Gourmets do espírito

Por estes dias, em qualquer restaurante de prato económico, já podemos ouvir o cliente da mesa do lado pedir para ver a garrafa de azeite ou vê-lo a enfiar o nariz no copo de vinho da casa. Pouco a pouco, os menus foram sofrendo um processo de “goumertização” e multiplicaram-se os chefs. Não falo dos restaurantes de luxo, onde a coisa começou, mas da extensão do fenómeno aos sítios mais improváveis. Desde que descobri um tasco no centro do Porto, numa destas ruas onde ainda se grelham as fêveras à porta, com um cartaz improvisado a anunciar “tasco gurmet”, já  dou por assente que a epidemia é irrefreável.

Os nossos hábitos requintados já não aceitam fígado de cebolada ou farrapo-velho. Mandamos vir saladas tépidas de pimentos marinados, estaladiços de alheira, espuma de coentros, ao bacalhau já só o toleramos confitado em azeite, e à sobremesa apetece-nos crocantes de arroz doce e  parfaits de baunilha e alfazema.

Ainda gostava de saber que diria nestes tempos, se os tivesse conhecido, a velhota mais amarga que encontrei, e que, sobre o dinheiro que alguns gastavam em restaurantes, resmungava:

– Bah! Daqui para baixo – apontava o pescoço – é tudo merda. [Read more…]

A curva do universo ou da vida

oscar niemeyer

Morreu um homem feliz.

Morreu uma pessoa que acreditou até ao fim nos seus ideais.

Morreu o “embaixador da arquitectura brasileira” e o “último grande arquitecto do século XX”.

Morreu Oscar Niemeyer (1907-2012), a poucos dias de completar 105 anos.

Eu olho para trás, não sou como os outros que dizem que fariam tudo igual, eu faria muita coisa diferente. A vida é difícil, a vida nos leva a coisas que às vezes a gente não quer. A vida é um sopro, a gente vem, conta uma história e todo o mundo esquece depois. (…) Cem anos não dá prazer. Eu ia passar os cem anos sem muita alegria. A vida passou, eu procurei ser correto, trabalhar, mas não estou contente, na verdade não traz nenhum prazer. Só se o sujeito pensar que é importante, e eu acho isso tão ridículo, se ele pensar que é importante ele está fora do mundo.

(…) O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo.

(publicado na secção Cartas à Diretora do Público, 7/12)

Voluntariado

dia-do-voluntariado-001Ontem, 5 de Dezembro, foi o Dia Internacional do Voluntário.
É uma data importante para assinalar e reconhecer o esforço de muitas pessoas que dão uma parte de si a favor de outros. Muitos dão muito de si.
Não me encaixo nesta categoria de pessoas. Não sou abnegada. Não dou muito de mim. O meu voluntariado é mais uma forma de egoísmo. Sou voluntária porque não sei ser de outra forma. Porque toda a minha vida tentei ajudar outros, embora até há uns anos atrás a ajuda que eu dava fosse algo incipiente. Mais voluntarismo do que voluntariado. [Read more…]

Acabou o corrupio?

corrupioUm velho amigo, jornalista experiente e resmungão, mostrava-se sempre muito irritado com os erros dados pelos seus colegas de profissão, explicando, entre muito vernáculo, que não seria admissível que um mecânico de aviões se descuidasse com um parafuso que fosse. Se a ferramenta de um jornalista é a língua em que escreve, substitua-se o parafuso por sílaba e o avião por ortografia ou por construção da frase.

Na página do ionline, esteve bem visível um erro ortográfico: corropio. Entre tantos dicionários, prontuários e correctores, como se explica que uma palavra como “corrupio” possa aparecer mal escrita? Retomando a imagem do parafuso e do avião, estamos diante de um provável despenhamento: há um jornalista que não domina a ferramenta e há uma multidão de leitores que é arrastada para um erro ortográfico.

A Xoné

xoneOlá, eu sou a ovelha Xoné.
Vivi acima das minhas possibilidades, comi bifes todos os dias, lavei os dentes com a água a correr.
Sê bom cidadão, pratica a caridadezinha para comigo e, ao mesmo tempo, entrega 23% dela ao Estado.

