Não nos conformamos com os horrores da guerra

Já passámos por algumas guerras, já soubemos e vimos crimes de guerra hediondos, estudámos muitas mais do passado mais ou menos longínquo mas, ainda assim, continuamos a não nos habituar ao horror da sua crueldade, da sua ignomínia, da sua bestialidade nos dias de hoje.
O Ser Humano, horroriza-se com a cruel desumanidade que também lhe é característico.

Continuo a acreditar que o mal e o bem estão dentro de todos nós e o que faz a diferença é o carácter das acções que praticamos a cada momento.
Felizmente, somos muitos os que se sentem horrorizados com a crueldade de outros, mas reparem que o horror da guerra não deverá variar consoante o lado que nos é mais dilecto em cada uma.
Guerra é guerra. O horror que produz é sempre horrendo.
Saber evitá-la, saber travá-la, saber pôr-lhe termo é um caminho incessante de paz. O outro caminho [Read more…]

Como chegamos até aqui

A Abecásia e a Ossétia do Sul foram ocupadas pela Federação Russa em 2008. A península da Crimeia em 2014. Desde então, nunca foi segredo para ninguém que os separatistas do Donbass eram apoiados financeira e militarmente pelo Kremlin, que garantiu a subsistência dessa agressão à soberania ucraniana, no plano militar e financeiro, ao longo de oito anos.

Paralelamente, a oligarquia russa continuava a expansão dos tentáculos de Moscovo pelo continente europeu, de Bruxelas às sedes das principais organizações internacionais, sob tutela directa de Vladimir Putin, movimentando milhões de rublos e negociando diariamente nas principais praças financeiras do Ocidente, de Frankfurt a Wall Street, com escala em Amsterdão, Zurique e na City de Londres, ou Londongrado, alcunha que nos diz tudo o que precisamos de saber sobre a colonização levada a cabo pelo Kremlin.

Quando não estavam a transformar o produto do saque ao povo russo em dividendos e propriedades de impensável luxo, a corte de oligarcas russos ocupava os tempos livres em actividades como a compra e gestão de alguns dos principais clubes de futebol da Europa, fazia férias em Puerto Banús, no Mónaco e na Costa Esmeralda, licitava obras de arte na Christie’s, comprava diamantes em Antuérpia e fazia shopping em Paris e Milão, o que ajuda a explicar o lobby que grandes estadistas como Mario Draghi tentaram inicialmente fazer, para que as insígnias italianas e francesas de luxo, bem como a indústria belga de pedras preciosas, fossem poupadas à lista de sanções. Acabar com a guerra sim senhor, mas deixem o lifestyle dos senhores oligarcas em paz.

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Habeck, o admirável ministro da economia alemão

As respostas de Robert Habeck, ministro da economia alemão, num talk show televisivo ocorrido há três dias, foram uma magistral lição de filosofia, economia, política, seriedade, coragem, autenticidade e visão.

Com uma paciência de Jó, com toda a simplicidade e nunca simplismo, Habeck, desprovido da arrogância, pretensiosismo e a habitual opacidade da esmagadora maioria de dirigentes políticos que ocupam os governos do mundo, abananou a sociedade alemã ao falar de forma brilhantemente diferenciada sobre as consequências da guerra na Ucrânia para o abastecimento de energia da Alemanha e as razões pelas quais continua a rejeitar um embargo energético contra a Rússia, enquanto tudo faz para libertar a Alemanha da dependência russa, assegurando também o abastecimento de electricidade à Ucrânia.

E aqui ficam algumas das clarividentes respostas de Habeck no programa de Markus Lanz, um conhecido moderador neoliberal da TV alemã, que acabou por engolir em seco as suas próprias picadelas sedentas de sensacionalismo, usando e abusando das fotos em que Habeck cumprimenta, inclinado, o emir do Qatar:

