Taxa de desinfecção covid: como o Grupo Trofa Saúde me cobrou 25€ para desinfectar as suas instalações

Vim ao hospital com a minha patroa, para a acompanhar numa série de exames. O único hospital existente na nossa cidade, a Trofa, é privado, e pertence ao Grupo Trofa Saúde.

Aqui chegados, fomos directos à admissão. Chegada a nossa vez, fomos prontamente informados sobre a taxa de desinfecção covid, de 25€.

Sendo uma taxa no privado, assumi desde logo tratar-se uma taxa do bem, não um desses confiscos soviéticos do governo Kosta, como é conhecido o primeiro-ministro na chaluposfera.

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O Equilíbrio do Terror #4 – SWIFT: a bomba atómica financeira que pode eventualmente incomodar os verdadeiros donos disto tudo

Durante estes dois longos dias, muito se tem falado na possibilidade de utilizar a bomba atómica das sanções: banir a Federação Russa do SWIFT, um sistema integrado de comunicação de transacções transnacionais, que engloba mais de 11 mil instituições financeiras. O resultado prático da utilização deste nuke, long story short, seria a exclusão da Rússia do sistema financeiro internacional, mainstream, obrigando as suas empresas e bancos, bem como os seus fornecedores internacionais, e encontrar alternativas para as suas operações.

Diz quem percebe da poda que seria inútil recorrer a este instrumento de dissuasão, na medida em que Putin poderia optar, por exemplo, por criar uma cryptomoeda, ou aproximar-se ainda mais da China, que funcionaria como seu pivot na economia internacional. Mas eu, que percebo poucos destas podas, apesar de já ter assistido a umas quantas em Sobreposta, terei a ousadia de contrariar os especialistas. Por um lado porque Putin não invadiu a Ucrânia sem ter a lição bem estudada, como de resto nos vem provando, e já terá a crypto-opção em cima da mesa. Se nós temos esta informação, ele também a terá, prévia e devidamente estudada. Por outro lado, porque a aproximação à China está mais que consumada, como revelam os acordos para compra de petróleo e gás russo, firmados esta semana, para não falar na narrativa dominante na imprensa chinesa, toda ela controlada pelo comité central do PCC, assente na ideia de uma luta comum das duas potencias contra a opressão ocidental. [Read more…]

Capitalismo e crime

Credit Suisse, uma das maiores e mais poderosas instituições bancárias do planeta, é o centro do Suisse Secrets, o novo escândalo ético-financeiro que foi hoje revelado. Segundo a investigação do Süddeutsche Zeitung, o banco suíço terá servido de esconderijo para os milhões de criminosos ligados ao tráfico de droga, a violações gravíssimas de direitos humanos, a corrupção e lavagem de dinheiro. Se não servir para outra coisa, que sirva para que nunca nos esqueçamos que os bancos têm poder a mais para que os deixemos sem escrutinio. E enquanto permitirmos que instituições da dimensão do Credit Suisse sejam albergue das fortunas de ditadores e mafiosos, não manchadas, mas a pingar sangue, argumentando que os Estados não podem interferir no sector privado, a nossa capacidade de dar lições de moral aos regimes autoritários está e estará comprometida. E não é só na banca, e muito menos se resume ao Credit Suisse. É na energia, nas telecomunicações, nos fundos de investimento, na têxtil, na automóvel, na aviação e, claro, no futebol. Quem pactua com este estado de coisas escolhe um lado, e não é o lado da democracia.

Ao cuidado daquela malta que acha que o Facebook é uma entidade pública eleita por sufrágio universal

Acho muita piada, muita piada mesmo, à malta que se queixa da falta de democracia do Facebook, quando a plataforma restringe ou censura um conteúdo. Como se o Facebook fosse uma entidade pública eleita por sufrágio universal. A coisa torna-se ainda mais engraçada quando este tipo de críticas parte daquela malta que defende, com unhas e dentes, a liberdade absoluta das empresas privadas de fazer o que lhes dá na real gana. Pois bem, meus amigos, não sei se já deram conta, mas o Facebook é uma empresa privada. De maneira que, se não estão bem com as regras do tio Zuck, a minha sugestão é que fechem a conta e mudem de rede. Não é que não se passem as mesmas coisas nas outras redes, também elas – preparem-se para o choque – propriedade de empresas privadas, que decidem em função dos seus interesses, não da democracia ou do bem comum, mas sempre dá aquele arejo virtual. Agora misturar democracia, liberdade de expressão e decisões racionais feitas por empresas privadas no sentido de maximizar o lucro é só parvo.