Portugueses extraordinários

notícias magazine
A Notícias Magazine de domingo foi a melhor de sempre, na minha opinião.
Não nos falou de gente VIP no sentido de serem figuras públicas, ricos, atrizes, cantores, estilistas, políticos ou gente famosa. Conhecemos, nesta edição da revista, «Very Important People», porque se entregam aos outros. Porque se deixaram mudar de vida (alguém os fez pensar profundamente) e mudam a vida de tantos… pequenos, graúdos, reclusos, doentes, idosos sós, crianças doentes.
Parabéns a todos, como o João Sá, que pensam que a crise não pode paralisar-nos e que temos que ultrapassar as dificuldades, olhando em frente; parabéns à Maria G. que usa o râguebi para “esbater as diferenças” e ensina que todos precisamos uns dos outros; «bem-haja» às Marílias que se julgam ricas por «somente» despertarem um sorriso numa criança; a todos os «Joaquins» que não desistem e arranjam maneira de servir duas refeições por dia a quem não tem o que comer; um especial abraço a todos os doutores-palhaços que enfiam o seu Nariz Vermelho numa Operação que corta a dor, ainda que por momentos, de centenas e centenas de crianças hospitalizadas; obrigados, Bernardo, por se dar «ao trabalho» de angariar 1 euro de cada vez para “mudar vidas” (parece simples).
A lista é interminável de portugueses que fazem o bem em silêncio. Isto deve deixar-nos cheios de esperança. Há gente boa e generosa.
Ficou-me uma frase de Helena Pina Vaz que espero não esquecer: “Indignação e ação. Uma não faz sentido sem a outra”. Com esta gente, é Natal todos os dias.

Decoração de lojas para este Natal

decoracoes de natal

Isabel Jonet e o pequeno-almoço dos pobres

isabel jonet pequeno almoco

Para que não restem dúvidas, fica aqui o recorte completo da entrevista de hoje ao Correio da Manhã. A ideia de que pais deixam filhos em jejum a caminho da escola por falta de tempo é sem dúvida fascinante. Entre os pobres que conheci e conheço, garanto que o problema não é esse, mas a simples falta de dinheiro (e admito, em alguns casos, acrescida de irresponsabilidade). Sim, no mundo real há 2,6 milhões de portugueses sem dinheiro.

Não é espantoso que a santa padroeira da caridade não perceba isto? não, não é. É que na sua classe social acredito piedosamente que muitos pais não tenham tempo para dar o pequeno-almoço aos filhos. Não vejo é grande drama nisso: chegam ao colégio e passam pelo bar. O pior que acontece é chegarem atrasados à aula.

Pão de todos para todos

pão de todos
A CAIS, que há muitos anos é para mim um exemplo de solidariedade e à qual me orgulho agora de pertencer como voluntária no núcleo do Porto, organiza pela terceira vez no Porto a iniciativa Pão de Todos para Todos. Nunca antes participei em nenhuma destas iniciativas. Pretendo fazê-lo desta vez. Tenho, agora, mais motivos: mostrar às minhas filhas que se pode ajudar os outros sem roubar nada da sua dignidade e mostrar aos meus alunos e todo o pessoal da instituição o profundo respeito que tenho pelo trabalho de todos eles.
No Porto, durará entre os dias 6 e 9 deste mês. Sempre entre as 14 e as 20 horas. No Campo Mártires da Pátria, junto ao Jardim da Cordoaria.
Em Lisboa, a 9ª edição decorre uma semana mais tarde, entre 13 e 16 de Dezembro, seguindo o mesmo horário, na Praça Martim Moniz.
Em ambas as cidades haverá uma padaria a fabricar pão, animação de rua com alguns nomes conhecidos, distribuição de pão e certamente muito para reflectirmos.
Convido todos a vir partilhar um pãozinho. E se me virem por lá, façam o favor de me cumprimentar. Ficarei feliz.

