mundo, mostrando-me, verdadeira e friamente, o que é a pequenez e a insignificância. Mas mostra-me acima de tudo que não é nada boa ideia ir contra a natureza e continuar na senda de destruição deste belo planeta azul. Por um lado, porque o empenho humano não tem limites (assim como a sua estupidez) e portanto, é bem capaz de o conseguir, mas por outro lado, o mais importante, é porque o planeta é capaz de “ripostar”, e já é mais ou menos evidente que  vai mesmo fazê-lo. É nitidamente uma má ideia, porque este planeta além de ser bipolar (muito inspirador belo numas alturas e muito agressivo e brutal noutras) não me parece que vá alinhar em grandes conversações, discussões ou políticas diplomáticas… Veremos se as nossas grandes acções têm ou não, grandes repercussões.

A praia de Inverno e especialmente o mar revoltoso fazem-me reflectir.

Fazem-me pensar em coisas que eu não entendo. Questões complexas e coisas simples, lá está, como ir à praia de Verão. Estender um pano no chão e bronzear ao sol. A minha visão dessa “praia de Verão” é esta: um lugar onde as pessoas se deitam em cima de um material de construção civil, a esturricar com o efeito da combustão de hidrogénio e hélio a milhões de quilómetros de distância, para depois irem mergulhar numa quantidade enorme e gélida de água que ninguém sabe donde veio.

A praia de Verão, esse sítio estranho onde, em público, se pode passear de roupa interior.

O Sôr Assis

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O REGRESSO ÀS CAMPANHAS NEGRAS CONTRA SÓCRATES II

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O sôr Assis, a quem já partiram os óculos, tendo sido um dos dois dirigentes do partido do governo a quem isso aconteceu (embora este nada tenha que o compare ao outro a não ser nessas circunstâncias, a de ter os óculos partidos e pertencerem ao mesmo partido), veio botar faladura. Mais uma vez sobre a campanha ignóbil que uns quantos fazem contra o nosso Dialogador. A exemplo das campanhas negras e pessoais de que Sócrates I se queixava, agora a campanha visa decapitar o governo de Sócrates II.

Ora o sôr Assis, entende que o facto de mandarem arquivar ou destruir ou seja lá o que for que vão fazer ou fizeram aos documentos que traduziam as escutas efectuadas ao telemóvel do sr Vara, e onde por mero acaso aparecia a voz do sr José Sócrates, na altura nosso Primeiro, com o cognome de O Arrogante, é a prova cabal de que nada se pode apontar de menos correcto ao comportamento do Primeiro Ministro. E adianta que quem quer saber o que os dois amigos disseram, é um bilhardeiro e quer cortar a cabeça ao governo.

Digo eu que, o facto de esconderem da opinião pública tais conversas pressupõe, isso sim, menos correcção ou até mesmo coisas más, ditas ou feitas pelos senhores envolvidos.

Se houvesse realmente liberdade, se o envolvido neste caso fosse outro que não o nosso Primeiro, Sócrates II, O Dialogador, será que as escutas teriam sido mandadas destruir?

A dúvida permanecerá para sempre, e mais uma vez, o sr Pinto de Sousa se vê envolvido em coisas pouco bonitas.

Onde há fumo, costuma haver fogo, e o cântaro, tantas vezes vai à fonte que, mais dia menos dia, acabará por partir.

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Governador de quê?

Ao ouvir hoje o Governador do Banco de Portugal, tive a sensação de que o Sr. Vítor Constâncio é de uma inutilidade invulgarmente transparente, pelo menos para uma pessoa como eu, que não percebe a ponta de um corno de economia. Mesmo inútil, inoperante, dispensável excrescência do sistema, conseguiu pôr-me o sangue a ferver, ao anunciar o inevitável aumento de impostos.

 

A corrupção é, indiscutivelmente, um cancro global. E as metástases já invadiram todos os órgãos do nosso corpo social. Desde os órgãos privados aos órgãos públicos, governos, autarquias, instituições, justiça, saúde, ensino, banca, desporto, empresas, finanças, tudo! Tudo está inexoravelmente invadido e corroído pela tentacular, maligna e cancerígena corrupção. Podemos dizer que o tratamento se nos afigura meramente paliativo, em fase terminal, ainda por cima supervisionado pela suprema incompetência que transparece da cara de menino de coro com que este senhor se apresenta aos nossos olhos.

 

Dizia-me um amigo, ao qual dou inteira razão, que não tinha medo dos ladrões de rua, que o assaltaram uma ou duas vezes na vida. Tem medo e vive aterrorizado, isso sim, com os que o "assaltam" legalmente todos os dias, governo, instituições, polícia etc., sem que se vislumbre uma centelha de esperança na contenção deste desenfreado meter de mão nos seus bolsos. E tal como eu, sente o sangue a ferver, e o ódio a crescer, quando percebe que o produto dos impostos que o Sr Governador quer aumentar, e de tantos outros "assaltos" legais, nada mais visa do que engrossar a torrente de massa que vai direita aos bolsos dos milhares de corruptos que auferem milhões de euros a coçar os tomates.