O neo-liberalismo explicado por uma idosa

Fotografia de Rui Borges. 2014.

E esta? Surpreendente!

Então, parece que os hipermercados combinam preços.

Quem diria que o capitalismo fosse um conluio entre meia dúzia de ricos…

Peng Shuai, o Partido Comunista Chinês e o Capitalismo entram num bar…

Ao longo dos últimos dias, um pouco por todo o mundo, personalidades de diferentes quadrantes exprimiram a sua revolta. Escreveram-se editoriais, artigos de opinião e milhões de publicações nas várias redes sociais, emocionadas e repletas de indignação. Alguns responsáveis políticos, lideres de organizações internacionais e de instituições de renome juntaram a sua voz ao protesto. E todos, sem excepção, fizeram a mesma pergunta:

  • Onde está Peng Shuai?

Ao que tudo indica, Peng Shuai está onde sempre esteve: na China. E aquilo que lhe aconteceu, após denunciar o “alegado” abuso sexual de que foi vítima, por parte do antigo vice-primeiro-ministro Zhang Gaoli, sendo imediatamente censurada e desaparecendo da vida pública chinesa, é aquilo que se espera de um regime totalitário como o chinês, que monitoriza a sua população como o partido do Grande Irmão monitorizava a Oceania imaginada por Orwell. Chegarmos a esta fase e isto ainda surpreender alguém só torna toda esta situação mais preocupante. Andarão alheados da realidade? Estavam à espera de quê? De um movimento #metoo nas ruas de Pequim?

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UE aperta a trela do capitalismo hardcore

O Parlamento Europeu aprovou ontem uma importante medida, que se espera promotora de transparência, e que tratará para a luz do dia informação objectiva sobre os lucros que as multinacionais – comunitárias e extra-comunitárias a actuar no interior da União – obtêm em cada Estado-membro, bem como os impostos que aí pagam.

O universo de empresas abrangido engloba todas as multinacionais que gerem facturação superior a 750 milhões de euros, e o âmbito da lei irá para lá do espaço europeu, incidindo também sobre negócios realizados por essas empresas nas jurisdições offshore listadas nas listas negra e cinzenta ds UE, algo que sendo ainda limitado, é um salto significativo em relação àquilo que existe actualmente.

Vai ser interessante, perceber quanto “mamam” os grandes players que usam as nossas estradas, os nossos portos e aeroportos, as nossa redes de comunicação, as nossas universidades, os nossos benefícios fiscais, fundos europeus e apoios dos vários Estados, para, não raras vezes, pagar e tratar miseravelmente os seus funcionários. Nada como ver a big picture para perceber o quão fundamental é manter a trela curta dos pitbulls do capitalismo hardcore.

De vitória em vitória: até à vitória final

Haver, em África, mais pessoas com smartphones do que com água potável em casa, será, certamente, uma vitória do capitalismo.

Por isso, parabéns.

A culpa é… do Socialismo?

Notícia da TVI

Enquanto dois mil bilionários tiverem mais riqueza do que 60% da população mundial, continuará a haver desigualdade.

Ninguém é ou se torna milionário ou bilionário a trabalhar honestamente. As maneiras de o conseguir passam por heranças e/ou exploração selvagem de trabalhadores (horários de trabalho não balizados, salários perto de 0, mão-de-obra infantil, etc), o que constitui um dos mais pesados e prolíficos motores do capitalismo.

O próximo passo? Taxar realmente as grandes fortunas. Ilegalizar offshores. Mudar as leis do trabalho.