Afinal, PPC tem razão

Tenho que dar o braço o a torcer. Tantas vezes digo mal do nosso Pedro Coelho e, afinal, ele até tem razão. Vi nas notícias que cada vez mais famílias jantam juntas por não terem dinheiro para fazer refeições fora de casa.
Ao contrário do que eu constantemente digo, este senhor é um visionário. Ele sabe bem o que faz. Com a sua sábia acção, junta as famílias em torno da mesa de jantar. Não percebi se se tratava da mesa da sala ou da mesa da cozinha. [Read more…]

Greve do Pessoal dos Recursos Humanos das Empresas com Trabalhadores em Greve

RECURSOS HUMANOS 2FIXE, FIXE, ERA UMA GREVE DESTA GENTE

Fixe, fixe, era que o pessoal dos Recursos Humanos das empresas cujos trabalhadores estão em greve, parcial, às horas extraordinárias, ou total, e que dessa greve resultassem prejuízos para os outros trabalhadores que necessitam dessas empresas a laborar para eles mesmos trabalharem (Soflusa, Transtejo, Carris, Metro, CP, STCP, TAP, etc., etc., etc.), ou cujos prejuízos para a economia nacional fossem por demais evidentes (estivadores dos portos Nacionais), também fizessem greve, nem que fosse por solidariedade.

Era ver se as greves grassavam da mesma forma por esse País fora.
Para quem não sabe ou anda distraído, algumas das funções dos Recursos Humanos são:
– Preparar os dados para o processamento informático dos vencimentos;
– Processar os documentos relativos às horas extraordinárias, despesas de deslocação e ajudas de custo;

Há freguesias e freguesias

Desta vez o Aventar vai mesmo fazer serviço público!

freguesias

Freguesias como Bendada ou Gême têm um nome bem interessante, mas há outras localidades com nomes bem originais como Lisboa, Paranhos, Maia ou até mesmo Vila do Conde. Nomes estranhos, pois claro.

Pelo que se pode ir vendo há nomes muito mais comuns como Coito da Enchacana, Paneleiro de Baixo ou Picha.

Confesso que comecei o post pensando que poderia provocar um sorriso num ou noutro leitor do Aventar – via mail, uma mensagem chegava dando nota do crime que seria a morte destas freguesias às mãos de um qualquer burocrata.

Acontece que me dei ao trabalho de verificar quantos destes nomes eram de facto referências a freguesias e a surpresa não foi assim tão grande – a esmagadora maioria dos nomes que fazem parte da lista não são nomes de freguesias.

Fico mais sossegado em saber que o Vale da Rata se vai manter.

Pré-ruptura?

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Almada (Av. 25 de Abril) e Lisboa (Metro Restauradores)

Quase seis mil empresas falidas em 2012 and counting (vinte e cinco por dia declaram insolvência), o País cheio de jovens sem hipótese nem de pagar propinas nem de vir a arranjar trabalho, a vida portuguesa cheia de desempregados, as casas que começaram a comprar quando tinham emprego tornadas propriedades irrelevantes, milhares de esfomeados pelas ruas, crianças a passar fome nas escolas, os velhos sem dinheiro para se tratarem, as farmácias com problemas graves de fornecimento de medicamentos, um em cada cinco portugueses a viver no chamado limiar da pobreza (fronteira esbatida e vaga dos números euro-oficiais irrealistas), os empresários da restauração sem liquidez possível para aguentar os absurdos 23% de IVA exigidos pelo Governo, as lojas vazias, os funcionários de tudo em greve, a revolta a estoirar em cada português indignado, a fazer novos doentes entre os que calam a indignação, o PM a dizer em Cabo Verde que pode andar à vontade nas ruas de Portugal (piegas?), a justa greve dos estivadores de Lisboa e de Setúbal a perder força pela força dos desembarques de mercadorias que se estão a transferir para os portos do Norte, a polícia apedrejada com violência por miúdos doentes de revolta perante a passividade cúmplice dos mais velhos, as pessoas cada vez mais frágeis a chorar em todos os canais da tevê (piegas?), o realismo épico dos graffiti-stencils que se reproduzem em grande quantidade pelas ruas das cidades, os negócios sinistros com as escolas privadas em cima da escolaridade obrigatória paga pelos contribuintes, um milhão de manifestantes não-organizados a marchar contra a TSU em 15 de Setembro passado, e o PS a falar ainda e sempre de pré-ruptura social, enquanto se chega à frente (mas não demasiado) para defender os interesses subitamente superiores de Portugal junto da UE. Não é só Pedro Passos Coelho que tem problemas com a realidade. Também o PS não parece ser capaz de ver num país em escombros aquilo que todos nós (o povo, entenda-se) vemos: o fim da linha. Ou seja, o abismo de onde nos despenhamos há muitos meses, um estádio de ruína (e também, e como nunca, de ruína moral da governação) muito para além da ruptura. O que será preciso para sê-lo, sem eufemismos, no discurso da classe política dominante?

