Ainda a propósito dos negócios

A mim parece-me bem.

Privatize-se Machu Picchu, privatize-se Chan Chan,
privatize-se a Capela Sistina,
privatize-se o Pártenon,
privatize-se o Nuno Gonçalves,
privatize-se a Catedral de Chartres,
privatize-se o Descimento da Cruz,
de Antonio da Crestalcore,
privatize-se o Pórtico da Glória
de Santiago de Compostela,
privatize-se a Cordilheira dos Andes,
privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei,
privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.

E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez
a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo…

E, já agora, privatize-se também
a puta que os pariu a todos.

– José Saramago, em “Cadernos de Lanzarote – Diário III”. Lisboa: Editorial Caminho, 1996.

P.S. Tragicamente, este sublime escrito não perde a actualidade, antes pelo contrário. Passe o machismo da catacrese final; para o caso, tanto faz.

E amanhã há mais Marcelo

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Cartoon de António Jorge Gonçalves

Por volta das 21h, alguns órgãos de comunicação social deram conta de um motim no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Um motim à portuguesa, apesar dos colchões à arder, ao qual o Grupo de Intervenção de Segurança Prisional da GNR foi chamado, apesar de não ter chegado a entrar. É que o motim, do qual resultaram zero feridos, teve início pelas 19h e pelas 20:30h já estava concluído. Tipo aquelas manifestações que começam tarde e desmobilizam por volta da hora do jantar.

Já o presidente Marcelo, que não falha uma, terminou o jantar com o seu homólogo chinês, fez a resenha do Livro Vermelho do Mao, abandonou o Palácio da Ajuda, parou para ver as luzes de Natal e deu um salto ao Estabelecimento Prisional de Lisboa, onde se inteirou da situação, confortou pessoas, tirou selfies e deu abraços. Meio país sem saber o que se passava e já Marcelo tinha ido e regressado.

Marcelo – lapalissada alert – está mesmo em todo o lado. E tende a ser o primeiro a chegar. Na cerimónia e na tragédia, na Websummit ou no Estoril Open, Marcelo é omnipresente e, reza a lenda, ainda tem tempo para ler e dormir. Porém, há quem não aprecie o estilo. Há quem prefira aristocratas cinzentos com pulsões autoritárias. Eu, que não votei nele, e que deixei isso bem claro por estas bandas, não estou desagradado. Gosto de o ver em sítios, a conversar com pessoas e até a criar conteúdos para redes sociais. Podia ser pior, o que, nos tempos que correm, sempre dá algum conforto.

E amanhã há mais Marcelo.

Barroso e o desígnio do diesel

Durão Barroso foi um dos principais responsáveis pela aposta europeia na tecnologia diesel, pela multiplicação de viaturas particulares a diesel e pelos seus efeitos negativos, quer económicos quer ambientais. Durante os dois mandatos de Barrosos como Presidente da Comissão, a tecnologia diesel europeia foi eleita como uma das tecnologias prioritárias a desenvolver e a exportar massivamente para o resto do mundo. Poderia ter apostado no software de utilização livre Linux ou nos telefones móveis quando esta tecnologia era liderada pela Nokia ou pela Ericsson. Poderia ainda, ter apostado no investimento no desenvolvimento científico e tecnológico nas universidades e nas empresas europeias, como o fizeram Bill Clinton e Al Gore nos EUA com resultados conhecidos (Google, Facebook, Youtube, etc.). Em vez, Barroso apostou na estratégia comercial da Volkswagen e de outras marcas alemãs, sob o pretexto do acordo de redução do dióxido de carbono assinado com a Indústria Automóvel Europeia em 1998. Segundo a Comissão Barroso, a emissão de dióxido de carbono seria reduzida pela adoção dos motores diesel em alternativa aos motores a gasolina. Na teoria as contas pareciam bater certas, na prática essas contas escondiam uma estratégia mais lucrativa de venda de carros com motor a diesel e uma fraude na contabilização das emissões que seria desvendada mais tarde. [Read more…]

Menos Estaline, mais Mao Tsé-Tung

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Nestes tempos de imbecis populistas, que passam as tardes no Parlamento aos gritos em bicos de pés, a semear o medo e a falar de estalinismos que não existem, é interessante verificar que, graças ao empreendedorismo do governo de Passos Coelho e Paulo Portas, 8,8% da bolsa de valores portuguesa é hoje controlada pelo Partido Comunista Chinês. Estalines hipotéticos são um perigo, já os Maos desta vida são umas jóias de moços, que o digam Durão Barroso ou Franquelim Alves.