 

Aumento de Impostos – está no programa?

Se me tenho lembrado mais cedo, mais cedo o nosso governador do BdP teria encetado a "campanha de consciêncialização" do povo para a necessidade de aumentar impostos.

 

Nenhum partido falou nesta possibilidade, bem pelo contrário, uns mais outros menos, do que se falou foi da hipótese contrária. Baixar os impostos!

 

 

A senhora Merkel, para conseguir uma coligação com a direita, teve que ceder nesse particular, baixar impostos. Essa é, de facto, uma grande ajuda para as empresas e para o relançamento da economia. 

 

Em contraciclo, aí vamos nós para o aumento de impostos, não que isso seja bom para a economia e para o país, mas porque a despesa pública galopa, é cada vez maior, e o Estado precisa de mais dinheiro. E arranja-o da única forma que conhece, tirando-o ao cidadão e às empresas.

 

Para os que viam intenções malignas nos que bradavam que o dinheiro metido na Banca servia para salvar ricos, pagos com dinheiro dos contribuintes, têm aí a resposta. Quanto custou ao PS controlar o BCP com o dinheiro da CGD? E no BPN? E no BPP? A ressaca vem a caminho, nacionalizaram-se os prejuízos e o contribuinte paga a factura.

 

E qual vai ser o imposto a aumentar? O que dá mais dinheiro e mais rapidamente, o IVA! Levam todos pela mesma tabela, ricos e pobres, empresas produtivas e casinos, é só arrebanhar, é democrático.

 

O problema (há sempre um poblema) é que os nossos produtos vão ficar mais caros, vamos exportar menos (única saída para a crise) vamos ter menos dinheiro para gastar, comprar menos, não vamos conseguir puxar pelo consumo interno e pôr as empresas a produzir e a vender mais.

 

Como uma parte cada vez maior das receitas do Estado, vai para o serviço da dívida, cada vez maior, e o relançamento da economia não se faz, (logo não há maior receita,) apesar de aumentar impostos o Estado vai ficando com menos dinheiro, e a possibilidade de isto entrar num "buraco negro" é mais que muita.

 

Vai ficar para quem vier a seguir. O empobrecimento do país e de nós todos!

 

No Centenário (6): as chaves do tesouro

A lição da História e da Verdade. Chegaremos a isto?

 

 "As quadrilhas não lhe sahiram ao caminho pela sua tyrannia, falsa tyrannia como havemos de provar; mas por elle (El Rei D. Carlos) se ter resolvido, emfim, a defender a todo o transe as chaves do thesouro. Perdoaram-lhe todos os crimes. Não lhe perdoram essa virtude. Morto elle, a corôa, no dia seguinte, rendeu-se a assassinos. O poder cahiu na lama. O principio e a força da auctoridade, já tão abalados, extinguiram-se de todo. E desde essa hora solemne quem reinou em Portugal não foi D. Manuel, filho e successor do rei assassinado. Foi a carabina do Buiça. Podia mais este assassino, do fundo da sua sepultura, que a lei, o direito, o sceptro, a policia, o exercito, todas as forças moraes e materiaes d’uma monarchia que ha quasi oito seculos vivia."

 

Do antigo militante do PRP, Homem Christo, 1912

Portugal é mais corrupto do que a Itália – a propósito da polémica

 

Nos últimos dias, vai forte a polémica, dentro e fora do Aventar, acerca do último «post» que escrevi. Referia-me então ao arquivamento das escutas entre Armando Vara e José Sócrates, escutas essas que dois Magistrados da comarca do Baixo Vouga – um Juiz e um Procurador do Ministério Público – consideraram conter indícios de crime contra o Estado de Direito.

 Não fui eu que o disse, foram dois Magistrados independentes. Independentes porque não nomeados pelo poder político.

Não foi esse o entendimento do Procurador-Geral da República, um cargo que, como se sabe, não é, na prática, independente. Porque a sua nomeação, ao contrário dos outros Magistrados, depende do poder político: é nomeado pelo Presidente da República sob proposta do Governo. Da mesma forma, é também o Governo que pode propor ao Presidente da República a sua exoneração.

É por isso que, no que diz respeito ao conteúdo desse «post», não tiro uma vírgula – as instâncias superiores da Justiça protegem e defendem os titulares de cargos políticos e evitam que eles sejam chamados à barra do Tribunal.