Segredo do Pai Natal descoberto!

Afinal, os gnomos são um mito: os ajudantes do Pai Natal são estivadores.

Trezentos e Sessenta e Três Mil Euros

adro-igreja-ruilheÉ quanto disseram na última Assembleia de Freguesia de Ruílhe (Braga) que iria custar a renovação do adro da igreja;
a obra, laica, ficará concluída em 2013, poucas semanas antes das próximas eleições autárquicas. No entanto, a ponte para Arentim, sobre o rio Este, “ficou ainda mais frágil com as cheias do passado dia 26 de Outubro“, está já sem tráfego automóvel há alguns meses mas, dizem, “a passagem a peões mantém-se..” (sic, com reticências e tudo).
Interrogo-me como foi possível – e ainda bem que foi! – encontrar esta Junta de Freguesia 363.000 euros numa época tão austera e severa. Sentido de humor ou apenas má despesa pública?

Esta história dava um filme

Destino de grande parte dos submarinos alemães feitos até hoje. U-134 sob ataque da RAF em 8 de Julho de 1943.

Destino de grande parte dos submarinos alemães feitos até hoje. U-134 sob ataque da RAF em 8 de Julho de 1943.

Não tenho pretensões a compreender nada do que se segue. Mesmo nada.

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Reformas na Suíça têm tecto máximo de 1700 euros

Aparição fugaz, de 3 minutos, na RTP2! O governo suíço fixou que o máximo que um suíço pode receber de reforma são 1700 euros

Esta notícia foi tratada apenas em noticiário pouco visto para evitar, naturalmente, o contágio. Porque será ?

Nunca se poderia passar em Portugal porque… cá…  somos MUITO RICOS!!!

Nada é o que parece

É um domingo cinzento, de chuva miudinha, um dia frio, chato, um tempo tinhoso, que raio de ideia vir de passeio. Abrigada sob as colunas da praça vai-se fazendo a feira de coleccionismo das manhãs de domingo. Compram-se e vendem-se moedas, selos, fotos de louras em topless, estampas dos três pastorinhos e da virgem de Fátima. Um septuagenário aguerrido regateia o preço de um DVD com a Sofia Loren na capa. Um míope muito míope examina os selos amarelados que lhe tentam impingir.

Os três velhotes, em pose conspiratória, falam baixinho e não mostram grande interesse pela feira. Podem ser reformados a discutir a situação política e social. É provável que falem de futebol e critiquem as opções do treinador. Podem trocar queixas sobre o custo de vida e os cortes nas pensões. São baixinhos, todos vestidos de subtis gradações de cinzento, dois com óculos, o terceiro de boné. Falam baixinho, sim, mas com entusiasmo, e ao passar escuto:

– Tu o que tens que fazer é criar um nick, que é um nome que tu inventas para a gaja não saber quem tu és. E depois dizes o que te apetecer: que és alto, louro, rico, e que a tens grande.

Riem todos à socapa, como miúdos a preparar a maior partida de sempre.

Congratulo-me por saber que os info-excluídos estão em vias de extinção.

Os nossos velhos passam fome

idosos fome
Embora tivesse consciênca de que isto acontece, sei que há idosos que já não compram medicamentos porque não os podem pagar e não se alimentam convenientemente porque não encontram forma de se sustentar, a realidade parece mais cruelmente real quando me atinge de frente. Há dias disse-me alguém, uma médica que trabalha num hospital, que são cada vez mais os casos de idosos que aparecem nas urgências com uma maleita que mais não é do que FOME. Aparecem, queixam-se de uma qualquer dor, de um qualquer achaque e, quando esta médica lhes pergunta se comeram, a resposta é um não. Ou um encolher de ombros, um baixar dos olhos envergonhados. Logo ali se percebe que aqueles pessoas vão ao hospital na esperança de lá poderem comer qualquer coisa. Alguns insistem mesmo em ser internados. [Read more…]

Helena Matos já resolveu o problema da fome

Maria Antonieta instava o povo a comer brioches, já que lhe faltava o pão. Há uma diferença entre a antiga rainha de França e Helena Matos: a primeira terá sentido compaixão do povo. A semelhança está no facto de que ambas tinham a cabeça decepada em vida e ninguém as avisou.