Enquanto não se tiver mão nisto, continuando com a lenga-lenga da “liberalização da economia”, continuaremos a ver as desigualdades acentuarem-se. Ninguém trabalha o suficiente para ser milionário; e atrevo-me a dizer que quem é milionário… não trabalha; arranja quem trabalhe para ele. E “ele” – o milionário – explora as necessidades de quem para ele trabalha ao máximo. Só assim se justifica esta acumulação pornográfica de dinheiro, que insulta a inteligência de quem trabalha.

Não existe bom e mau capitalismo.
Existe capitalismo.
E é assim que este funciona. 

E como os reaccionários neo-liberais e neo-fascistas tanto gostam de nos neo-enganar: a culpa, essa, deverá ser, apenas e só… do socialismo. Está na cara!

BES, Odebrecht e Venezuela: uma história de poliamor

Vocês não adoram quando o capitalismo selvagem e o autoritarismo assassino dão as mãos e saltitam juntos, pelo prado fora, por entre flores e borboletas? Não sei quanto a vós, mas eu fico sempre de coração cheio, quase a transbordar. O Salgado a servir de muleta para a Odebrecht subornar um ministro do Maduro é um romance à moda antiga, apesar do potencial para se transformar num threesome. E não façam de conta que não sabem o que é um threesome, ok?

O tesão da inércia: uma caixa de Pandora

Não é a primeira vez. Não há-de ser a última.

Vieram a público, à boleia do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), notícias do envolvimento de diversas figuras de Estado – de primeiros-ministros e ex-primeiros-ministros a ministros e ex-ministros, de ministros a secretários, de secretários a empresários, de empresários a monarcas, de monarcas a presidentes da República – e outros famosos, em crimes de evasão fiscal e branqueamento de capitais.

Tal como aconteceu antes, em escândalos como os Panamá Papers, por exemplo, volta a comprovar-se que os mais ricos e poderosos, quando podem (e porque podem) assentam a sua riqueza e o seu poder sob uma camada de criminalidade económica. Não é novidade, não há-de ser novidade no futuro.

Grassa na política mundial (e Portugal não está imune) a teoria de que será na baixa de impostos que estará o crescimento de certos países. Mas vejamos… porque pagamos tantos impostos? Parece-me óbvio, desde sempre, que a arraia-miúda paga os impostos que os mais abonados nunca pagarão. E como esses, os ricos e poderosos, têm a faca e o queijo na mão (que é como quem diz, todo o dinheiro do mundo), não convém que a carga de impostos seja elevada para estes. Ouço, todos os dias, liberais a exigirem a baixa de impostos… mas nunca os vi a defender o aumento de impostos sobre os multi-milionários. Mas, não sendo elevada a carga de impostos que os milionários e bilionários pagam, os mesmos ainda teimam em não pagar a parte que lhes está atribuída. Funciona assim, o sistema capitalista: “acumula tudo o que conseguires, mesmo que com isso estejas a cometer um ou outro crime económico”; e sejamos sensatos: o sistema neo-liberal vigente permite e incentiva tais comportamentos. [Read more…]

Pandora Papers: o regresso do capitalismo trafulha

Pepe Guardiola, Shakira, Rafaelle Amato (histórico padrinho da Camorra), Tony Blair, Andrej Babis (PM checo) e Abdullah II, rei da Jordânia. O que une todas estas figuras, milionárias e multimilionárias, do futebol à política, republicanos e monárquicos, músicos e barões da máfia? Neste caso é a ganância e a determinação de querer e conseguir fugir aos impostos, usando para tal esquemas rebuscados desenhados por vigaristas financeiros, com recurso a paraísos fiscais e lavagem de dinheiro.

Depois do Panamá, Bermudas, Malta e Luanda, o mais recente sucesso de bilheteira do ICIJ chega-nos de várias localizações em simultâneo, como as incorruptíveis Ilhas Virgens Britânicas e as igualmente impolutas Bahamas. Sim, as elites mundiais não se contentam com os luxos que os seus talentos, heranças ou assaltos lhes permitem usufruir. Não chega. É preciso fugir aos impostos, lavar dinheiro e aldrabar a populaça. E Portugal, como sempre, tem uma representação de peso: Manuel Pinho, icónico ex-ministro socrático, Morais Sarmento, ex-ministro de Durão e actual vice de Rui Rio, e Vitalino Canas, ex-secretário de Estado de Guterres, são os primeiros nomes a surgir em mais um escândalo internacional de trafulhice financeira.