Não faltam os exemplos. Sei que, como em todas as profissões, há os políticos sérios e os políticos desonestos. Mas então, como explicar que em todas as profissões haja desonestos que prestam contas à Justiça e na política não? É tudo gente séria…

Já quanto ao estilo, reconheço um certo exagero, fruto de ter escrito em cima do acontecimento. Que dizer? Olhem, que me inspirei num famoso «blogger» – que durante anos andou a chamar filho da puta a toda a gente e que, hoje em dia, é um garboso Deputado do Partido Socialista.

No meio de tudo isto, só tenho pena que a polémica tenha extravasado para a caixa de comentários de um outro «post», cujo objectivo era prestar uma sincera homenagem a Salgueiro Maia, o herói da Revolução de Abril e aquele que, se fosse vivo, estaria mutio desiludido com o estado a que isto chegou.

 

 

  

O arguido Rangel e a sua crónica

Emídio Rangel foi constituído arguido pelo DIAP de Lisboa que considera existirem indícios de prática do crime de difamação, avançando com o mesmo para julgamento. Em causa uma crónica publicada a 8 de Março de 2008 (e obviamente escrita na véspera) onde descrevia a manifestação de professores que ia ter lugar nesse dia. Emídio Rangel, o célebre homem do berbeqim, anda amofinado. A crónica desapareceu dos arquivos do Correio da Manha, certamente devido a um erro informático, mas fica aqui reproduzida, depois de recuperada das profundezas da net, onde o mais difícil é desaparecer alguma coisa. Lida hoje é um documento histórico que atesta o nível com que os professores foram tratados durante o governo de Sócrates I. De resto recuperar textos dos blogues sobre este tema deixará nos próximos tempos muito socratista à beira de outro ataque de nervos.

 

HOLIGANS EM LISBOA

 

Tenho vergonha destes pseudo-professores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações .

Eles aí estão ‘em estágio’. Faz-me lembrar os hooligans quando há uma disputa futebolística em causa. Chegaram pela manhã em autocarros vindos de todo o País, alugados pelo Partido Comunista. Vestem de preto e gritam desalmadamente. Como diz um tal Mário Sequeira, em tom de locutor de circo, “à maior, à mais completa, à mais ruidosa manifestação de sempre que o País viu” .

Eu nunca tinha apreciado professores travestidos de operários da Lisnave, como aqueles que cercaram a Assembleia da República, nos anos idos de 1975, com os cabelos desalinhados, as senhoras a fazerem tristes figuras, em nome de nada que seja razoável considerar. Lembro-me bem dos meus professores. Não tinham nada que ver com esta gente. Eram referências para os seus alunos. A maior parte escolheu aquela profissão porque gostava de ensinar. Talvez por isso eram todos licenciados e com um curso (dois anos) de pedagógicas. Aprendi muito com eles e quando dei aulas, no liceu e na universidade, utilizei muitas vezes os seus métodos.

Estou-lhes grato para a vida inteira. Hoje as coisas são bem diferentes, embora seja óbvio que estes manifestantes são só uma parte dos professores. Felizmente ainda há milhares de professores (talvez a maioria) que exercem com toda a dignidade a sua profissão. A manifestação é contra uma professora que agora é ministra. Uma ministra sábia, tranquila, dialogante, que fala com uma clareza tal que só os inúmeros boatos, a manipulação e a leitura distorcida do que propõe podem beliscar o que de boa-fé pretende para Portugal. Se reduzirmos à expressão mais simples as suas pretensões tudo se pode resumir assim :

– Portugal não pode continuar a pôr cá fora jovens analfabetos, incultos e impreparados , como acontecia até aqui.

– Os professores colaboraram com um sistema iníquo que permitia faltas sem limites, baixas prolongadas sem justificação e incumprimento dos programas escolares.

– Os professores não são todos iguais. Quero referir-me àqueles que sem nenhuma vocação (com ou sem curso Superior) instalaram um culto madraceirão que ninguém punha em causa nem responsabilizava, mas que estava a matar o ensino.

Confesso que tenho vergonha destes pseudoprofessores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações e transformaram-se em soldados do Partido Comunista, para todo o serviço. Maria de Lurdes Rodrigues é uma ministra determinada. Bem haja pela sua coragem. Por ter introduzido um sistema de avaliação dos professores, por ter chamado os pais a intervir, por ter fechado escolas sem alunos, por ter prolongado os horários e criado as aulas de substituição, por ter resolvido o problema da colocação dos professores, por ter introduzido o Inglês, por levar a informática aos lugares mais recônditos do País. Estas entre outras medidas já deram frutos. Diminuiu o abandono escolar, os métodos escolares estão a criar alunos mais preparados, os graus de exigência aumentaram. O PCP pode usar a tropa de choque que agora arranjou para enfraquecer o Governo e utilizar as suas artes de manipulação e demagogia até a exaustão. Mas creio que a reforma tem de se fazer, a bem do País. É absolutamente nítido que os professores não têm razão. E os estúpidos do PSD que se aliaram ao PCP perderam o tino de vez, porque Portugal não pode parar mais. Espero ver Luís Filipe Menezes à cabeça da manifestação contra os interesses do País.