Dois ditadores entram numa cimeira do G20

 

Na cimeira do G20, dois ditadores cumprimentam-se com aquele entusiamo de quem faz do presidente da superpotência mundial a sua bitch. Diz quem esteve por lá que trocaram ideias sobre como eliminar opositores e jornalistas, à bruta e sem consequências, sem prejudicar os seus investimentos na Europa dos Direitos Humanos. E que o dia terminou com a visualização da pee tape de Donald Trump.

Cimeira G20- Ouçam as vozes que se erguem

Ontem e hoje o clube dos 20 (os líderes das 20 mais poderosas economias do mundo) esteve na sua reunião anual, desta feita em Buenos Aires, numa Argentina em profunda crise, inflação em nível recorde de ca. de 40% e cujo governo recomendou aos habitantes da cidade que fossem passar fora o fim de semana devido aos previstos massivos protestos da sociedade civil. Os quais, ao contrário do que sucedeu o ano passado em Hamburgo, se mantiveram pacíficos, mas foram significativos.

Couraçados dentro do habitual cerco de muitos milhares de polícias e soldados armados até aos dentes (25.000 desta vez), lá estiveram eles – Xi Jinping, Temer, Trump, Putin, Erdogan, Merkel, Macron, May, Trudeau, Juncker, Mohammed bin Salman e outras estrelas dúbias -, os supostos chefes do mundo (os donos dos mercados financeiros partem-se a rir), dedicados a discutir os temas que supostamente são os do mundo, fingindo que os resolvem, à custa dos contribuintes.

Além da “guerra comercial” e das tensões na Ucrânia a dominar as discussões, na agenda encontram-se nobres objectivos, como a luta contra as alterações climáticas e a aplicação do Acordo de Paris, ou o desenvolvimento sustentável. E coisas como o futuro do trabalho, o empoderamento das mulheres, a fiscalidade da economia digital.

A incomensurável desfaçatez desta gente, que continua a assinar centenas de acordos de comércio „livre“ e investimento que boicotam a protecção do ambiente! ou que não arrisca impor um imposto chorudo aos colossos (digitais) que praticamente não os pagam, antes agachando-se cada vez mais em competição entre si, a bem dos colossos!

Falinhas mansas de hipócritas que atiram calhaus para os olhos dos povos, enquanto se ajoelham perante o capital. Quanto a ideias verdadeiramente novas para se libertarem das correntes que se aplicaram e aplicam a si próprios, para assim mais libertarem as transnacionais, é zero.

Hoje, conseguiram amalgamar os temas do comércio, mudança climática e migração numa declaração final vaga e oca, sem qualquer efeito real, com ou sem Trump. [Read more…]

Borba, uma tragédia que podia ter facilmente sido evitada

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Fotografia: Nuno Veiga/Lusa

Passam hoje precisamente quatro anos. A 1 de Dezembro de 2014, a Direcção Regional de Economia do Alentejo enviou, para Governo e para Câmara Municipal de Borba, informação detalhada sobre o estado da estrada 255, num documento de 22 páginas que descrevia e alertava para os perigos daquela via, concluindo que se encontrava em risco de colapso.

Para a CM da Borba, os alertas não eram novos. Meses antes, havia sido alertada para o perigo da 255 através de um memorando assinado por quatro empresas a operar na zona, que sublinhavam o risco que se veio a confirmar com a recente tragédia. [Read more…]

Make money great again

DTMBS

via Editorial & Political Cartoons 

Como cortar jornalistas incómodos às postas sem sofrer consequências:

  1. Ser “conservador”.
  2. Ser religiosamente fanático.
  3. Investir milhares de milhões em armamento norte-americano.
  4. Não incomodar Israel.
  5. Incomodar o Irão.

