Ao encontro da memória
Eu sei que, por aqui no Aventar, andamos todos atentos ao que se escreve e que pode ter interesse para desmistificar a elite política de gestores que a troika comanda para nos empobrecer, para nos tirar o que de menos mau ainda temos.
Mas não resisti, em nome e para memória futura, a publicar neste espaço o excelente momento de Teresa Beleza, dedicado à mãe.
Teresa Pizarro Beleza é irmã de Leonor Beleza e Miguel Beleza, e, além de professora de Direito Penal, é directora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.
Esta carta foi publicada no jornal Público de 5.ª feira, 10 de Janeiro de 2013, e, como só pode ler lida online por assinantes do jornal, ou por quem o adquiriu nas bancas, aqui fica a transcrição, sob o título:
“Carta a minha mãe sobre o SNS e outras coisas em Portugal” [Read more…]
“Lembro-me da primeira vez que fiz sexo. Guardei a factura”
Lembro-me da primeira vez que fiz sexo. Guardei a factura
Groucho Marx
O frase do mais prolixo dos manos Marx (não, nenhum deles era aquele que escreveu O Capital) agradará por certo aos inquisidores do Governo, determinados a assumir atitudes de cães de caça à multa (perdão, contra-ordenação) dos incautos contribuintes.
Sobre o assunto, em modos diferentes, Francisco José Viegas, ontem, e Ferreira Fernandes, hoje, disseram tudo.
Antes ainda de 2 de Março
O profético e preclaro Miguel Relvas
A maior parte dos portugueses estão conscientes de que os insucessos provocam no governo ataques generalizados de crendice e profecia. A situação não é inédita. Em Agosto de 2012, teve o ponto alto – origem do nome PONTAL, por efeitos de contracção – com a declaração célebre e premonitória de Passos Coelho de que 2013 seria o ano da recuperação. Estamos a notar.
A propósito da queda superior do PIB em 2012, além do Álvaro amargurado com a Europa, tivemos o notável Miguel Relvas, a profetizar:
[…] Todos os dados apontam para que a partir de 2014 começaremos a ver indicadores nesse sentido [a recuperação]
Esclarecedor e convincente não é? Também, em miúdo, tive um vizinho que garantia ter dados e o privilégio de, sozinho, ver OVNIS às três da madrugada. Com estas loucuras, a mulher, os dois filhos e o próprio acabaram internados no manicómio. Olha o que nos espera, a nós e ao Relvas.
Festival Debussy
Claude Debussy fotografado por Nadar
Festival Debussy – de 14 a 22 de Fevereiro de 2013 (Música Gulbenkian)
Concordando com o PCP
Agora só falta vir um comentador anónimo dizer que sou um grande comuna…
Às mulheres do matadouro
Num trabalho muuiiito precário que tive há anos, tocou-me, certo dia, ir em serviço a um matadouro. Por essa época, eu fazia parte de uma equipa que executava (termo apropriado) no terreno aquilo que os piores criativos publicitários de todos os tempos haviam concebido nos seus cubículos bafientos de humidade e fumo de tabaco. Eram campanhas portentosas, originalíssimas, como a que se fez para certa marca de palitos, cujo slogan era “X, o palito de design europeu”. Abstenho-me de dizer a marca porque, para meu espanto, ainda existe.
As criaturas criativas tinham varrido o Portugal esquecido, aquele ao qual jamais chegavam propostas de publicidade televisiva, e tinham arrebanhado contratos a dar com um pau. Pelas encostas da Alcongosta, no Fundão, em Castelo Branco, Vila Velha de Ródão, Vila de Rei, até nas terreolas que tanto nos custava descobrir no mapa, não faltava quem quisesse anunciar o seu negócio, levantado do chão com mãos calejadas de trabalho ou alavancado às pressas por um fundo comunitário. Vai daí, toca a contratar (é uma forma de dizer) uns quantos imberbes desempregados e a fazê-los correr as terras da Beira Baixa, munidos de esboços de guião e câmara de vídeo, muita paciência e ainda mais ingenuidade. O salário era curto, mas no fim de cada semana não me faltavam as histórias para contar aos amigos. [Read more…]
‘Troika’ e Gaspar não acertam uma, porra!
Sei que faltam na imagem o etíope, o careca e o alemão, como diz o Miguel Sousa Tavares. Todavia, a queda desse trio foi tão brusca, que nem tempo deu ao artista de os captar.