Como muitos opinantes decapitados, Helena Matos, diante das notícias sobre a miséria ou sobre a fome, escolhe sempre escapulir-se às causas, pondo a culpa da miséria nos miseráveis e vendo os subnutridos como gente que optou por ter fome. Não deverá faltar muito para que venha a chamar anorécticos aos meninos que exibem despudoradamente os ventres inchados nos países africanos em que os pais obrigam os filhos a não comer.

Se havia crianças a passar fome, antes da actual crise, isso devia-se, segundo a decerto socióloga Helena Matos, à irresponsabilidade de uma geração inteira de pais “que já as alimentavam mal mas que antes da crise tinham dinheiro para tomar o pequeno-almoço no café ou comprar uns donuts e quejandos sem qualquer interesse alimentar mas que faziam as vezes de pequeno-almoço.” Mais estúpido do que negar a existência de pais irresponsáveis é fazer de conta que a fome não existia e que não havia pais que tinham e têm dificuldades em comprar comida para os filhos. Infelizmente, as notícias – que costumam ficar aquém da realidade – dão conta de muitas crianças com fome: na maior parte dos casos, isso acontece porque, muito provavelmente, há uma manada de pais que se dedicam a pastar donuts.

Sempre enojada com a simples existência de instituições estatais, Helena preconiza que, a haver problemas de fome, a ajuda se faça de modo a que o pequeno-almoço em falta seja levado a casa das crianças, o que, do ponto de vista logístico, é um achado. A ilustre senhora , diante da possibilidade de as crianças poderem ser ajudadas nas escolas públicas (expressão que a leva a agarrar o terço com mais força), deve orar, recolhida: “Deus nos livre de o Estado ajudar quem tem dificuldades ou que fulmine qualquer intervenção que possa servir para compensar ou corrigir as disfunções familiares.”

A prisão à liberdade

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As coisas estão de tal forma, que na hora de optar pela liberdade antecipada, os reclusos preferem ficar na cadeia, onde têm garantidos a alimentação e os cuidados de saúde. “A crise, que o País atravessa, não permite às famílias receberem-nos, revela o Sindicato Independente do Corpo da Guarda Prisional, que pela primeira vez se deparou com uma situação destas (…) a sobrelotação das cadeias e as queixas pela falta de condições pesam pouco no momento dos reclusos optarem pela saída antecipada”.
Os reclusos preferem continuar presos para não sobrecarregarem as famílias com problemas socioeconómicos.
A prisão ainda se lhes afigura melhor que a própria casa… É caso para dizer «’tá-se melhor dentro que fora».
E eu a pensar que a liberdade estava acima de tudo…
A crise já compromete a nossa liberdade. Ao que nós chegamos.

Sinais preocupantes de um país a desnascer

Entre os anos 30 e 50 do século passado, a minha avó Maria teve 13 filhos. Três deles morreram à nascença ou nos dias seguintes, apesar de tanta experiência acumulada nela, à conta dos seus e dos partos das outras mulheres da terra. Um pouco mais tarde, na aldeia vizinha, a minha avó Leontina deu à luz dez crianças, sendo que a penúltima engrossou a monstruosa taxa de mortalidade infantil que, naquele tempo, não (se) contava. Mas a mim contaram-me elas as histórias das outras mulheres que perderam tantos filhos, num tempo em que o médico ainda se deslocava a cavalo entre as aldeias. Sem assistência alguma durante a gravidez e os partos, as mulheres experimentavam a fé e a sorte na sobrevivência familiar.