“A Alemanha sempre se apresentou como se nós fizéssemos tudo melhor, soubéssemos tudo melhor; e depois aprovámos Nordstream II no ano da anexação da Crimeia, e no ano seguinte transferimos parte da nossa infra-estrutura petrolífera para a Rosneft, a companhia petrolífera russa, no ano após a anexação da Crimeia! Os ucranianos agradecem-nos pelas armas, mas perguntam-nos, porque é que só as forneceram agora que o nosso povo já está a ser assassinado? Teria sido muito mais inteligente entregá-las antes, poderia até ter acontecido que nem sequer chegássemos a ser atacados; e nós só podemos dizer a nós próprios que estamos a fazer tudo bem, se partirmos de uma concepção política em que estamos sempre do lado moralmente correcto; mas não é esse o caso.” [Read more…]

Sim, temos de estar dispostos a pagar este preço

Sahra Wagenknecht, a figura mais proeminente do partido alemão “die Linke“ (digamos, o BE alemão), convidada frequente em talk shows, afirma e repete que “a guerra económica contra a Rússia prejudica-nos sobretudo a nós próprios”.

E continua: “O Instituto Federal de Estatística calcula uma taxa de inflação de 7,6% para Março – a mais alta dos últimos 40 anos. Isto significa que os alimentos, o combustível e a energia estão a tornar-se cada vez mais caros para muitas pessoas. Especialmente as famílias com rendimentos baixos e médios estão assim a enfrentar graves problemas existenciais. Muitas famílias são empurradas para a pobreza devido ao aumento dos preços. A lei socialmente desequilibrada e completamente inadequada de alívio energético da “coligação semáforo” pouco fará para alterar esta situação.

Actualmente, 43% dos alemães assumem que a sua situação económica pessoal será pior em cinco anos do que é hoje. (…) [Read more…]

A culpa é da Guerra

Parece que começou uma Guerra na Europa e, tal como sempre que acontece algo novo, várias hipocrisias foram colocadas a nu. De repente, o Ocidente descobriu que Putin é um autocrata e que quer fazer da Ucrânia seu território. Uma novidade da qual ninguém esperava. Enquanto o Ocidente das elites coloca-se contra a Rússia, esse perigoso país liderado pelo jovem Putin que apareceu há umas semanas, temos uma esquerda, que toldada pelo ódio aos EUA, não consegue condenar a Rússia por esta invasão. E aqui fica mais uma vez provado: a esquerda não é, nem nunca será, empática com pessoas, mas sim com as suas causas. São aqueles que lutam pela emancipação até de um pau de vassoura, mas que decidem quem é bom homossexual ou bom preto. É o mercado dos valores a funcionar. Estes são aqueles que querem a extinção de um partido, mas que protestam contra a extinção de partidos numa Guerra. No entanto, há que admirar a posição do PCP. O PCP foi igual a si mesmo e mantém a sua postura até ao fim. Manteve o seu fanatismo. Trata a Rússia sem liberdade como se um sistema capitalista tivesse. Para o PCP, quem tem mais de 5 euros no bolso já é capitalista.

Lá por esta visão sem ponta de humanismo, não quer dizer que os restantes sejam inocentes. Esta Guerra levou a que a maioria do espaço político não-socialista a usasse, seja com medidas inconsequentes para parecer bem ou em medidas que vão contra o próprio histórico do partido. Os EUA, depois de se espantarem com o facto de Putin ser autocrata, foram negociar com as democracias sólidas e liberais do Irão e da Venezuela. O que deve ter dado dificuldades, porque, no caso da Venezuela, reconheceram um presidente que não é o que se encontra em funções. A FIFA, essa instituição cheia de valores, também fez a sua parte. Expulsou a Rússia de um Mundial que será jogado no Qatar, país que respeita os direitos das minorias e, principalmente, dos trabalhadores. Em princípio, depois do Mundial, também se fará a marcha LGBT, nesse país tão democrático. [Read more…]

Grupo parlamentar do CH estreia-se na AR com dedicatória a Vladimir Putin

André Ventura usou o termo “ocupar” para assinalar a chegada do seu partido à Assembleia da República. Tal como Putin, farol europeu da área política e ideológica do CH, Ventura quer ocupar o Parlamento por Portugal e pelos portugueses, que maioritariamente o desprezam, a ele e às suas ideias, tal como Putin quer ocupar o Donbass e outras áreas da Ucrânia, pelas populações russas e pelos “irmãos” ucranianos. Só lhe faltou afirmar que vinha para desnazificar o hemiciclo, mas o sector neo-nazi do CH poderia não achar muita graça, e Ventura já tem dissidências que cheguem com que se preocupar.