Os famigerados homens da ‘troika’ já estão no precipício dos objectivos falhados – por eles e pelo País. Vítor Gaspar, por cortesia, deixou-os passar e vai em acelerada queda para se juntar aos companheiros.
Explicado com detalhe, diga-se que o buraco é largo, fundo e negro. Têm de lá caber todos os erros das previsões da ‘troika’ e do Gaspar, assim como Portugal inteiro – a menos que se esqueçam do casal Silva em Belém ou no Possolo, ou ainda dos frades da Cartuxa em Évora.
Todos os dias temos matéria a afundar-se e a lançar-nos no profundo precipício – ontem foi o agravamento da taxa de desemprego para 16,9% em Dezembro; hoje sabe-se, pelo INE e a comunicação social, que o PIB contraiu 3,2% em 2012.
Se apenas hoje foi divulgado o número efectivo do PIB, pergunto eu: como é que o governo há semanas asseverou que o défice do último ano correspondia a 5% do PIB? Embuste? Qual a dúvida?
Quer a ‘troika’, quer Vítor Gaspar não acertam uma; falhas atrás de falhas, com a particularidade de desmitificarem técnicos arrogantes e de incompetência demonstrada, suscitando maior revolta, pelo elevado preço da austeridade que estamos a pagar.
Pior do que nós, só a Grécia. Afinal somos os mais próximos do caminho helénico. De pedra e cal na cauda da Europa. ‘Troika’ e Gaspar não acertam uma, porra!
A inaudita recuperação de Viegas
De secretário de Estado que abandonou o governo “por razões graves de saúde”, a bloguer que manda funcionários da Autoridade Tributária “tomar no cu”.
Nova Geografia da Europa
Para o jornal i, a Roménia não é na Europa nem os romenos são europeus.
Por exclusão de partes, ou são asiáticos ou africanos. Ou americanos?
A lista de Falciani

(c) Wolfgang Horsch
A história seguinte conta-se a si mesma depois de um enquadramento. Hervé Falciani, informático a trabalhar para a filial suíça do banco HSBC, teve acesso a milhares de nomes de clientes com contas secretas nesse banco. Fez uma cópia desses dados e começou a tentar vender essa lista. Como se ainda não houvesse enredo suficiente, esta novela é ainda apimentada com as reacções dispares daqueles que teriam maior interesse em recuperar os capitais fugidos: os estados.
Capítulo 1 – Robin dos Bosques ou Roubador do Banco? [Read more…]
O flagelo do desemprego e as contas à FMI e à Gaspar
Tive de rasurar o gráfico com os dados do Eurostat, publicado apenas há doze dias (01-Fev-2013), relativos ao desemprego em Portugal. A taxa de 16,5% em Dezembro de 2012 agravou-se para os 16,9%, o que, segundo o ‘Público’, corresponde a mais de 923.000 desempregados. O INE, de forma mais analítica, precisa que a taxa hoje divulgada reflecte um aumento homólogo (Dez-2011) de 19,7% (+ 151.939 desempregados); aumento este que não reflecte as várias dezenas de milhar que, em 2012, resolveram emigrar e evitar a Vítor Gaspar uma dimensão maior dos erros que comete – em Junho de 2012 dizia a sábia figura que, em 2013, a taxa ficaria pelos 16%, tendo posteriormente o ajudante Pedro Martins, entretanto afastado do Ministério da Economia e do (Des)Emprego, que o pressuposto do governo para o OGE deste ano ficaria pelos 16,4%.
A consciência dos sociopatas
Santana Castilho *
1. Annette Schavan, directora espiritual de Crato para o ensino profissional e até há pouco ministra da Educação da Alemanha, demitiu-se após ter sido acusada de plágio pela universidade onde se havia doutorado há 33 anos. Na origem do escândalo esteve a denúncia de um blogue. Schavan reclama inocência e vai pleitear a causa em tribunal. Mas a sua consciência disse-lhe que, neste momento, esse era o caminho. Curiosamente, a tese que escreveu (ou plagiou) estudava o carácter e a consciência. Antes de Schavan, Karl Guttenberg, ministro da Defesa, procedeu do mesmo modo, por motivo idêntico. E, antes dele, fora a vice-presidente do Parlamento Europeu, Silvana Koch-Mehrin: mesmo erro, idêntico padrão de comportamento e de consciência.