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Gostas de Socialismo? Vai para Venezuela!

Está demais, a Venezuela!

Maçãs e bolachas na Venezuela da Europa

Podíamos fazer como a Noruega, e como outros países igualmente atrasados e medievais, e banir toda a publicidade a alimentos com excesso de açúcar, sal e outros venenos, que tem como alvo crianças e adolescentes abaixo dos 16 anos? Podíamos ir ainda mais longe e aplicar a receita encontrada para o tabaco? Podíamos, mas logo apareceriam ruidosas hordas de snowflakes, indignadíssimas porque estaríamos a condicionar a liberdade dos seus filhos de desenvolverem doenças cardíacas ou serem obesos, o que seria uma chatice. E como essa costuma ser a mesma malta que não descansa enquanto não vir o SNS privatizado, convém colocar-lhe mais pressão em cima, não o contrário. Viver na Venezuela da Europa é uma canseira.

Parabéns, Zeca

Fotografia: DR.

92 anos de um Mestre.
Parabéns, pá! Fazes-nos cá muita falta.

«Daqui fala o monopólio
Daqui fala o capital
Diga cá senhor ministro
Quanto custa Portugal?»

Neo-liberal-capital: as Marteladas bilionárias

Desde 1980 (antes também, mas marquemos o barómetro aqui, porque Thatcher+Reagan=amor infinito) que se tem assistido a um cavalgar do capitalismo selvagem, imposto pelas políticas neo-liberais, o que levou à abertura do fosso, já de si grande, entre os muito ricos e os pobres e muito pobres. Para além disso, a narrativa dominante demonstra uma aporofobia asquerosa, de rejeição e hostilização do Ser que é pobre, negando-lhe acesso aos mais elementares direitos básicos de sobrevivência, assim como o hábito de inculpar o pobre por ser pobre, ao invés de se inculpar o sistema capitalista vigente há mais de quatro décadas.

Thatcher e Reagan, os dois maiores expoentes de um neo-liberalismo colonial entre as potências ocidentais; Fotografia retirada do site Aventuras na História

  • Uma pessoa, associação ou partido político defende que toda a gente deveria ter direito e acesso a uma habitação condigna, água e luz a preços acessíveis: radical!

 

Fotografia: DW.

  • Um senhor calvo, com semelhanças arrepiantes com o Dr. Evil, explora milhares de trabalhadores e gasta bilhões de euros numa viagem ao espaço, apenas para proveito próprio e vê a sua acção apoiada por certas pessoas, associações e partidos políticos: empreendedor!

Imagem de Humans of Late Capitalism.

Assim vai o mundo…

O capitalismo tem uma relação amorosa com a discriminação

Fotografia: EPSILON

Depois de se recusar a usar biquíni durante os jogos, a Selecção feminina de andebol de praia apareceu em campo de calções, tal qual os atletas da Selecção masculina, do mesmo desporto.

Por tal, enfrentam, agora, uma multa, pois, diz a Federação Europeia de Andebol que é mais “atractivo ao espectador” e, também, “gerador de mais patrocínios” que as atletas se dispam – o contra-senso é tão grande que espanta-me que a FEA não se aperceba disso.

Não espanta, ainda assim, que o machismo estrutural (que – e lá chegaremos – anda de mãos dadas com o capitalismo selvagem imposto pelo neo-liberalismo que hoje vigora nas sociedades ocidentais) se revele, mais uma vez, de unhas para fora e dentes afiados, escorrendo baba, qual predador pronto a atacar a sua presa com uma dentada no pescoço. Mas a questão é que atletas de alta competição, sejam de que género forem, são isso mesmo: atletas. E o único factor de atractividade deve ser, como é lógico, a qualidade do desporto que praticam e não a roupa que usam ou os atributos físicos de que dispõem. [Read more…]

Portugal: terra de capitalistas sem capital

«A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.»

Mia Couto

Fotografia de João Carlos Santos

Meritocracia? Capitalismo? Os dois?