Emídio Rangel

Se continuam assim não há pedras que cheguem até ao fim da temporada

O autocarro do Guimarães foi apedrejado, este domingo à noite, quando a equipa regressava a casa, após a vitória sobre o Benfica, na Luz.

 

Os Juízes que investigam Sócrates são bufos…

Incapazes de compreenderem que  um país decente e democrático, não pode ter um Primeiro Ministro sobre o qual recaem, uma e outra vez, suspeitas de favorecimento de amigos, de atropelo à lei, de tirar cursos ao domingo, de controlar bancos privados com o dinheiro do Estado, de mentir à Assembleia da Republica, de calar telejornais, de falsificar fichas pessoais enquanto deputado, passaram em desespero de causa a chamar "bufos" a quem tem o dever de investigar.

 

E a quem tem o dever de não deixar que as provas sejam destruídas, conforme a opinião de ilustres penalistas e que teve vencimento, como se vê pelo arquivar em vez de destruir.

 

É óbvio que o Juiz titular do processo, o juiz local, é independente no que se refere à instrução daquele processo e não tem que receber instruções de quem quer que seja. Que isto não agrade a quem quer calar as vozes independentes que ainda se fazem ouvir na Justiça é que é um autêntico escândalo.

 

João Palma, Presidente do Sindicato do Ministério Público, ainda ontem na televisão, dizia que o ministro que inventou a "espionagem política" ia ter que a explicar. É que hoje trava-se uma luta sem tréguas na Justiça. Entre os que querem "abafar" tudo (como aquele militante do PS, Presidente do Eurojust, que fez umas ameaças aos colegas acerca do Freeport) e os que sabem que se não avisarem a opinião pública tudo morre no ar condicionado do poder.

 

Mas agora passou-se a uma outra fase da operação. Quem critica Sócrates não é patriota. E acenam-se com créditos, com amizades e com contactos, já perceberam que no país de Sócrates estas ameaças funcionam.

 

Esquecem, todavia, que há pessoas que nunca precisaram de mudar a sua opinião ao sabor de interesses pessoais ou partidários. E muito menos de utilizar o nome honrado de Salgueiro Maia para atacarem quem não pensa de igual forma. Foi para isso que se fez o 25 de Abril!

 

Como fui eu que convidei, pessoalmente, o senhor Coronel Vasco Lourenço, para nos falar de Salgueiro Maia e face ao que foi aqui comentado por outro Capitão de Abril, irei  agradecer ao Presidente da Associação 25 de Abril, da qual sou sócio, e desvinculá-lo do convite que lhe fiz.

 

Lá estaremos, dia 5 de Dezembro, com outras pessoas e outras opiniões sobre Salgueiro Maia. É assim em democracia. Os heróis não são propriedade de ninguém!

 

Prometemos que vamos continuar a opinar com a independência e a liberdade que lhes devemos, de todas a melhor forma de  perpétuar a madrugada libertadora!

 

Déficite democrático

Há cada vez mais sintomas, bem visiveis, de uma asfixia democrática que faz o seu caminho, sem que a sociedade civil, mais uma vez, preste a devida atenção.

 

O artigo da Sábado, onde revela que Sócrates tentou, com um telefonema de alguem que lhe é próximo, impedir a saída do artigo sobre o Freeport, é assustador. Está lá assumido pelo director do SOL, com todas as letras e com nome.

 

A verdade, por mais que os seus apaniguados digam o contrário,é que o primeiro ministro tem no seu ADN, o gene do "xico-esperto" como lhe chamou Marcelo Rebelo de Sousa. Tudo se consegue com dinheiro, tudo se compra, o poder, mesmo o obtido por meios democráticos, justifica os meios. Exercer um poder democrático exige contenção, respeito por quem não pensa do mesmo modo e  a integridade para obedecer às leis  e à Constituição.

 

Junta-se a isto, o facto, hoje indesmentível, que o país caíu numa situação alarmante de onde não sairá com estas políticas, cujos resultados o PS não quer ver. O PS está desde 1996 no poder, (com um hiato de 2,5 anos, tambem desgraçado), pelo que não pode alijar as responsabilidades inerentes a esse exercício.

 

O país entrou num período longo de empobrecimento, pela mão dos socialistas e do seu olhar centralizador, não substituiu o tecido empresarial com novas tecnologias, inovação e produção de bens e serviços transaccionáveis.