Depois veio o Serviço Nacional de Saúde, os avanços da medicina, o progresso possível num Portugal que, aos poucos, foi sendo ligado entre si por vias diversas de comunicação. E as reduzidas taxas de mortalidade infantil iam orgulhando o mesmo SNS, equilibrando assim, na balança dos números, os sinais preocupantes da demografia e da taxa de natalidade. [Read more…]

O devir histórico (fim)

A nossa condição humana impõe que não nos deixemos narcisar somente pelo que se diz de bom nos Lusíadas, mas que sintamos sentimentos de indignação e revolta e repudiemos tudo o que cheire a indignidade nacional! Todos sentem, mesmo quando é a seu favor, que a justiça não é imparcial e se deixa influenciar por causas estranhas, que às vezes são bem do nosso conhecimento, por estarmos dentro da conjura… e isto arrepia e revolta!

Concluindo.

Ao longo desta série de oito textos, guiei-me por uma perspectiva de contemporaneidade do passado. Pela inexorável repetição dos erros que o nosso país tem cometido, que nos trouxe ao momento que vivemos. Findando esta série, sobre o estado da Justiça. Porque o estado em que se encontra, sintetiza as razões do que ora vivemos. E para demonstrar a contemporaneidade do que vivemos, encima este texto uma citação. É da autoria de Christiano Morais e está no seu livro “Código da Honra – A Justiça e a Nação”, de 1953, pág. 91. Uma edição de autor que em pouco tempo a censura tratou de retirar das prateleiras das livrarias. Um livro escrito por um médico, que faz a autópsia do estado da Justiça em Portugal. E o que mais espanta – ou nem por isso… – é a actualidade, não de tudo, mas de tanta coisa que nele está escrita. Um inegável registo documental, a par de tantos outros, para se demonstrar a constante repetição de erros e de vícios com que nos temos desgastado enquanto povo e nação. E que melhor tema para tal, do que a Justiça? Pois que não existe sinal crítico mais grave, do que quando a Justiça reproduz todas as fraquezas e soberbas de uma país. E o que nos trouxe à actual descredibilização da Justiça, foram e são erráticas opções legislativas, inquinadas conduções de investigação criminal e sucessivos episódios judiciais de crimes sem castigo. Foram e são as manobras, tantas vezes demagógicas, que consecutivamente se operaram nas regras processuais – civis ou penais -, de molde a se servirem propósitos estranhos aos que devem ser prosseguidos pela Justiça. Como é o caso da actual alteração ao Código de Processo Civil que faz das partes e seus mandatários os culpados pelas demoras na Justiça. Ao ponto de, por exemplo, se ter de pagar para que seja corrigido um erro constante de uma decisão judicial, como agora decorre do Regulamento das Custas Procesuais.  Porque pagar é preciso. Cobrar é urgente. Julgar bem… logo se verá quando se tornará importante. Não será para já, como não foi no passado. Mas haverá de ser, um dia. Quando se começar a fazer o que ainda não foi feito. Como canta Pedro Abrunhosa.

(corrigido após publicação)

Almoço Sectorial Aventar, Porto

PALAVROSSAVRVS: Hoje o Aventar almoçou na Baixa Portuense, Mousinho. Foi um almoço sectorial. Éramos só dois. Dario e eu. Mas foi muito bom na mesma. Nada como termos podido contrastar o dia-a-dia com o prazer sem paralelo de uma excelente conversa aventadora, onde nada do que é português e relativo à política escape ileso. Conspirámos. Rimos. Sonhámos.

Exare-se em acta esta nossa conclusão concorde: são milhares os exemplos de como a roda dentada político-partidária nos vem fazendo um mal indescritível e ao País: enquanto a Política e a sua Casa Simbólica se conservarem meras conchinhas fechadas aos cidadãos, antro de negócios a que temos sido completamente alheios, e enquanto a Justiça [finalmente levada aos que malbarataram e desmandaram e atropelaram a Coisa Pública debaixo da pala imunitária da Política] não passar de uma caricatura de Justiça, Portugal também não passará de um sítio. Jamais será um País.

Hoje senti-me mais vivo. O copo de vinho ajudou. Fui ressuscitado para a luz bela de um dia portuense frígido, na companhia não já de um colega, mas de um Irmão e de um Amigo. A propósito, parece que o IVA não é levado muito a sério nos restaurantes às moscas, pois não, Dario?!