2. A Lusa questionou Nuno Crato sobre o relatório do FMI, que alude ao eventual despedimento de 50 a 60 mil funcionários do sistema de ensino, docentes e não docentes. Importa reter e comentar algumas afirmações do ministro, extraídas da resposta:
– “Nós não somos irresponsáveis. Isso não está em causa, de forma alguma.”
– “O Governo irá apresentar um conjunto de medidas … para a redução da despesa, algo que todos os contribuintes querem”.
– “Nós, até este momento, não fizemos nenhum despedimento na Educação … “ [Read more…]
Touche pas mon bijou…
Loureiro dos Santos, general de pousio, assanhou-se todo – em frente do Medina!… – contra a hipótese de as “reformas estruturais” chegarem ao reino sombrio das forças armadas. E digo sombrio porque impensado e, parece, impensável.
Gostava de ter visto o ilustre comentador – oportunidades não lhe têm faltado – ostentar a mesma firmeza quando este governo carniceiro rapina sobre o que há de mais essencial para uma vida digna deste povo. Mas não. Só agora aparece a ranger os dentes e a ameaçar irresponsavelmente com movimentos “de indisciplina nas forças armadas”. É típico e não é uma estreia.
Não, não sou dos que entram em demagogia sobre a utilidade das forças armadas. Mas gostaria que todos – sublinho, todos – os partidos e movimentos políticos se confrontassem séria e profundamente sobre as questões da defesa nacional e, por uma vez, enfrentassem corajosamente os seus problemas, dispensando-nos à retórica vã e politicamente cobardolas que é habitual sempre que nos abeiramos deste tabu. [Read more…]
Orfeu Negro
Orfeu e Eurídice em versão Brasil e Carnaval.
De Marcel Camus (1959). Ficha IMDB.
Nas Caldas da Rainha
Os lindos pavilhões anexos ao Hospital Termal das Caldas da Rainha. Situados no Parque D. Carlos I, encontram-se hoje num inacreditável estado de abandono. Embora jamais tivessem servido as termas, neles estiveram instaladas unidades militares, escolas e liceus. No nosso país existe a mania do erguer mais e mais betão, votando-se o património ao abandono, ao miserável e suspeito desleixo.
Este conjunto arquitectónico entra na segunda década do século XXI com janelas escancaradas, vidros partidos, telhados danificados. A ruína é evidente e teme-se aquilo que todos já imaginam. É isto, o Portugal do progresso.
Draghi, estrela do Carnaval em Madrid
Draghi em sinal aberto: discurso integral em Madrid
Terra de Carnaval é o Brasil. Terra quente para ‘xuxu’. Onde o Dorival, mascarado de marinheiro, canta, samba e toca o pandeiro, olhando o traseiro da cabrocha que, na frente, se abana e rebola ao som da banda que passa.
Portugal tem um Carnaval de chuva e frio. Do encharcado corso, ficaram as jovens engripadas, atacadas de febre e tosse, pela chuvada e enregelamento que lhes congelou o dorso.
Em Espanha, o Carnaval ainda é mais incipiente. Comemora-se mais no Sul – Cádis, Múrcia e Valência – e nas Ilhas Canárias. Todavia, Madrid este ano fez questão de contratar uma vedeta de renome, Mário Draghi, presidente do BCE e ex-Goldman Sachs. De resto, ao serviço desta sinistra instituição financeira, ficou inscrito no ‘curriculum’ de Draghi como se deturparam as contas na Grécia. O feito deixa orgulhoso qualquer financeiro especialista em trapalhadas; não sendo excepção o italiano, nascido em Roma. Se fosse natural de Palermo, ninguém ficaria apalermado.
É carnaval…
O Carnaval deixou de ser feriado. O Turismo ficou a perder. A realidade é outra: hoje, dia de carnaval, as escolas não trabalham, parte das câmaras municipais não trabalham e o país fica parado ou a meio gás. Ou seja, o carnaval deixar de ser feriado é uma treta! Todos ficam prejudicados com esta medida: os que trabalham e os que não trabalham.
Bom senso é o que falta….