Novo Banco tem prejuízo mas atribui prémio de 1,9 milhões aos gestores

Comissão de inquérito à amnésia colectiva dos socializadores do calote

Quem não teve a oportunidade – ou a paciência – de assistir à comissão de inquérito ou de ver os resumos da comunicação social, teve no Domingo a oportunidade de se deslumbrar com a versão light do Ricardo Araújo Pereira, que de resto conseguiu resumir bem o forrobodó dos grandes devedores do Novo Banco: receberam centenas de milhões de euros, derreteram a pasta toda sem saber como e não se lembram de nada. Motivo pelo qual nada acontecerá. A não ser a habitual socialização do calote.

Vigaristas como Bernardo Moniz da Maia, outrora elogiados empreendedores com direito a destaques na Exame e restante imprensa económica, são imediatamente transformados em socialistas, ou vítimas do socialismo, ou produto do socialismo, na total amplitude da palavra que pode albergar tudo o que mexe desde o MRPP ao PSD, por vezes até ao CDS, dependendo do grau de fanatismo e indigência mental de quem põe a coisa a girar. A imprensa vassala e o spin dos mestres de propaganda da direita radical e da extrema-direita fazem o resto. Mas não vale a pena estar aqui com merdas: todo este emaranhado de empréstimos sem garantias, paraísos fiscais, fundações de fachada e criminalidade económica são um subproduto da sociedade capitalista em que vivemos. E quanto menos o regularmos, mais disto teremos. E não, o problema não é o capitalismo em si. O problema é a incapacidade que temos de o domesticar e de o por a trabalhar para todos, não apenas para esta elite parasita que sofre de amnésia colectiva quando lhe convém. Sorte a deles, não se chamam José Sócrates, motivo pelo qual já ninguém se lembrará deles daqui por uma semana

A Euroliga e a infalibilidade liberal

Os liberais defendem a livre concorrência como garantia da melhoria da qualidade seja do que for, de empresas a escolas, passando por hospitais e mercearias, porque o mundo é sempre simples se olharmos para ele com as lentes do dogma.

No mundo das empresas, e de acordo com o pessoal liberal, o sucesso é sempre resultado do mérito. Se alguém ganha mais, é porque fez por isso e, portanto, merece. Se uma empresa tem lucro, é porque os gestores foram competentes. Críticas à distribuição de dividendos por uma minoria ou reclamações por melhores salários são sempre desvalorizados pela onda liberal, em nome da meritocracia – quem não está melhor é porque não dá para mais e, desde que os mercados funcionem, quem estiver em lugares cimeiros estará sempre por merecimento.

Qual não é o meu espanto, quando vejo tanto liberal adepto do futebol a criticar a ideia da Euroliga (que nem sequer é nova), usando, de maneira inábil, o argumento de que tudo isto é contrário à meritocracia, essa alegada essência do capitalismo! Ora, há muitos anos que os clubes que defendem este projecto se transformaram em empresas cujas receitas são, em grande parte, geridas pela UEFA ou pela FIFA, centrais de negócios disfarçadas de confederações. Estes clubes, para usar a vulgata liberal, estão na posição em que estão graças ao mérito, foi esse mérito que lhes deu poder e projecção, tornando as suas marcas globais. [Read more…]

Super-Euros

Imagem retirada de Marca.com

Para quem tanto gosta do mercado livre, da mão invisível, do capitalismo como um todo, da ganância e do crescimento económico, esta ideia de “Super-liga Europeia” deve deixá-lo nos píncaros da felicidade.

Não me venham com “o futebol é do povo”; não, não é. Há muito deixou de o ser. Quando o que interessa no desporto são os financiadores, os patrocinadores, os empresários e os políticos, fica tudo dito sobre a “classe” a que hoje pertence o futebol.

Habituem-se, se já não estavam habituados: o futebol é de quem mais dólares tem na conta bancária, dos milionários das Gazproms e dos oligarcas espalhados por esse mundo fora. O futebol não é um desporto, há muito deixou de o ser; é uma plataforma de troca e venda de pessoas a custos irreais e um negócio rentável para quem mais tem. Enquanto isso, a pobreza grassa, a pandemia acentua a tendência e os mais ricos… bem, os mais ricos mais ricos ficam.