O Wuant descobriu o artigo 13

Wuant, um fenómeno do Youtube com uma enorme legião de fãs, que se traduz nos seus mais de três milhões de subscritores e nos milhões de visualizações, partilhas e retweets acumulados, descobriu por estes dias o artigo 13, que – surpresa! – irá condicionar o negócio do seu estabelecimento virtual

Vai daí, o youtuber fez uso do seu poder mediático para lançar o pânico junto do seu público-alvo, pânico esse que, como seria de esperar, rapidamente se tornou viral. Pena que só agora se tenha apercebido do que aí vem. O Jorge já nos anda a avisar há mais de um ano, mas o Wuant, como a maior parte do jovens da sua idade, não deve ter tempo ou paciência para ler blogues. Ou jornais. Como é seu direito. [Read more…]

No Meu Bule Não

Famílias de sem-terra que produzem café orgânico, são ameaçadas por latifundiários no Brasil

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Lembrem-se disto quando tiverem que explicar aos vossos filhos por que raio foi a democracia desmantelada

Há 11 anos, na era da fartura socrática, Joe Berardo pediu um empréstimo de várias centenas de milhões de euros à Caixa, para a famosa compra de acções do BCP, sem que para tal lhe fosse exigida qualquer garantia, apesar do risco associado à operação.

Hoje, 11 anos depois, Berardo ainda nos deve cerca de 280 milhões de euros. Apesar da vida faustosa que todos lhe conhecem, este distinto empreendedor e coleccionador de arte ainda não encontrou meio de limpar o seu calote. E provavelmente nunca o fará, até porque não há quem o obrigue. [Read more…]

Black Friday

Descontos, pechinchas – máquina de vender e comprar sem olhar às malhas de injustiça social que costuram os produtos e aos desenfreados ataques ambientais que os alimentam. Tecnologia com obsolescência programada. Desejo de possuir o novo. Amor ao PIB. “Livre” Comércio. Baleia encontrada morta com 29 quilos de plástico no estômago. Lixão de Agbogbloshie. Contaminação. Limites planetários. Para continuar a este ritmo de consumo, em 2050 serão precisos 3 planetas.

PSP – Precários de Segurança Pública

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Fotografia via TVI24

Num país onde todos os anos são injectadas centenas de milhões de euros em bancos falidos por criminosos em liberdade, existem cada vez mais esquadras da PSP altamente degradadas e sem o mínimo de condições para quem ali trabalha, com tectos que pingam, paredes cobertas de humidade e bolor, equipamentos insuficientes e obsoletos e agentes da autoridade em fuga, devido à falta de condições, aos baixos salários e ao congelamento de carreiras. Esquadras sem carros de patrulha e com falta de efectivos, equipas de intervenção rápida que circulam de comboio, agentes que se deslocam a pé para responder às mais variadas ocorrências e tudo isto em zonas com elevada densidade populacional, onde a criminalidade mais se faz sentir. [Read more…]

Tauromaquia e Civilização

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Cartoon@No Limiar das Palavras

A propósito das declarações da nova ministra da Cultura, que muito incomodaram o barão socialista Manuel Alegre, um aficionado dos “eventos” dedicados à tortura animal que dão pelo nome de “tourada”, o poeta afirmou que, por vezes, sente a sua liberdade pessoal ameaçada. Imagino que, caso um qualquer governo decidisse decretar a abolição da sangria tauromáquica, Alegre cuidaria estar perante a ressurreição do nazismo.

Se vamos por este caminho, qualquer dia ainda nos aparece por aí uma seita pagã a exigir o regresso do sacrifício de cordeiros em nome de uma qualquer divindade. Porquê não? Quem somos nós para condicionar a sua liberdade de sacrificar um animal para honrar as suas tradições? Ou então a malta da magia negra, a exigir o sacrifício de galinhas pretas em praça pública. Ou ainda, quem sabe, um qualquer grupo católico extremista a exigir o regresso da Inquisição. Que direito temos nós de impedir um fiel devoto de punir um herege no pelourinho? [Read more…]

E tu, camarada, apoias a fome e a opressão na Venezuela?

Na Venezuela, onde a este javardo inchado nada falta, incluindo a famosa “empanada” escondida debaixo da mesa, dados da FAO indicam que existem 3,7 milhões de pessoas subalimentadas, o que equivale a mais de 10% da população daquele país.