A distância entre o bem invididual e o bem comum
A Constituição da República Portuguesa diz, no seu artigo 1: Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
A fonte deste texto é a revisão constitucional de 1989. A redação originária era, após a Primeira Constituição nascida em 1976, a seguir à alegria e a bebedeira da liberdade da Revolução dos Cravos: Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classe. A revisão constitucional de 1989 mudou o artigo, retirando a frase sociedade sem classes. O artigo 1 permanece como cito no começo do texto, após a revisão constitucional de 2005, para Portugal ser igual as outras Repúblicas da então denominada Comunidade europeia, hoje União Europeia. Como Doutor em Direito, especializado em Direito Criminal e em Constitucionalismo, interessa-me saber a história da nossa constituição.
Gerontocracia
Demetrios Stratos andava muito à frente. Séculos à frente de qualquer Papa. [Read more…]
Independentes, a nova caderneta de cromos
As desavenças entre os cromos de topo dos partidos políticos, recorrentemente os do arco de poder, aparecem sempre em vésperas de eleições, que se constituem assim como feira de vaidades para os egos esdrúxulos de muitos políticos que medram nas máquinas partidárias ao sabor de ambições pessoais e, quando o partido os pretere, não têm pejo em se hastearem como independentes, permitindo-se morder a mão de quem os ajudou a alcandorarem-se social e politicamente. Tantas vezes com o único mérito de serem o que são: arrivistas.
A lógica partidária tem ciclos de influência, e todos os militantes deveriam saber que, em determinado momento, as eminências serão outras, há que respeitar a alternância, virtude que todos reclamam para os outros como mandamento democrático, mas de que esquecem quando a “desgraça” lhes bate á porta.
Matosinhos está mais uma vez no topo desta lógica independentista de políticos outrora nas boas graças dos aparelhos partidários. [Read more…]
Bento XVI

Afastei-me gradualmente da Igreja Católica e do próprio cristianismo no início do pontificado de João Paulo II, apesar de ser um confesso admirador do homem, afinal o nome Karol Wojtyla não pode ser dissociado do fim do império vermelho a Leste.
Além de ter perdido a fé, algumas tomadas de posição na Igreja Católica, com o dedo do então Cardeal responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger, figura que nunca me inspirou qualquer simpatia, contribuíram decisivamente para aumentar o fosso que me separa da ICAR. Curiosamente estive em Roma poucos dias após a sua eleição pelo colégio dos cardeais, pude então constatar que não era o único, mesmo entre fervorosos católicos, existia grande admiração pelo recém falecido Papa e grande cepticismo sobre Bento XVI.
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As novas regras de despejo nos bairros do Porto
Há dias soube-se que a Câmara Municipal do Porto havia dado ordem de despejo a duas idosas por não terem respondido a um inquérito realizado pela autarquia, e apesar de terem as rendas em dia. Quando li a notícia sabia muito pouco (agora sei apenas um pouco mais) sobre as regras impostas aos inquilinos dos bairros camarários do Porto e nem imaginava que tinha entrado em vigor recentemente um “Regulamento de Gestão do Parque Habitacional do Município do Porto”, documento para qual teria o maior gosto em remeter-vos através de hiperligação, mas que parece não estar disponível online. O cumprimento deste regulamento cabe à DomusSocial – Empresa de Habitação e Manutenção do Município do Porto, E.E.M., mas lamentavelmente não consegui encontrá-lo no site desta entidade.
Estou agora em condições de assumir que a minha desconfiança acerca da veracidade da notícia não foi, afinal, mais do que uma manifestação de ignorância acerca da política de arrendamento da habitação camarária da cidade onde vivo. A notícia estava correcta e, pior do que isso, a medida era legal, porque o Regulamento que citei anteriormente permite que o morador numa casa camarária seja despejado por não ter respondido a um inquérito no qual se pretende saber, entre outros dados, quais os rendimentos auferidos pelo agregado familiar para efeitos de actualização da renda. Se o inquilino for analfabeto, iliterato, etc, se a sua idade, ausência de habilitações literárias, etc, o impedirem de responder ao inquérito, poderá bem ver-se despejado, como essas duas senhoras, ainda que conserve em seu poder todos os recibos de renda.
Em busca de informação sobre este despejo, descobri que, em Dezembro passado, a um ano das eleições autárquicas, a coligação PSD/CDS aprovou o citado Regulamento, que veio introduzir uma série de justificações legais para o despejo um inquilino de um bairro social, na cidade do Porto. [Read more…]

















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