Mariupol e a firmeza que nos falta

Esta era a cidade de Mariupol, antes da invasão russa. Desconheço a real dimensão da destruição da cidade, tenho acesso às mesmas fotografias random que vocês, mas vi estas imagens no The Guardian, que me revolveram-me as entranhas. Uma zona habitacional deserta, que parece fumegar do chão, feita de edifícios bombardeados, alguns em ruínas, rodeados por estradas com o piso partido, árvores rachadas ao meio e destroços por toda a parte. Imagens que julgávamos não voltar a ver na Europa, depois da tragédia jugoslava do final do século passado. Estávamos enganados.

O cerco a Mariupol já reclamou pelo menos 5 mil vidas. Feriu gravemente centenas, perturbou mentalmente milhares, arrasou uma cidade e instituiu o terror. Há pessoas com medo, pessoas a chorar, pessoas revoltadas que nada fizeram para estar naquela situação. Pessoas a querer fugir sem conseguir. Pessoas às escuras, sem água canalizada. Pessoas a sobreviver de latas de atum, se a vida lhes estiver a correr bem.

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Ucrânia Rejeita Mário Machado

É o que se pode ler na capa do DN de hoje. Lê-se também:

“Não queremos este tipo de pessoas no nosso país.

A pessoa que refere não pode ser aceite na legião internacional”, garante adido militar ao DN, justificando-se com o facto de serem excluídos combatentes com cadastro. E rejeita a hipótese de o neonazi condenado se juntar a uma milícia.

Não sei quanto a vós, mas eu tenho o DN como um jornal sério. Sendo verdade, isto é um embaraço ainda maior para a justiça portuguesa, que suspendeu as apresentações quinzenais de Mário Machado sem se certificar que o líder neonazi reunia condições para combater na Ucrânia. Pelos vistos, não reúne.  Agora – em princípio – vai ter que abrir um procedimento para anular a suspensão das apresentações quinzenais do arguido. E entretanto ele já foi. Não aprenderam nada com o João Rendeiro.

Era o mercado a funcionar, estúpido!

Em 2017, a petrolífera Exxon foi multada em 2 milhões de dólares, por violar as sanções impostas por Washington a Moscovo.

O CEO da empresa, à data dos factos, era Rex Tillerson. Acontece que, à data da multa passada pelo Tesouro norte-americano, Tillerson já não dirigia a Exxon. Era o Secretário de Estado dos Estados Unidos. Under Donald Trump.

Os factos remontam a 2014. Dizem respeito a sanções aplicadas pelos EUA à Federação Russa, no contexto da ocupação da Crimeia e da queda do voo da Malasyan Airlines. Sanções que a Exxon violou aquando da joint venture com a Rosneft no mar de Kara.

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Mário Machado, o privilegiado

A extrema-direita, querendo apresentar-se como antissistema, teima em ser o seu pior reflexo. Basta ver o caso de André Ventura, que passa a vida com o sistema na boca, mas também no bolso. Ou no bolso dele, do sistema. Do SL Benfica à CMTV, passando pela elite de milionários com quem se reúne e junto da qual obtém financiamento para o seu partido, não esquecendo as origens políticas do outrora afilhado de Pedro Passos Coelho, que nunca deixou Ventura cair, mesmo quando o próprio CDS se afastou da sua candidatura à autarquia de Loures, nas Autárquicas de 2017. O cheiro a racismo era já demasiadamente nauseabundo para tolerar. E quando abandonou o PSD, um dos partidos que é em si mesmo o sistema, o líder da extrema-direita não veio sozinho. Trouxe e continua a atrair inúmeras figura da casta de privilegiados da São Caetano à Lapa. E do que resta do Caldas.

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Questão secundária

Perante a crise climática e o movimento acelerado do planeta para o abismo, a custo e a más horas, com todo o cuidadinho para não magoar os gigantes da indústria fóssil, os países ocidentais e também a China, estavam de facto a tomar medidas para uma economia (mais) liberta de combustíveis fósseis.