Sim, existem na crise venezuelana outras variáveis que o mainstream tende a abafar. Mas é inaceitável haver quem à esquerda se bata por um regime que escolheu oprimir, como se o que se passa na Venezuela fosse assim tão diferente daquilo a que assistimos nos reinos totalitários do Médio Oriente.

Não é.

Mentiras que aprisionam

Estudo da Avaaz apontou que 98,21% dos eleitores de Jair Bolsonaro (PSL), acreditaram e pelo menos duas notícias falsas que receberam durante a eleição.

Fake news sobre urnas adulteradas, kit gay e etc foram alguns dos conteúdos que se espalharam rapidamente por redes sociais entre os eleitores de Jair.  Como disse o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, a rádio francesa France Inter, “o Brasil ficou louco”, mas já estava dando sinais de insanidade.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) afirmou que o fenômeno observado no Brasil de uso massivo de fake news para manipular o voto por meio de redes privadas “talvez não tenha precedentes. Diversas pesquisas conduzidas antes do segundo turno por outros institutos concluíram que a maioria das notícias falsas foi direcionada contra o Haddad e o PT. (Fonte Valor).

Para completar a grande rede de mentiras e meias verdades, a censura esta se alastrando a ponto de jornalistas e integrantes da imprensa serem proibidos de companhar eventos em que o político esteja presente.

“Conhecereis a mentira e ela vos aprisionará”. Tá na Bíblia.

Checks and Balances

EUA

Hoje, os norte-americanos regressam às urnas para uma eleição intercalar que poderá dar um de dois importantíssimos sinais ao mundo. Podíamos entrar aqui numa discussão muito em voga, sobre a verdade e a mentira na era dos factos alternativos, mas o Partido Democrata não é propriamente uma entidade impoluta. Contudo, vivemos tempos conturbados, em que as disputas entre esquerda e direita, liberais e conservadores, se tornaram praticamente irrelevantes perante a grande batalha do século XXI. Uma batalha pela liberdade, ou pelo que resta dela, contra os novos autocratas que emergem das democracias liberais para acabar com elas.  [Read more…]

Ajuda aos desempregados…

Mário Centeno e a Geringonça: Cavaco tem razão

Aníbal Cavaco Silva, provavelmente o mais nocivo político português do pós-25 de Abril. Um tumor maligno que, ao longo de 30 anos, medrou sem parar por todo o país, com efeitos que ainda hoje se fazem sentir.
Acredito que nunca tenha tido dúvidas, mas também é verdade que raramente acertou. Daí o meu espanto ao ouvi-lo dizer recentemente, na TSF, duas frases muito acertadas:
– Mário Centeno poderia ser ministro das Finanças em qualquer Governo de Direita.
– É espantosa a facilidade com que PCP e Bloco de Esquerda se vergaram às políticas do PS.
Um Governo que até começou bem, acabando com a vergonha dos contratos de associação no ensino, mas que em termos de políticas de Esquerda a sério se ficou por aí. Se alguém pensava que doravante os poderosos seriam o alvo do PS, enganou-se redondamente.
Estando o PCP e o Bloco reféns do apoio que deram ao Governo, compreende-se até certo ponto que os sucessivos Orçamentos tenham sido viabilizados. Mas aceitar continuadamente o perdão de milhões à Banca e à Energia, que não tem parado de aumentar ao longo da Legislatura, é mais difícil de engolir.
Entre as ajudas aos Bancos e as rendas e rendinhas à EDP, já se foram mais de 40 mil milhões. Só para dar um exemplo, dava para pagar o Rendimento Mínimo durante mais de 130 anos.
E isso transforma a Esquerda em conivente, desde 2015, das políticas neo-liberais do Bloco Central que nos governam há 40 anos.