 

Os números das contas públicas, na hora da verdade, revelam-se tal qual as instituições da UE vêm apontando há muito tempo, contra os números falsos do governo. Está aí o Orçamento rectificativo a que Teixeira dos Santos chama "distribuitivo" e que pede mais 4.9 mil milhões de euros, o déficit está nuns impensáveis 8%. A dívida pública é um peso que o país não suportaria se não estivesse integrado na UE! Somos, novamente, o "pobrezinho" que vive das esmolas dos amigos!

 

E não sei se já repararam, mas a operação " aumento de impostos" já começou, ainda com tímidas manifestações mas já públicas, bem à maneira socrática de ir lançando a ideia para o curral se acostumar.

 

Bem dizia Vitorino. Habituem-se! Ou Jorge Coelho, quem se mete com o PS, leva!

 

Está visto que sim!

Dom Quixote e os nossos descendentes

Os que tiverem a paciência de ler este texto, podem perguntar-se qual a relação entre Dom Quixote e a nossa descendência. Eu próprio, coloquei-me a questão antes de iniciar a escrita. Estou certo, que esse querer saber relacional, fez-me saltar sobre esta máquina, que não apenas escreve, como também me faz pensar enquanto desenho as palavras. A imagem (nº 1) do artista Paul Gustave Doré (Estrasburgo, 6 de Janeiro de 1832Paris, 23 de Janeiro de 1883), leva-me a pensar que Dom Quixote foi o cavaleiro que se bateu pelas damas, mandando à sua frente Sancho Panza incumbido de limpar o caminho de obstruções que não lhe permitissem lutar pela sua amada. Amada que nunca vimos nas ilustrações, Dulcineia del Toboso estava na mente do Senhor, mas Doré estava obrigado a desenhar a dama (imagem nº 2) que enlouquecia de amores o seu cavaleiro.

 

Imagem n.º 1   Imagem n.º 2

 

 Não com estas formas, mas são as mulheres que amamos loucamente, profundamente, até o extremo de abater um pelotão completo de malfeitores, para resguardar a sua beleza, calma, serenidade e, ainda mais, essa paixão de querer procriar com elas. 

Dom Quixote estava inflamado de paixão, nem conseguia adormecer ao pensar no corpo, ou terno e branco, que o ia receber. Sem saber, por causa da sua doença, que Dulcineia não queria estar com ele. A paixão levanta até os cabelos do corpo, faz pouco da nossa razão e empurra o nosso corpo em procura da estabilidade de entrar nela; é o que tenho definido com a frase, que passou a livro: Desejo-te, porque te amo. O nosso corpo tem uma lei que nos acalma: entrar entre essas brancas pernas, enquanto amamos e acariciamos o resto do corpo, convidamos, seduzimos, deixamo-nos seduzir e no grito de angústia final, a nossa semente faz outro ser que amamos serenamente, corpo que nasce do doce lamentar da mulher amada e que prolonga os nossos sentimentos ao longo dos anos.e… perde por olhar para trás.

       

Imagem n.º 3    Imagem n.º 4

 

Com essa doçura que faz de nós Cavaleiros das nossas Damas que nos amam, que nos amam e nos protegem, tal como nós a elas. Dom Quixote estava doente de amor, de paixão, do impossível. A sua Dulcineia era a sua imaginação, a sua semente sempre levantada, não conseguia descansar da paixão. Queria a sua mulher e queria-a como mãe dos seus filhos. Doré não conseguiu reproduzir uma Dulcineia para nos amar, mas sim uma Beatrice da Divina Comédia que faz esquecer todo e qualquer amor que não seja o de Orfeu pela sua Euridice, que a encontra no inferno…. e a perde por olhar para trás

      

Imagem n.º 5, como Alighieri a Beatrice, nunca perfeita; Imagem n.º 6, Dom Quixote a sua Dulcineia del Toboso, apenas bela na sua realidade perdida.

 

A máquina do tempo: Gualdino Gomes – uma operação de resgate (1)

 

Da esquerda para a direita, Abel Manta, Aquilino Ribeiro, Gualdino Gomes e Júlio Costa Pinto. Esta fotografia, tirada em 1938 á porta da Havaneza, no Chiado, é a única que se conhece de Gualdino Gomes.

 

Sócrates, o filósofo grego, viveu entre 470 e399 a.C. Diz-se que era filho de uma parteira e de um escultor e marcou para sempre a história da filosofia. Nada deixando escrito, apenas o conhecemos através das difamações de Aristófanes, da imagem redutora que dele traçou Xenofonte e dos elogios de Platão, os quais lhe conferem uma dimensão que doutra forma não teria.

 

Há vultos que assumem grande importância e influência enquanto estão vivos e, se ninguém os recordar, desaparecem ao morrer, pois nem todos têm a sorte de ter um Platão como amigo.  Há também o fenómeno inverso, como o de Fernando Pessoa, que, como grande figura literária, só começou a «viver» cerca de vinte anos após a sua morte.