DARIOSILVA: Não tenho IVA a declarar: o vinho, branco, verde, só podia ser bom: provém do vale do Sousa, d’uma encosta com o comboio aos pés, d’um sítio que acumula um nevoeiro delicioso numa infância a bordo de um comboio. E foi assim.

A crise que vivemos e a família

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O orçamento de estado para 2013, acaba não apenas com as entradas lucrativas, bem como com começa com os despedimentos do emprego, a falta de entradas e, o que é bem pior, com as lutas familiares.

É verdade que as pessoas juntam lares dentro de uma mesma casa para poupar o pagamento de rendas, que, de certeza, passam a ser mais caras, assunto inusitado no nosso país. Como é natural, todos querem morar no seu canto de família doméstica, mas, quando não há dinheiro, a única alternativa é juntar pessoas da mesma família beijo um mesmo teito.

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A lição dos estivadores

Como se percebe da leitura do extenso trabalho que veio hoje a lume no Público, há sindicatos e sindicatos, e uns e outros distinguem-se pelos trabalhadores que têm e sua consciência.

Enquanto nuns portos os estivadores pagam uma quota elevada e beneficiam com isso da possibilidade de prolongar uma greve, o responsável do sindicato de Sines afirma não ter hipóteses de o fazer (embora saiba que uma greve de 8 dias faria ceder qualquer governo), o que até se compreende.  Uns ainda são trabalhadores, os outros estão no grau abaixo de zero do precariado e do salário pelo mínimo.

É essa a diferença, é para aí que governo e patronais pretendem empurrar os trabalhadores que sobram. Espancando para a ausência completa de direitos, para a reproletarização na versão clássica do esses que nada têm a perder porque nada têm, mas não ganharam ainda a consciência de terem tudo a ganhar. Esses a quem chamam em gozo de balofa hipocrisia colaboradores.

Têm azar: mais tarde ou mais cedo este filme também acaba assim:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=S6VBdu_ur48]

Há Lodo no Cais – On the Waterfront

Que se lixe o ABC

O Governo quer que os portugueses se deixem de escolaridades mínimas obrigatórias e prepara-se para destruir de uma assentada o que resta de uma ideia de Escola pública que, apesar de deficiente (e tudo terá começado a ficar mais complicado quando o PS de José Sócrates chegou ao poder), mantinha o País num rumo de progresso por via do acesso universal ao Conhecimento. Não é só a mobilidade social (já muito dificultada por tudo o resto que actualmente a debilita) que se verá gravemente afectada: é o próprio projecto de uma sociedade que começa por ser democrática porque dá a todos, pelo acesso gratuito à Educação, a possibilidade de formar cidadãos para o exercício político da cidadania.

Em 1936, Carneiro Pacheco, ministro da Educação Nacional, afirmava (num estilo de que Passos Coelho é um lamentável e anacrónico herdeiro) que «O ABC [tinha sido] legalmente derrotado por Deus», deitando por terra o programa republicano que preconizava ser o ABC «o fundamento lógico do carácter». Tratou-se, nessa reforma estado-novista, de reservar a Educação às elites, reaproximando o povo do freio da Religião, banhando-o desde a mais tenra idade nas virtudes cristãs, em detrimento daquilo a que chamavam “o saber enciclopédico”, que de nada serviria aos meninos nas suas vidas futuras, diziam – e o mesmo dizem hoje os passos coelhos desta vida portuguesa a andar para trás relativamente aos alunos universitários que estudam para serem desempregados, em vez de se deixarem de estudos e aceitarem ser os soldados das multinacionais exploradoras do trabalho barato.

E foi assim que criou o povo resignado que se absteve de toda e qualquer participação cívica – mergulhando no silêncio medroso até 1974. É esse o povo que hoje não vota, entregando aos partidos minoritariamente votados (se considerado o universo dos eleitores) o destino da Nação.

O devir histórico (7)

Continuando.