De como as greves da IP estranhamente não afectam a Fertagus: Ou como transformar uma greve na IP numa greve na CP

fertagus

maquinistas.org

Segundo a Instrução de Exploração Técnica n.º 6 da IP, Infraestruturas de Portugal (IET 06), a mesa inserida na área suburbana de Lisboa, debaixo do controlo do Supervisor 1, que comanda a circulação entre a Estação de Coina e Pinhal Novo e entre o Barreiro e Pinhal Novo é a mesa 1.3. Debaixo do controlo do mesmo Supervisor 1, está a mesa 1.4 que comanda a circulação de comboios entre o Pinhal Novo (exclusive) e Vale da Rosa. Isto é, tanto os comboios da Fertagus que circulam entre Coina e Setúbal, como os comboios da CP Lisboa que circulam entre Barreiro e Praias do Sado, são controlados exactamente pelas mesmas mesas de operação e respectivos operadores. [Read more…]

Os bufos: a propósito de Ana Caroline Campagnolo

No dia em que Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil, a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo publicou a abjecção que se pode ver mais acima e que está ao nível dos delatores da Inquisição ou dos “bufos” da PIDE: o medo, a delação anónima que pode nascer de motivações pessoais, a imoralidade (mesmo que legal) de filmar às escondidas, enfim, um conjunto de circunstâncias que não podem fazer parte de uma democracia civilizada. [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXVIII -Boa Sorte, Brasil.

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Não falei nada sobre as eleições brasileiras ao longo de todos estes meses. Porquê? Não conheço a realidade brasileira para me atrever a tal. Fiquei a saber, com enorme espanto, que em Portugal existem dezenas e dezenas de especialistas em política interna do Brasil, da realidade social brasileira. Nunca me passou pela cabeça ver tanto comentador(a) a lavrar sentenças, e definitivas, sobre o Brasil. O problema é que estou desconfiado que, do Brasil, conhecem apenas os enredos das inúmeras novelas brasileiras que as nossas televisões transmitem. Pode ser que esteja equivocado.

Porém, estas eleições permitiram ficar a conhecer alguns pormenores: que no Brasil foram assassinadas mais de 60 mil pessoas no último ano. Que a justiça brasileira colocou na cadeia inúmeros políticos e empresários brasileiros que foram condenados por corrupção (e não com pena suspensa). Nos últimos dias, com a aproximação do dia das eleições, fiquei a saber que em Portugal existe um estranho sentimento racista. O racismo que leva algumas “personalidades” da vida pública portuguesa a afirmar que os brasileiros que votaram no candidato Bolsonaro devem ser recambiados para a sua terra pois Portugal é uma democracia. Fiquei a saber que o Brasil, pelos vistos, não é uma democracia. É preciso ter lata.

O país que está perante o processo Marquês, o escândalo BES, sem esquecer o BPN e o BPP, a escandaleira que são as rendas vitalícias da EDP ou as famigeradas PPP, que deixa morrer o seu povo em incêndios florestais fruto de descoordenação e de um sistema de emergência que não funciona em emergências mas que custou e custa uma fortuna. O país cujos principais responsáveis políticos fecharam os olhos aos desmandos do ditador angolano Eduardo dos Santos e sua família, que patrocinou a entrada de uma ditadura na CPLP. A sério? A sério que conseguem criticar o Brasil sem se rir?

Os brasileiros fizeram a sua escolha. Em democracia. Os brasileiros que vivem em Portugal fizeram o mesmo. Em liberdade. A nós, que não somos brasileiros, resta-nos desejar boa sorte. E recordar que são muito bem vindos a Portugal. Aproveitando para lhes dizer que é profunda a vergonha que tenho por aquelas reacções de alguns, poucos, portugueses anteriormente referidas.

Boa sorte.

A extrema-direita a meter o focinho de fora

Jaime Nogueira Pinto votaria em Bolsonaro. Afirma que as declarações do facho são uns meros “excessos retóricos” e que a esquerda apenas anda a tecer um “processo de intenções”. Face ao que o facho brasileiro tem dito sobre a intenção de silenciar os seus opositores políticos e dado o apoio sem reticências do Nogueira Pinto a este candidato, é a altura certa para pedir uma actualização de posições quanto ao tema “ai jesus que calaram o Jaime”. Chamam-se a recepção os excitados Mário Amorim Lopes, Rui Carmo, ente outros, incluindo toda a redação do Observador.

Entre rodriguinhos, Luís Nobre Guedes diz que iria votar no Bolsonaro, caso fosse brasileiro, por causa da corrupção do PT. Vejamos, este é um destacado membro do partido onde o Jacinto Leite Capelo Rego doou um milhão de euros ao CDS em notinhas. Foi o ex-ministro do ambiente que assinou o despacho que deu origem ao caso Portucale. Pertence ao partido onde os submarinos comprados por Portas tiveram condenados por corrupção na Alemanha, sem que ninguém tenha sido condenado em Portugal.