Vou falar sobre um homem que não tem o nome em qualquer rua e não figura sequer nas enciclopédias.Vamos conversar sobre uma figura da cultura do ultimo quartel do século XIX e primeira metade do XX, que a maioria das pessoas desconhece completamante – Gualdino Gomes. Salvaguardando as devidas proporções. Nem Gualdino era Sócrates, nem eu sou Platão.

 

 

«Sou um leitor, não sou um escritor», dizia aos que o acusavam de não ter obra publicada. Porém, mais do que um leitor, Gualdino foi um censor ético e estético, um critico severo e atento, cujas diatribes eram temidas. Os seus conselhos foram acatados por escritores de sucessivas gerações. Vagas de literatos e de artistas que pelos seus olhos foram passando, aguardavam, apreeensivos, o juízo que, da sua cadeira de café, Gualdino iria emitir.

 

Durante sete décadas manteve convívio com os mais notáveis homens de letras e artistas. Foi amigo de Oliveira Martins, de D. João da Câmara, de Teixeira-Gomes, de Marcelino Mesquita, de Raul Proença, seu director na Biblioteca Nacional. E foi íntimo amigo (e inimigo de estimação) de Fialho de Almeida. Óscar Lopes, na História da Literatura Portuguesa, afirmou que Fialho foi um émulo de Gualdino no seu «pontificado de café». A relação entre Gualdino e Fialho nem sempre decorreu de forma pacífica.

 

«Algumas figuras, de certo modo numerosas, fizeram do café o único cenário conhecido ao longo de toda a sua vida: Gualdino Gomes, Stuart Carvalhais, António Soares, Alberto de Sousa…», afirmou Marina Tavares Dias em Lisboa Desaparecida. Raul Brandão nas Memórias foi mais cáustico para a fauna que escolhia os cafés como habitat: «É na Brasileira e no café Chiado que os pobres-diabos, como rãs num charco de café, se exaltam ou combinam as revoluções do dia seguinte. A um canto, o Gualdino de gabinardo e barba branca, prepara a última piada…» Na realidade, o nome de Gualdino Gomes é quase indissociável dos lugares que, durante mais de sete dezenas de anos, foii ocupando às mesas dos cafés da Baixa lisboeta. Como recorda José Gomes-Ferreira, há «alvos predilectos (…) das setas envenenadas de muitos arcos» que a fauna dos cafés desfere. Júlio Dantas é um deles (- Júlio Dantas é o discípulo do chinó do Garrett! dirá Gualdino Gomes «mestre dos mestres dos conversadores de café»).

 

Uma reportagem do Notícias Ilustrado de 1928 – «Lisboa e os seus cafés», proclamava, legendando uma foto da fachada do Martinho, situado no então Largo de Camões (hoje Praça D. João da Câmara) – «O Martinho que ainda se lembra de Fialho e de Gualdino». Alberto Allen Pereira de Sequeira Bramão, o político e jornalista, numa evocação organizada pelos Amigos de Lisboa em 26 de Dezembro de 1936, recordou a tertúlia do Martinho: «o que caracterizou esta casa era o grupo literário que todas as noites realizava as suas sessões de cavaqueira irreverente, em torno das chávenas de café e do pontífice que era o incomparável Fialho de Almeida. Desse grupo faziam parte Marcelino Mesquita, Manuel Silva Gaio, D. João da Câmara, Gualdino Gomes, Heliodoro Salgado, João e Levy Marques da Costa, João Chagas, o espirituoso Figueiredo (Pinturas), Eugénio de Castro, Abel Botelho […] Guerra Junqueiro e Rafael Bordalo Pinheiro também apareciam de longe a longe.»

 

O escritor Fernando Correia da Silva, no romance Querença, contou dois interessantes episódios ocorridos em 1947 ou 1948, pouco antes da morte de Gualdino. O Fernando era na altura um muito jovem estudante e fazia parte de um grupo que, no Café Chiado, onde Gualdino Gomes, já muito idoso, era figura destacada: «- O Gualdino é um sobrevievente solitário. É mantido por filhos ou netos de amigos seus já falecidos. Magro e comprido, barbicha branca, à duque de Guise. Roupinha no fio, mas sempre distinto e distante, aristocrata por defesa e temperamento. Diz ele para o criado de mesa que anda sempre a bufar: «Ó Pina, traga-me uma bica e um queque, mas que seja fresquinho.» «Ó Sr. Gualdino, os queques acabaram de chegar…» «Também eu acabei de chegar e já tenho 90 anos…» Segunda história: «Um dia, um preto… Esqueci-me do seu nome. É angolano e jornalista. Anda sempre a louvar o génio universalista dos portugueses, pois o Infante, assim e assado, o Vasco da Gama e Albuquerque… (…) Pois um dia o preto, no Café Chiado, decide humilhar o velho. Não suporta a sua ironia, isso é coisa do reviralho e merece correctivo. Intercepta o Gualdino, aponta-lhe a gola do sobretudo, grita, apregoa para que todos ouçam: «Ó Gualdino, você tem aqui um piolho…» O Gualdino mira o piolho, real ou fictício, para o caso tanto faz. Com um piparote do dedo médio logo o dispara sobre o preto: «Ah malandro, vais já desterrado para a costa de África!»