Existe um perigoso sentimento que tem atravessado séculos da nossa história. Com maior acuidade e gravidade durante o Século XX até aos dias de hoje. De maior acuidade e gravidade, porque foi durante o Século XX, até aos dias de hoje, que se consolidaram as ideias e os conceitos de justiça, de cidadania e de dignidade da pessoa humana. Esse perigoso sentimento é o da impunidade. Mercê de razões conjuncturais díspares, a verdade é que desde o regicídio, passando pelos hediondos crimes de tortura e de sangue do Estado Novo, até às delapidações da riqueza nacional e do fomento do fatal endividamento que se sucederam em plena democracia, existiu um fio condutor: impunidade. Tal sentimento é dos mais desgastantes e corrosivos para a moral de um povo. Porquanto enraíza sentimentos contrários aos da ética e da responsabilidade. Ao ponto de se desvalorizar a seriedade e aplaudir-se a audácia. De se descredibilizar a inteligência e de se louvar a esperteza. Bom, não é ser-se sério e inteligente. Bom, é ser-se vencedor, não importa como. É ter sucesso. E, assim, a mentira entrou nas nossas vidas, nas nossas, casas, nos nossos projectos. A mentira para conquistar votos, para se chegar ao poder, para se conseguir o que se quer sem esforço ou mérito. E, assim, se afastou o mérito das nossas profissões, das nossas escolas e dos nossos desejos. O mérito não abre portas. A mentira, abre. Pelo menos o tempo suficiente para se alcançar outra porta. Porque este é o resultado natural de sucessivos episódios de se ver que quem roubou, mentiu ou matou ficou impune. Todos, eles, notórios casos de impunidade. Sim, notórios. Não é o roubo de esquina, a morte passional ou a pequena burla. É a impunidade dos crimes nas esferas das elites. Aquela que descredibiliza a Justiça, aos olhos do povo, porque firma duas Justiças: para pobres e para ricos. Algo que, só por si, é inadmissível. A que é, também, a pior impunidade de todas, porque inquina a hierarquia do exemplo, porque o exemplo que vem de cima, é o pior. E pior, ainda, quando contraditoriamente acompanhada de retórica evocativa de princípios éticos, de respeito, de direitos e de morais. Pior, porque o mau exemplo conspurca os valores apregoados. Pois que pior destino se pode dar a ideais e conceitos éticos, do que prostituí-los ao serviço dos seus antípodas?

Dias de Luta Nacional


A dias de luto seguem-se os dias de luta. Depois do choque, mesmo que a morte tenha sido já anunciada, há sempre o choque, aquele impacto que ninguém quer sofrer, reerguemo-nos mais fortes. Sofre-se, chora-se, e depois arregaça-se as mangas, faz-se das tripas coração e segue-se em frente. Vai-se à luta.
No caso de todo um país descaradamente roubado, de uma nação que não tem mais para onde se virar, despojada de toda a esperança, temos que unir forças e lutar, lutar, lutar contra os barões e senhores que vão tentar manter-se no poder, agarrados que estão às cadeiras já desgastadas com as marcas dos seus anafados e ociosos traseiros com unhas e dentes, alternando as cores de forma promíscua, mas sempre olhando pelos interesses uns dos outros. [Read more…]

O país do tudo a mais

Era uma vez um país tão pequeno, tão pequeno, tão pequeno que até começou a parecer que as coisas deixaram de caber lá dentro. De um dia para o outro, talvez por causa da desarrumação, o país passou a ter tudo a mais. Pelo menos, foi o que os governantes do país disseram, porque os governantes são pessoas que dizem.

Passou a ser conhecido pelo país do tudo a mais. De um dia para o outro, como havia muitas coisas a mais, como, por exemplo, dívidas, impostos, miséria ou fome, também começou a haver pessoas a mais. As pessoas e as coisas a mais já não cabiam todas dentro do país. Como as pessoas tinham pernas e as coisas não, as pessoas, quando deram por ela, estavam fora do país e começaram a andar para países em que havia coisas a menos ou pessoas a menos, ou esperança a mais, que a esperança era das poucas coisas que havia a menos no país do tudo a mais.

Ao fim de algum tempo, por causa das pessoas que foram, porque estavam a mais, e por causa das que ficaram, porque tinham dificuldades a mais, as lojas começaram a ser lojas a mais. O mais curioso foi saber que no país do tudo a mais, em que passou a haver fome a mais, os governantes acabaram por dizer que havia restaurantes a mais, porque os governantes são pessoas que dizem.

Esta história era para ter uma moral, mas, no país do tudo a mais, até a moral estava a mais.