Por fim, há Cristas e o seu apoio dissimulado. Mais virão, ou não tivesse uma multidão passado de salazaristas a democratas num espaço de horas em 1974.

Greve

de

Onde a UE é musculada

Vacilante e mal segura como anda a UE (Brexit, refugiados, o populismo de extrema-direita, a “too big to fail” Itália, prenúncios de nova crise do Euro…), há uma área em que, pela calada, dá firmes passos de gigante: a política comercial e de investimento. Ao contrário do seu antecessor – o irritadiço belga Karel De Gucht que devido à sua incompetência foi posto a ridículo pelo robusto movimento europeu anti-TTIP – a Comissária Cecilia Malmström é uma extremamente hábil, resoluta e entretanto também experiente negociadora que, um após o outro, leva a bom porto os seus intentos. Com pezinhos de lã, e muito ao invés do que vem sendo prometido pela UE sobre transparência para os cidadãos, é todo um ramalhete de acordos de comércio e investimento que atam – e inexplicavelmente não há vozes políticas a bradar aos céus – a capacidade de legislar dos governos (mecanismos arbitrais) e põem em risco padrões ambientais e sociais (cooperação regulatória).

O CETA (UE/Canadá), já está em aplicação provisória desde há um ano, embora mais de metade dos estados-membros não o tenham ratificado e alguns (Holanda e Áustria) estejam ainda a aguardar a decisão do Tribunal Europeu sobre a compatibilidade do sistema de arbitragem para investidores, previsto no acordo, com o Direito europeu; em Portugal, a AR e Marcelo já, alegremente, deram luz-verde. [Read more…]

Antes Cristas que Bolsonaro

O título deste texto é inspirado num comentário escrito no facebook por um amigo meu que é comunista dos sete costados, numa polémica em que desafia um centrista a pronunciar-se sobre a opinião de Assunção Cristas.

A líder do CDS, instada a escolher entre Bolsonaro e Haddad, numa hipotética situação em que seria eleitora brasileira, declarou que votaria em branco (na verdade, declarou que não votaria), colocando ambos os candidatos no mesmo nível, quando se sabe que Bolsonaro defende abertamente a ditadura, com direito a tortura, censura e outros mimos, elogiando, pelo meio, Brilhante Ustra. Haddad, independentemente de todos os defeitos ou erros do PT, faz parte do campo democrático, tal como Assunção Cristas, por muito medíocre que seja ou por muito má que tenha sido a sua passagem pelo governo.

O argumento usado para não votar em Haddad é extraordinário: “A corrupção leva à ditadura. Destrói, mina a democracia e leva à ditadura.” É extraordinário porque admite que ainda não se chegou à ditadura. Entre um que não admite senão a ditadura e outro que ainda não chegou à ditadura, Cristas encolhe os ombros.

Entretanto, não defendendo a corrupção, o salto que chega daí à ditadura é um vazio argumentativo. Por outro lado, tenta deixar, implicitamente, a ideia de que a corrupção, no Brasil, é toda de esquerda.

Na verdade, Assunção Cristas, ao colocar ao mesmo nível dois candidatos tão diversos, põe-se ao lado da ditadura, mas terá vergonha de o confessar. As redes sociais, no entanto, estão cheias de gente declaradamente saudosa de Salazar e que suspira por bolsonaros, gentinha perigosa que mina a democracia muito mais do que a corrupção.

 

Saudades do 24 de Abril

Se Cristas votasse no Brasil, não votaria nem em Haddad nem em Bolsonaro. Abstinha-se.

Entre um democrata declarado e um ditador em potência, a senhora Assunção prefere não escolher. Sendo que escolhe na mesma – escolhe não contrariar o favorito, que é o mesmo que votar no fachosolnaro.

O resto é paleio de encher. Clarinho que nem água é que, para a senhora Cristas, o mal menor não é repudiar o sujeito que ameaça aniquilar os opositores, que defende a tortura e a polícia que atire a matar, que classifica as mulheres como seres humanos de segunda e os homossexuais como uma aberração e que os pobres devem ser capados para que não tenham filhos.