 

Gualdino foi assíduo frequentador dos galinheiros dos teatros de Lisboa. Os galinheiros eram os lugares mais baratos, com assentos incómodos, situados no topo das salas e, portanto, mais distantes do palco, com má visibilidade e deficiente acústica. Ao galinheiro deu-se também o nome de geral.  António de Sousa Bastos, marido de Palmira Bastos, escreveu: «Apesar de ter aparecido apenas uma única vez no teatro, como colaborador de Marcelino Mesquita na revista A Tourada, que se representou no Teatro Avenida, [Gualdino Gomes] é bastante conhecido no meio teatral por ser um dos mais salientes manifestantes contra grande número de originais que se representam no Teatro Normal [D. Maria II]. No café Martinho, à porta do Mónaco, no galinheiro do D. Maria, é sempre ele o chefe das verrinas.»

 

A propósito desta forma de exercer crítica teatral – através do aplauso vibrante e ruidoso, da pateada ou do hilariante chiste gritado em coro por espectadores da geral, voltemos a Raul Brandão e às suas Memórias: «Pertenceu à malta que ia com Fialho para o galinheiro dos teatros deitar as peças abaixo – pertenceu à malta esplêndida que se levantou como um só homem e gritou – Às armas! – quando, no palco, um actor vestido de porteiro anunciou aos outros a entrada do senhor general – metendo para sempre no fundo apeça, o autor e os comediantes.»

 

Da sua mesa de café, Gualdino assistiu à passagem de grandes e pequenos vultos, de diversas gerações e de distintas correntes literárias. À chegada de uns e à partida de outros, como numa estação de caminho-de-ferro. Viu desaparecer grandes
no
mes da literatura e da cultura:  Alexandre Herculano, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Oliveira Martins, Gomes Leal, João de Deus, Eça de Queirós, Tomás Ribeiro, António Nobre, Gervásio Lobato, D. João da Câmara, Fialho de Almeida, Bulhão Pato, Mário de Sá-Carneiro, Marcelino Mesquita, Gomes Leal, Maria Amália Vaz de Carvalho, Teófilo Braga, Augusto Gil, Wenceslau de Morais, Florbela Espanca, Raul Brandão, Henrique Lopes de Mendonça, Fernando Pessoa, Leonardo Coimbra… 

 

Na sua juventude, relacionou-se com alguns dos próceres da chamada Geração de 70. Viu depois chegar os realistas e os parnasianos, os neo-românticos e os simbolistas, a gente do Orpheu, os futuristas, os presencistas, os seareiros (foi um deles), os neo-realistas, os surrealistas… Durante a sua longa vida assistiu à abertura da Avenida da Liberdade, às grandes comemorações camonianas que constituram como que um ponto de partida, um importante marco, na luta pelo derrube da Monarquia, ao apaixonado e exaltado debate da Questão Coimbrã, ao evoluir das obras de Eça de Queirós, de Antero de Quental, de Sampaio Bruno, de Teófilo Braga, de Ramalho Ortigão, de Oliveira Martins, de Fialho de Almeida, à criação do famoso Grupo do Leão, imortalizado por Columbano, ao Regicídio, à proclamação da República, à eclosão da Grande Guerra, à Revolução de Outubro, ao sidonismo, ao advento do fascismo e do nazismo, ao 28 de Maio, à instauração do corporativismo salazarista, à Guerra Civil de Espanha, à Segunda Guerra Mundial…  A política não era território em que lhe interessasse internar-se. No entanto, não permaneceu alheio às vicissitudes que afectavam o povo. Não aprovava o regime autoritário que, desde 1926, vinha, com as mutações necessárias à sua sobrevivência, a dominar a vida social, política e cultural do País.

 

Falando da relação de Gualdino Gomes com Fialho de Almeida, disse Raul Brandão que, apesar da sua isenção crítica, «com apenas dois ou três folhetos [foram quatro, na realidade!] e um soneto no bolso» – pois esta é toda a sua bagagem literária –   sempre se mói com alguma inveja quando vê outros escreverem mais um folheto do que ele conseguira produzir. E acrescenta: «Passou a vida a inventar pormenores do Fialho, vingando-se, como ele próprio confessa, da maneira como o grande escritor tratou aquele soneto que começava assim: Nas soirées do Gervázio/De olho matreiro e gázio… – Por causa dele deixei de escrever! Escarneceu a minha obra!»