Sabendo-se que a economia russa se baseia, sobretudo, na exportação de petróleo, gás natural e metais preciosos, até que ponto terá este factor influído na mente perversa de Putin para avançar para a barbárie que iniciou no passado dia 24 de Fevereiro?

Zelenskyy VS Putin: o herói acidental e o odioso tirano

Existe um motivo, quer-me parecer, que faz com que Vladimir Putin não queira encontrar-se num frente a frente com Volodymyr Zelenskyy. Mais do que ser a personagem mais odiada do planeta, no presente momento, o que contrasta com a aura de último grande herói do presidente ucraniano, Zelenskyy é, literalmente, a antítese de Putin.

O primeiro é um actor e humorista que decidiu enveredar pelo mundo da política, como é seu direito (eu “punha” muito rápido o RAP, o Bruninho, a Cátia Domingues, o Markl, a Joana Marques ou o Diogo Batáguas no lugar de 80% dos deputados que estão na AR, sem pestanejar), e que agora lidera, com bravura e uns imensos tomates, a resistência à violenta invasão de um tirano que não pode argumentar estar rodeado pela NATO para invadir, esmagar e ocupar um Estado soberano que nem sequer integra a Aliança. Até porque os mísseis dele também estão apontados para cá. O argumento é real, mas não legitima, de forma alguma, a destruição em curso. Para “libertar” o Donbas, não precisa de sitiar Kiev ou bombardear Mariupol. Putin, um dos maiores financiadores da extrema-direita europeia, ele próprio um ultranacionalista, não quer desnazificar coisa nenhuma. Quer, apenas e só, decapitar e substituir o poder político ucraniano, para lá colocar outro do seu agrado.

Nenhum argumento, real ou ilusório, justifica uma invasão militar. Resistir é a única saída, mais ainda para quem recusou uma extradição segura e um exílio de luxo no outro lado do oceano. E essa é a grande afronta, talvez a maior de todas, que Zelenskyy poderia fazer ao rei-sol do Kremlin, que o olha com desdém e indigno, ele ao seu povo, de existir como nação. E eles a resistir, outnumbered and outgunned:

  • If I was in World War III they’d called me Spitfire.

A música anda sempre à frente do seu tempo.
Adiante.

O segundo é um carreirista de dois regimes, sendo hoje proprietário de facto do segundo. Começou nos serviços secretos, fez-se a vida, subiu até onde pôde e deu o salto para a política, como qualquer carreirista que se preze. Foi, desde sempre, do sistema. Mas a escalada foi impressionante, seguramente apoiada nos mesmos métodos que aprendeu e desenvolveu – com mestria, diga-se – no KGB, e é hoje o senhor absoluto da Federação Russa. Algo que lhe poderá até correr mal, mas outro dia lá iremos.

Putin é o sistema. No seu expoente máximo. O grande irmão que tudo controla, que corrompe, que persegue, que discrimina, que agride. O sistema elitista que dizima quem se lhe opõe. Que tortura, envenena e mata. Putin é a negação da democracia. E a democracia também tem os seus pequenos putin-minions, que o digam iraquianos, iemenitas ou vários povos da América Latina. Acontece que, por cá, temos o poder de lhes tirar o poder. Algo que não acontece na Federação Russa. Não é uma diferença de somenos. Faz toda a diferença. Toda.

Há muito que pode ser dito e apontado a Zelenskyy. Deixarei esses factos para outro dia. Mas não existe comparação possível entre um tirano e um político imperfeito, como o são todos, em maior ou menor grau. Em todo o caso, Zelenskyy é hoje a figura mais aproximada a líder do mundo livre, ainda que acidentalmente. Pela coragem, pela determinação e pelo exemplo. Quando os americanos saíram cobardamente do Afeganistão, ainda “ontem”, Ashraf Ghani foi o primeiro a pôr-se a milhas. Com uma mala cheia de dólares. Zelenskyy podia ter seguido a mesma via. Podia ter sido o Puidgemont que fugiu para o exílio em Bruxelas. Mas ficou. E talvez venha a morrer nas próximas semanas. Mas é ele, não as armas “cedidas” pelo Ocidente, um dos poucos que poderão dar a vitória, altamente improvável, à Ucrânia. A História contará a sua história. Cantará a sua história, concorde-se ou não com ela. Já Putin será apenas mais um merdas do Hall of Fame das abominações, à mesa com Hitler e Estaline. No esgoto da História. Para ser odiado para sempre, excepto por aquela malta que, por motivos variados, opta por branquear o ocasional ditador. A democracia tem destas coisas. É uma brincalhona.