Estará esta cartilha fachista em linha com o seu credo cristão? E com o seu desejo de evitar o populismo? Onde é que encaixa aqui o Centro Democrático Social / Partido Popular?

Mais do que as palavras, os actos definem as pessoas. E esta senhora, se votasse no Brasil, ficava em casa. Tal como no dia 24 de Abril.

Rui Pedro (vermelho) Brás (ou será Braz?)

rpb

Em muitas páginas de facebook e nalguns blogues ligados ao meu clube, o FC Porto, são muitos os que atacam o jornalista/paineleiro Rui Pedro Brás (ou será Braz?). Estão a ser injustos. Passo a explicar:

O Sr. Rui Pedro Brás (ou será Braz?) é um conhecido benfiquista. Daqueles ferrenhos como o nosso Nabais. Bem, o nosso Nabais não merece, antes pelo contrário, que o insulte com semelhante comparação. Desculpa.

Continuando, o paineleiro/jornalista em causa anda pela TVI a oferecer as suas doutas opiniões. A opinião de quem, em 2013, escreveu o seguinte comentário nas redes sociais: “Mas o que eu quero mesmo é que o Benfica ganhe! Sempre! Com ou sem Aimar!” – 16 janeiro de 2013. A opinião de quem foi secretário técnico do futsal do Benfica durante dois anos. Ou seja, o que o distingue, por exemplo, de um Pedro Guerra? Nada. Só se for o tamanho da cintura.

Ora, atacar a personagem é injusto. Todos sabem que é um benfiquista. Quem deve ser o alvo do ataque é a TVI. Sim, a TVI. Por o ter como paineleiro? Nem pensar. Por estar a vender gato por lebre. É a TVI que passa (ou deixa passar) a imagem que o senhor é um paineleiro/comentador independente. É a TVI que dá tempo de antena a um suposto especialista em futebol que ontem, em directo e a cores, explica que o braço de Danilo (jogador do FC Porto) coloca em jogo o Éder (jogador do Lokomotiv) e por isso o golo não deveria ter sido invalidado. Upss, a lei do fora de jogo, no seu artigo 11, explica que, “As mãos/braços de todos os jogadores não são considerados para a marcação de um fora de jogo”. Ou seja, a culpa não é do rapaz, é de quem o escolheu, de quem lhe dá tempo de antena e de quem o vende como “independente”…

 

Holocausto brasileiro

Helena Ferro de Gouveia

Este é livro fundamental para entender o Brasil e um dos capítulos mais tenebrosos da sua história: a barbárie praticada até quase ao final do século XX em Barbacena, Minas Gerais.

No hospício conhecido como Colônia morreram mais de 60 mil pessoas, a maioria internadas compulsivamente, 70 por cento sem qualquer problema de saúde mental: eram meninas grávidas violadas pelos patrões, homossexuais, prostitutas, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes de casar, pessoas incomodadas.

Quando chegavam ao hospício rapavam-lhe a cabeça, despiam-nos, eram rebaptizados pelos funcionários. Dormiam sobre erva e feno, eram torturados, abusados sexualmente, bebiam água do esgoto e comiam ratos. Pelo menos 30 bebés foram retirados às mães. Entre 1969 e 1980 1853 corpos foram vendidos às faculdades de medicina. Morrer dava lucro. Chegavam a morrer 16 pessoas por dia.

Está tudo documentado solidamente, as fotografias são atrozes e os relatos dos sobreviventes contidos no livro de Daniela Arbex um dedo apontado aos que os abandonaram e à indiferença.

Quando se fala em fascismo, apatia social, obscurantismo, passa-se também por aqui.
Isto foi ontem.

Aquele momento em que o mundo ficou um local mais perigoso

Trump says US will withdraw from nuclear arms treaty with Russia

Experts warn of ‘most severe crisis in nuclear arms control since the 1980s’ as Trump confirms US will leave INF agreement [The Guardian]

Eis a contribuição do maluco com bigode saído de um filme de cowboys, John Bolton, caucionada por Trump, o santo padroeiro de O Dinheiro Primeiro.

Quero ver o que é que vão fazer com esse dinheiro todo depois de rebentarem com isto tudo.