 

Sobre a biblioteca de Fialho, disse Gualdino: «Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. São apenas quatro mil volumes, ou pouco mais, mas – vai surprendê-lo esta minúcia – estão aqui todos por abrir. Há aqui Balzac e Zola, Eça e Ibañez, os Goncourt e Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta literatura de costureiras e guarda-portões era para as grandes hora amarguradas.» Conta também que, pretensioso e janota, Fialho «ostentava uma grande corrente de ouro e uma esmeralda de brasileiro na gravata. Num dia de tourada, apareceu no Martinho, com uma camisa vermelha que teve de tirar pela troça que lhe fizeram: – Julgo que nunca, nem com a própria mulher, teve relações senão de amizade. Os seus quartos de dormir eram separados, um em cada extremidade da casa, e pela manhã, quando ela lhe batia à porta, ele dizia sempre: – Espere, menina, que eu ainda não estou vestido.»

 

Do lado de Fialho de Almeida as referências a Gualdino Gomes foram muito escassas. Em Os Gatos, referindo-se a um atentado falhado contra o imperador D. Pedro II do Brasil e dissertando sobre a imperiosa falta que ao currículo dos monarcas que se prezem faz um regicídio, mesmo que falhado, diz – «Oh meu senhor, habilite-se! Uma reles bomba que seja.» (estava-se em 1889, a 21 anos de distância de um regicídio bem sucedido…). Neste contexto, e propósito de uma alfinetada literária a D. Luís, dizendo que ele traduziu tão mal Shakespeare «que esfriou entre nós o fetichismo pelas obras-primas estrangeiras – subtil maneira esta de V.M. reconduzir o gosto à exclusiva adoração das nacionais!», continua assim a diatribe. «Era trabalho onde o meu rei despejaria a contento geral as asneiras que lhe tivessem sobrado dos seus outros trabalhos literários, e que podia sugerir talvez ao Sr. Gualdino Gomes, por via do rancor plumitivo, o tirázio que V. M. jamais pechinchará do Sr. Consiglieri Pedroso, mercê do jacobino.» Referia-se aqui Fialho ao professor universitário, ensaísta positivista e militante republicano, Zófimo Consigieri Pedroso, famoso pela acutilância dos seus folhetos doutrinários. Fialho de Almeida colocava Gualdino no topo da agressividade verbal, comparando as suas verrinosas piadas a um tirázio regicida.

 

(Continua)

 

Maria cheia de Graça ou Meu Bebé

 

Era um 25 de Novembro de um ano qualquer, mas poucos anos antes deste 25. Era de manhã. Deu imenso trabalho: a mãe já era crescida, antes haviam outras. Nasceu a rir, dizem por ai. À noite, nunca fazia barulho, apenas se tiver fome. Como acontece hoje em dia. A mais nova de quatro meninas, teve imensas mães para tratarem dela. Dizem que foi um acidente, mas nem por isso fatal. Era na aldeia, ao Norte de Portugal. O pai foi mudado, sociedade patriarcal, a família toda teve que ir trás o pai. Santo dia! Sair do Norte deste país onde o galo canta e bem, faz dos pintainhos limpar a terra até e passarem a ser raparigas ternurentas e trabalhadores.

 

 

 

 

 

 

 

 todas bonitas, serenas, gentis e colaboradoras umas com as outras. Todas estudaram e receberam o seu canudo das mãos de quem correspondia. Como a riqueza não era muita, trabalharam sem parar e apreenderam especialidades. E, entre trabalho e trabalho, iam nascendo crianças que concebiam com os seus homens. Homens compreensivos, mas manhosos. Maria Cheia de Graça não suportou e ficou só com a sua filha e a sua neta. E a tomar conta da descendência das mais velhas, mal podiam estar com ela, a descendência. Havia esse que mais amava e que, faz três semanas, a deixara para entrar na eternidade  e tomar conta dela desde esse sítio desconhecido para nós. Era um companheiro doce e querido tão inteligente, ou talvez ainda mais, que a tia. Entre eles não havia silêncio. Ele queria saber todo, ela que conhecia essa procura não conseguiu esperar e se especializou em saberes que o sobrinho adorava. Esse sobrinho especial, que desde o seu sítio por cima de nós, toma conta de todos, especialmente da mãe, da mãe da mãe e da tia mimada. Eram, ela, como ele, uma pura gargalhada que continua, em silêncio no dia de hoje, enquanto espera pela sua vez para vê-lo outra vez. Como ainda falta muito tempo, passou a esperar enquanto trata do seu cabelo, da família e dos seus seres queridos. Maria Cheia de Graça passou a ser uma Rapunzel. Homenagem que lhe rende quem apenas recebe favores dela, um Quixote a sua Dulcineia em dia de sol que comemora o seu aniversário à Bebé