Vladimir Putin e as sanções

Há quem esteja a enveredar pelo caminho da xenofobia. Existem até relatos de crianças russas insultadas em escolas por cá e noutros pontos da Europa. Mas nenhum povo, como o russo, sabe o que é a mão pesada de Putin. Há 20 anos.

Ser pai em tempos de guerra

Não sei se vai ficar tudo bem. Gostava de ter a certeza, mas não tenho. É impossível ter certezas durante uma guerra, mais ainda quando o agressor é um tirano sanguinário e sem escrúpulos, frio e calculista, que de louco não tem nada, por muito que aparente ser.

Ainda assim, recuso fazer parte do coro que anuncia o holocausto nuclear, porque as lições da Guerra Fria ainda estão bem presentes e a escalada é altamente improvável, mais ainda quando a NATO não intervém directamente no conflito. Contudo, no imediato, a situação com que nos deparamos é muito preocupante, por outros motivos que já todos conhecemos, e torna-se cada vez mais difícil de processar, principalmente para quem, como eu, tem filhos. Felizmente, estamos no conforto da paz, a 3400km daquele inferno. Se lá estivesse, “preocupante” não seria a palavra que utilizaria.

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José Crespo de Carvalho, os refugiados ucranianos e o futuro do mercado laboral português

José Crespo de Carvalho, professor no ISCTE e cronista no Observador, brindou-nos a todos com uma bela dissertação sobre as vantagens económicas de receber refugiados ucranianos. Há quem o tenha acusado de promover a exploração, da forma mais desumana possível, cavalgando o drama dos refugiados para promover a ideia de que os portugueses são mandriões que não querem trabalhar. Más línguas, seguramente. Más línguas de subsídio-dependentes que não querem trabalhar.

No artigo “Ucranianos em Portugal e o mercado de trabalho”, José Crespo de Carvalho deixa bem clara a sua posição no destaque do artigo, que podem ver em cima. Ideias chave:

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Que se foda Putin e que se fodam os controleiros

Fruto do brutal policiamento da linguagem em curso, que atingiu proporções inimagináveis (e estupidificantes) desde o início da invasão da Ucrânia, vivemos hoje dias orwellianos, caracterizados por sucessivos fatwas dos jihadistas que garantem o cumprimento da nova sharia, que ordena que toda e qualquer análise dos acontecimentos que não esteja alinhada com a narrativa dominante e com os cânones do políticamente correcto deve ser chicoteada, torturada e abatida.

Ultimamente, tenho escrito amplamente sobre a situação na Ucrânia, de várias perspectivas, nas várias redes que utilizo. Neste meu cantinho no Aventar, onde me dedico a analisar os factos, na minha perspectiva e com as minhas limitações, recorrendo a factos, condicionais contrafactuais e outros aspectos relacionados com o que se passa de facto na Ucrânia, tenho sido acusado, amiúde, de estar alinhado com a propaganda de Vladimir Putin. A essas pessoas, com muita franqueza e com todo o respeito que me merecem, queria dizer-lhes o seguinte:

  • Ide-vos foder.
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Os cúmplices europeus de Vladimir Putin

Noticiou ontem o Público que França, Alemanha, Itália, República Checa, Eslováquia, Espanha, Croácia, Finlândia, Áustria e Bulgária venderam armamento e equipamento militar à Federação Russa nos últimos oito anos, após a invasão e anexação da Crimeia. Fun fact: a UE decretou um embargo de venda de armas e similares ao regime de Putin, em Junho de 2014. Não faz mal. Acena e sorri. Se questionares estás a fazer propaganda pró-Putin.