Dito isto, aproveitem bem os benefícios deste bom capitalismo.

“Neste país é só artistas!”

 

@Imagem: Bryant Arnold

 

Oh, quantas vezes ouvimos o “artista” para nomear alguém pouco sério ou habilidoso para fugir aqui ou ali às responsabilidades. Concepções que criam uma ideia, no imaginário comum, do que é o artista verdadeiro, aquele que decide, muitas vezes contra o mundo, dedicar a vida à arte.

É ver miúdos com sonhos de música, de dança, de literatura, de teatro, enfim, de tanta arte ser-lhes dito que podem fazer isso, sim, mas como “hobbie”. Podem fazer isso, sim, mas depois de assegurarem a sua carreira dentro da “shortlist” de carreiras tidas por dignas e, claro, economicamente viáveis.

Porque, afinal, o problema será sempre o dinheiro que teima em ser resolvido. É ele que molda as nossas ideias e concepções. É ele que faz com que a arte não seja considerada trabalho mas ocupação de tempos livres. Se alguém se dirige à sua fábrica, à sua loja, ao seu escritório, vai trabalhar, por muito que passe 8h por dia com a cabeça na lua. Temos a percepção de que está a trabalhar e, afinal, a percepção é que interessa, não é?; pelo contrário, se alguém está sentado a escrever, a pintar um quadro, a esculpir uma peça, está a passar o tempo. Ou porque o ganho financeiro não é imediato (nem sequer garantido!), ou porque simplesmente “ninguém vive da arte”. [Read more…]

Skid row: danos colaterais do capitalismo desregulado, selvagem e desumano

SR1

Na west coast da maior potencia económica e militar da história da humanidade, no coração da quarta cidade mais rica do planeta, residência de estrelas de cinema, rockstars e tech moguls, famosa pelos seus excessos e extravagancias, com muito sexo, drogas, rock´n´roll e dinheiro à mistura, situa-se o bairro de Skid Row, a dois passos do Staples Center ou do Walt Disney Concert Hall.

Em Skid Row, cuja população ascende aos 17 mil habitantes, cerca de 2 mil angelenos vivem nas ruas, alguns debaixo de um banco de jardim, nos casos em que a pobreza é absoluta, a maior parte em tendas, instaladas nos passeios da cidade, que podem facilmente ser vistas no Google Maps, na 6th Street e em algumas das suas perpendiculares, como a San Julian ou a Crocker St. Sem surpresas, é tida como a área do país com maior concentração de consumidores de crack e de crystal meth. Uma desgraça nunca vem só. [Read more…]

A transferência de Cristina Ferreira e o capitalismo subsídio-dependente

CFe

Foto: Expresso

A Plural Entertainment, empresa de produção audiovisual detida pela Media Capital, dona da TVI e da Rádio Comercial, entrou em lay-off em Abril, situação que se prolongou por dois meses. Escusado será dizer que, durante esse período de tempo, foram os contribuintes portugueses quem garantiu os salários dos trabalhadores da Plural – que perderam, em média, 30% dos seus rendimentos – a que acrescem 3,3 milhões de euros do pacote de 15 milhões que o governo destinou para apoiar a comunicação social com compra antecipada de publicidade. [Read more…]

Isto é sobre a TAP, mas podia ser sobre outra coisa qualquer

Uma vez na Grécia, um estudante a quem eu disse – depois de saber que não se pagam propinas naquele país – que era privilegiado, respondeu-me o óbvio (que na verdade eu sabia, porque óbvio desde sempre para mim, mas usei mal a palavra) – «não é um privilégio, é um direito».

Mais nada! É só isto. Aplicado a tanta coisa, não apenas à educação. Ao trabalho e aos direitos dos trabalhadores. Aos serviços e aos direitos dos consumidores. À saúde e aos direitos de todos nós a ela. E por aí fora. [Read more…]

Embargar a China? Why not?

CH

Não querendo entrar em teorias rebuscadas sobre a origem do novo coronavirus, de natureza conspirativa, parece-me inegável que a China foi desonesta com o resto do mundo, ao ocultar, deliberadamente e durante várias semanas, a gravidade do problema que tinha em mãos.