No texto do implacável embargo da intransigente União podemos ler o seguinte: é proibida a venda, fornecimento, transferência ou exportação directa ou indirecta de armas e material conexo de todos os tipos, incluindo armas e munições, veículos e equipamento militar, equipamento paramilitar e respectivas peças sobressalentes, para a Rússia por nacionais dos Estados-membros ou a partir dos territórios dos Estados-membros ou utilizando navios ou aviões que usem a sua bandeira, quer sejam ou não originários dos seus territórios”. E então, que fazer? Simples: arranja-se uma lacuna na lei – tantos advogados em part-time nos Parlamentos europeus têm que servir para alguma coisa – e decreta-se um regime excepcional de coiso. Sim, de coiso. Mas podemos chamar-lhe filhadaputice, se preferirem.

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Vladimir Putin, Isabel II e o Holodomor

– Sim, Vlad. Nós também fizemos um Holodomor na Índia, vários até, mas aquilo era tudo sub-gente, muito escurinha, e ninguém quis saber. Para a próxima, em vez da Ucrânia, invade, sei lá, o Bangladesh!

(baseado em factos verídicos)

A culpa é dos generais

Ao que tudo indica, ter-se-á decretado que alguns generais portugueses são emissários de Vladimir Putin. Confesso que não li e ouvi tudo o que escreveram e disseram, mas, como em tudo na vida, já li e ouvi tiros certeiros e auto-chumbo grosso no pé destes nossos generais-comentadores, que integram o exército de analistas da cobertura orwelliana da invasão da Ucrânia. 

Contudo, noto que acontece com eles o mesmo que tem acontecido com alguns analistas provenientes da academia, quando optam pelo comentário objectivo, focado na análise concreta dos factos, e não em perspectivas político-partidárias, guerras ideológicas ou manipulações emocionais. E isto é particularmente arriscado, ou não estivesse o ambiente altamente propício ao simplismo e a abordagens maniqueistas. O novo politicamente correcto impera, mais ainda que o próprio Putin, e quem ousa fazer uma análise que tenha em conta a sequência de acontecimentos que nos trouxeram até aqui corre o risco de acabar na fogueira virtual, acusado de putinismo e outras heresias.

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Margaret Thatcher sobre as sanções aplicadas à Federação Russa

O problema do capitalismo de casino é que ele só dura até acabar o dinheiro dos regimes ditatoriais.

Margaret something

O que vale é que podemos sempre salvaguardar os princípios democráticos e substituir o Putin pela joia de moço que é o Bin Salman.

Ucrânia – negociações indiciam um avanço significativo

Ambas as partes, Rússia e Ucrânia, apontam para um avanço significativo conducente ao cessar-fogo e ao fim da invasão russa. Estaremos perto da retirada de Putin da Ucrânia? Julgo que teremos de esperar e, pior ainda, sem saber ao certo o que esperar.
O facto de Vladimir Medinsky, líder da delegação russa nestas negociações, admitir que consideraria positivo que a Ucrânia assumisse um estatuto de neutralidade idêntico ao da Suécia e da Áustria, membros da União Europeia, mas não da OTAN, indicia que, ou pode subentender-se, a Rússia admite uma Ucrânia independente e até como membro da União Europeia.

Putin sabe, penso, que não tem condições para ocupar a Ucrânia, nem sequer de suportar um governo fantoche contra os ucranianos que, neste momento e muito naturalmente, apenas [Read more…]

De ditador em ditador, até à descredibilização final

Muito se tem falado sobre os PCPs desta vida, e respectivas posições sobre a invasão da Ucrânia (e muito bem), mas muito pouco sobre certos e determinados quadrantes ideológicos, que conseguem fazer igual ou pior, sempre daquela forma hipócrita e dissimulada que os caracteriza. São todos muito democratas excepto quando a economia exige a capitulação perante os interesses económicos que mandam nisto tudo. E eles capitulam, sem pestanejar. Ou, parafraseando o CEO da Volkswagen, “Limitar a actividade a países democráticos não é um modelo de negócio viável para os fabricantes”. Esclarecedor.

Vejamos, por exemplo, o caso dos impolutos conservadores britânicos, grandes guardiões da democracia, que passaram anos a receber milhões de rublos da oligarquia russa, sabendo perfeitamente a proveniência desses financiamentos, o que nunca os fez recuar. Nem cleptocracia oligárquica nem os envenenamentos de opositores de Putin por terras de Sua Majestade, como os casos de Alexander Litvinenko e Sergei Skripal.

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Vladimir Putin e o Padrão dos Descobrimentos

No meio de tanta desgraça, de tanto sofrimento, destruição e morte, há quem não tenha mais o que fazer do que incitar ao ódio numa das suas versões mais imbecis, apelando ao boicote de Tolstoi e Tchaikovsky, insultando emigrantes russos que, na sua maioria, saíram do país para escapar ao regime de Putin, e até, imagine-se, a normalizar o bullying a crianças russas. Como se algum deles tivesse alguma coisa a ver com Vladimir Putin.

O que vem a seguir?

Destruir todos os bares, restaurantes discotecas e supermercados que vendam vodka?

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Durão Barroso, especialista em invasões

Se eu estiver enganado, por favor, corrigi-me, mas o Durão Barroso não apareceu aqui há dias a comentar a invasão russa? Faz todo o sentido – Durão sabe o que é estar ao lado de gente igual ao Putin, gente que inventa pretextos para invasões, guerras que nunca deveriam ter começado, como a maior parte das guerras.

Antes que alguém se distraia (e mesmo assim, nunca irei a tempo de prever todas as distracções), verberar a invasão do Iraque está muito longe de corresponder a elogiar Saddam, o que serve para levar uma pessoa a pensar que, por vezes, é muito difícil escolher um lado, porque há gente odiosa de ambos os dois ou ambos os três ou ambos muitos. Mais uma nota para os distraídos: no caso da Ucrânia, é muito fácil, para já, escolher um lado. Depois, logo se vê, ainda que o Putin já não vá a tempo de se redimir, mesmo se o Ocidente que o condena tenha andado a alimentá-lo durante muitos anos, fechando os olhos com muita força, enquanto estendia a mão, era uma moeda para o ceguinho, por favor. [Read more…]

É o Capitalismo, Fernando!

O meu camarada Fernando Moreira de Sá ficou chocado com as declarações do CEO do Grupo Volkswagen, que afirmou que a empresa não pode vender apenas em países democráticos. Mas a coisa consegue ser ainda mais complexa e desavergonhada. A Volkswagen, como outros gigantes dos mercados ditos livres, não se limita a vender carros aos regimes mais violentos e totalitários. Consegue ter a distinta lata de distinguir entre ditaduras do bem (China, Federação Russa, Arábia Saudita, Qatar) e ditaduras do mal (Cuba, Coreia do Norte), provando que, mais do que o regime, importa saber o preço certo em euros das multinacionais ocidentais. A este respeito, o capitalismo é uma prostituta da mesma categoria do mini-Putin que anda pelas TVs a debitar propaganda pró-Kremlin.

Dicionário de Guerra: Português – Correctês

À medida que a invasão de Putin avança, aperta-se o cerco da liberdade de expressão. Mas esse cerco, lamentavelmente, não se resume à trincheira do tirano russo. Aqui pelo Ocidente, à caça às bruxas está ao rubro. De maneira que quem não debita a narrativa oficial é pró-Putin, quem questiona os antecedentes da invasão é pró-Putin, quem ousa debater qualquer variável que coloque em causa a narrativa simplista imposta pelo novo politicamente correcto é pró-Putin. Assim estamos.

Ciente dos riscos que corro, decidi lançar esta pequeno dicionário, onde pode. Os ver algumas expressões correntes e o seu equivalente em correctês. Para ir actualizando.

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Novo aumento do preço dos combustíveis: a culpa é de António Costa

O barril de Brent, referência para o mercado de combustíveis português, está hoje a ser negociado ao valor mais baixo desde o início do mês, 20 euros abaixo dos 127,98€ que, na semana passada, a 8 de Março, foram usados como justificação para o violento aumento que entrou hoje em vigor.

Quer isto dizer que os preços vão baixar, de forma proporcional aos aumentos das duas últimas semanas, ou será que as gasolineiras vão fazer o que sempre fazem, que é garantir que a redução do preço, ao contrário de qualquer aumento, só se reflecte daqui por dois ou três meses?