Vai daí, é meu entendimento que o mundo deve exigir à China compensações financeiras pelo caos que a sua opacidade aprofundou. Vou ainda mais longe: parte significativa do Plano Marshall que a Europa e o mundo vão precisar, quando a crise económica que já se sente ocupar o primeiro plano das nossas preocupações, deve ser assumido por Pequim.

Caso a China decida não colaborar, defendo que deve haver coragem, pelo menos do mundo democrático, em impor sanções pesadas, e, eventualmente, um embargo total. De caminho, e pensando apenas no espaço europeu do qual faço parte, parece-me que estamos perante o momento ideal para um plano ambicioso de reindustrialização da Europa, capaz de, simultaneamente, gerar emprego e acabar com a dependência das importações chinesas. Isto será absolutamente crítico em sectores como o têxtil ou o automóvel, apenas para citar dois exemplos.

Naturalmente, tal intenção enfrentará poderosas forças de bloqueio, não só da própria China, como do sector financeiro e da grandes multinacionais ocidentais, cujos lucros, estratosfericos, dependem dos baixos custos de produção e de matérias-primas que a grande fábrica do totalitarismo chinês lhes proporciona. Mantendo o actual status quo comercial, é praticamente impossível ao Ocidente competir com um regime que explora a mão-de-obra, ignora direitos laborais e não respeita direitos humanos.

Ainda no campo dos interesses do modelo económico ocidental, importa realçar que a China é hoje um dos maiores mercados de consumo a nível mundial e um dos maiores clientes de produtos de luxo produzidos pela Europa e pelos EUA. Um embargo total à China resultaria numa perda significativa de vendas para inúmeras marcas, do sector da moda ao automóvel entre muitos outros. E o capitalismo, que não se deixa abalar por contradições éticas ou morais, dificilmente cederá. É o lucro que importa, não os direitos humanos. Muito menos a democracia.

Assim, encontramo-nos numa encruzilhada. Por um lado, estamos reféns de um regime comunista totalitário, que controla e comanda parte significativa da economia mundial, incluindo empresas estratégicas na Europa e EUA. Por outro, estamos nas mãos de multinacionais e instituições financeiras, que se deitam com qualquer oligarca ou autocrata que lhes pague o preço certo em euros. Ou dólares. Ou yuans. Talvez precisemos de uma revolução. E os ares de Abril costumam ser propícios para derrubar ditaduras. Why not?

O editorial esquerdalho do Financial Times

KM

O editorial que se segue foi publicado no Financial Times, sendo a tradução da autoria de João Rodrigues, perigoso ladrão de bicicletas. Tentem não entrar em pânico, não baixem a guarda, mas preparem-se: os esquerdalhos andam aí e querem comer os vossos filhos ao pequeno-almoço.

A existir um raio de esperança no Covid-19, este é a injecção de um propósito comum em sociedades polarizadas. Mas o vírus e o confinamento económico necessário para o combater, também lançaram uma luz horripilante nas desigualdades existentes, para lá de terem criado novas desigualdades. Para lá de derrotar a doença, o grande teste que todos os países enfrentarão em breve consiste em saber se os actuais sentimentos de propósito comum moldarão a sociedade a seguir à crise. Como os líderes ocidentais aprenderam na Grande Depressão e depois da Segunda Guerra Mundial, a exigência de um sacrifício colectivo implica oferecer um novo contrato social que a todos beneficie.

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O capitalismo em tempos de corona

DTJB

Foto: EPA (via Rádio Renascença)

Os Estados Unidos conseguiram a proeza de eleger Donald Trump presidente. Desde então, as proezas sucedem-se. De Trump já vimos quase tudo aquilo que não esperamos de alguém que dirige uma democracia ocidental. O racismo, a normalização do racismo e o elogio dos racistas. A xenofobia, a demonização do emigrante e o muro. A ignorância, a negação da ciência e as notícias falsas. A boçalidade, a falta de escrúpulos e ausência de uma espinha dorsal. A chantagem, a trafulhice empresarial e a corrupção. Nenhum dos seus antecessores ousou ir tão longe. [Read more…]