Eu disse gasolineiras? As minhas desculpas! Eu queria dizer António Costa. Porque foi o António Costa que ordenou à GALP, BP e Repsol & Cia que aumentassem os preços, imediatamente, caso contrário ia tudo dentro e as empresas seriam nacionalizadas. Agora vou  acabar de comer o meu gelado com a testa, que o gajo está a começar a derreter e eu não quero ter que esfregar o chão com a fronte, que não estamos em tempo de desperdiçar comida.

Refugiados, segundo André Ventura (feat. Vladimir Putin)

Apesar das dissidências, e dos processos de autodeterminação de vereadores eleitos pelo CH, André Ventura conseguiu montar uma convenção autárquica. Mais dois ou três meses era capaz de só lá estar ele, Maria Vieira e Nuno Afonso.

Parafraseando Bruno Aleixo: “a mim que me importa”, a convenção do CH?

Não importaria muito, de facto, não a tivesse Ventura usado para lançar o isco a palermas como eu, sempre preparados para lhe dar o palco que ele deixou de ter há semanas, por não terem – no meu caso – a capacidade de ficar calados perante manifestações de racismo e xenofobia que, em boa verdade, já não surpreendem ninguém. Pela conveniência do momento, os refugiados da Ucrânia são receber de braços abertos. Já outros refugiados, de outras guerras e latitudes, não passam sub-pessoas, munidas de um extravagante iPhone, que querem vir para Portugal “viver à conta dos nossos subsídios e dos nossos impostos” e “tornar as nossas mulheres objectos e obrigá-las a andarem de burqa na rua”.

Este discurso é abjecto. Lamento se contribuo para dar palco ao indivíduo, na insignificância do palco que lhe possa conceder, mas não é para mim possível ficar calado perante este nojo. Ventura encara os refugiados do Iémen, da Síria ou da Líbia com o mesmo desprezo e a mesma falta de humanidade com que Putin encara os ucranianos. E causa repulsa, a tentativa forçada, e sucessivamente falhada, de difundir a islamofobia, num país sem historial de problemas com a comunidade islâmica, apenas para seguir a cartilha dos seus parceiros europeus, que ainda ontem recebiam financiamento em rublos e envergavam t-shirts de Vladimir Putin.

Roman Abramovich e a mão pesada do governo britânico

Pela glória de Sua Majestade, deram os seus bravos cavaleiros cabo do sonho londrino de Roman Abramovich. Quando comprou o Chelsea, em 2003, ocupando na altura o cargo de governador de Chukotka, onde se manteve até 2008, as mãos de Abramovich não estavam sujas. A sua eleição, para um oblast tão longínquo que está mais perto de Washington DC do que de Moscovo, terá seguramente sido limpa e transparente. A sua fortuna relâmpago, estratosférica, terá seguramente resultado do trabalho árduo e do seu génio fora de série. E as ligações a Putin, é sabido, remontam a 24 de Fevereiro de 2022, quando ambos se conheceram e Abramovich sujou as mãos. A mão pesada de Londres é implacável. Os oligarcas russos que andam há anos a enviar remessas para o Palácio de Westminster que o digam.

Alguém pediu um apocalipse nuclear?

Leio por aí, nas redes e na imprensa, várias pessoas que defendem uma intervenção directa da NATO no conflito. Vejo-as ser confrontadas por outras pessoas, a meu ver mais sensatas, que lhes dizem:

  • Então e se isso levar a uma escalada nuclear?

Ao que essas pessoas respondem algo como:

  • Que se lixe! Temos que fazer justiça pelo povo ucraniano, doa a quem doer.

Isso, fazer justiça. Tudo muito bonito, tudo muito poético, principalmente se aparecesse um James Bond no último minuto, para desactivar o missel balístico intercontinental com o nuke lá dentro, ao qual estaria amarrada uma lindíssima Bond girl, a jeito de ser salva e beijada pelo galã. Acontece que esta merda não é Hollywood e, havendo quem queira mesmo morrer, mais vale ir para a Ucrânia combater. Sempre será mais útil à causa.

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