Intercidades Lisboa-Évora

Évora tem um novo comboio.

Silva Carvalho queria ordem para escutar

O caso do espião que se passou para a Ongoing, foi espiado a espiar por fora e agora meteu o seu advogado, Nuno Morais Sarmento, a ponderar uma queixa por violação de correspondência, abre a temporada do fascinante mundo do PSD, que já não se via desde o tempo do desaparecido Lopes.

Já o ano passado dizia o artista que Passos agora quer meter a chefe das secretas, antecipando a suspensão da democracia em tempos ironizada pela chanceler Manuela Ferreira Leite:

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Portugal não é uma democracia mais aprofundada do que é o Reino Unido. Não quero achar que os ingleses são menos democráticos que nos, ou os espanhóis, ou os alemães. Em Inglaterra os serviços de informações até podem fazer escutas administrativas, autorizadas por entidades não judiciárias.

Entrevista ao DN, via Ricardo Alves.

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Haverá melhor ocasião para aprender com os ingleses umas coisas sobre escutas?

Economia e religião nas culturas letradas: o pecado como conceito da reprodução social

1. O Problema

          Todos os povos idealizam as formas segundo as quais os bens serão produzidos, distribuídos e consumidos. Se esta actividade está ou não dividida em estruturas e instâncias, e qual delas assume precedência por sobre as restantes, é um problema do investigador, cuja técnica de conhecimento contém os limites do seu saber. Pode-se dizer que, para as pessoas que trabalham, o conhecimento daquilo

MOSTEIRO ALCOBAÇA

que fazem, como, quando, quanto e com quem passa por avaliações e decisões que dependem também do seu próprio entendimento do mundo. Assim sendo, penso que existe apenas uma forma de abordar este processo, definindo os conceitos que usamos para escutá-lo: se é certo que todos os povos produzem, não é menos certo que todos sabem como o fazer. É neste conjunto que temos de introduzir a dimensão temporal para entender como se combinam as ideias e as actividades. Ao longo do tempo, o conceito de economia tem variado desde o conjunto doméstico que trabalha, dividindo as actividades segundo as formas de classificar pessoas dos gregos clássicos, até à teoria independente que se pronuncia sobre as qualidades das coisas, teorizando e estudando a sua acumulação, cujo controlo passa a classificar as pessoas. [Read more…]

Proposta para cortar radicalmente na despesa pública

Abdicarmos de todos os cargos de eleição ou escolha políticas e respectivos assessores, passando a ter apenas uma só eleição de 4 em 4 anos para eleger a agência de rating mais favorável para nos governar e deixar o resto com a banca.

Critérios de incorrecção

Este ano o GAVE (entidade responsável pelos exames nacionais) trocou as reuniões onde os professores correctores recebiam verbalmente indicações extra e aferiam critérios de correcção por documentos confidenciais com onde essas mesmas instruções foram transmitidas.

Não fora a capacidade do Paulo Guinote em furar estes esquemas e teriam ficado mesmo confidenciais, para espanto de muitos, incluindo o bom senso e as regras mínimas de transparência administrativa.

Ao contrário de muitos sou acérrimo defensor de que estas instruções devem ser transmitidas por escrito, sem com isso evitar as reuniões de aferição, que são chatas mas úteis.

É que em 2007 fui corrector da prova de História A, e na altura muita falta me fez um documento dessa natureza onde se afirmasse preto no branco que designar o Estado Novo como um regime totalitário ou fascista era considerado um erro científico grave, e como tal fortemente penalizado. Bem tentei denunciar, mas não tinha provas. Talvez ficássemos a saber quem foi a besta científica grave que inventou tal critério, no ano em que a média desse exame ficou abaixo de 10 valores, só tendo havido piores resultados a Física e a Geometria Descritiva.

Um não-pedido de desculpas a Vítor Louçã Gaspar

Acreditei em Miguel Frasquilho e no «Povo Livre» e fiz mal. Afinal, Pedro Passos Coelho não utilizou a expressão «desvio colossal» e Vítor Louçã Gaspar não mentiu quando veio com aquela estória das palavrinhas entre desvio e colossal. Se fosse menos teatral nos seus discursos, talvez eu tivesse acreditado nele.
Errei e peço desculpa aos leitores. A Vítor Louçã Gaspar é que, obviamente, não posso pedir desculpa. As suas mentiras têm sido mais que muitas em tão pouco tempo e, para confirmar o epíteto de mentiroso, bastaria olhar para o último debate no Parlamento.
Como é possível não chamar mentiroso a quem diz que, em relação ao imposto extraordinário, os que podem mais vão pagar mais? Como é possível não chamar mentiroso a quem diz que estamos na presença de um imposto que revela grande equidade social? Como é possível não chamar mentiroso a quem diz que os juros e dividendos não podiam ser taxados por motivos técnicos? Como é possível não chamar mentiroso a quem fala de um imposto universal e esquece todas as grandes fortunas e os grupos económicos do costume.
Não, Vitor Louçã Gaspar não é sério e, como é óbvio, não posso pedir-lhe desculpa por lhe ter chamado mentiroso. Porque é o que ele é.

O manifesto de Anders Behring Breivik, o carniceiro de Oslo

Além de ter criado uma conta no Facebook (cópia disponível) expressamente para a função cartão de visita, Anders Behring Breivik deixou um manifesto em vídeo. Está lá tudo: nacionalismo, anti-marxismo e anti-islamismo.

Não me passando pela cabeça que todos os anti-marxistas, nacionalistas e neo-cruzados desatem para aí aos tiros, o facto é que esta ideologia está entre nós. Não é preciso ir aos foruns e blogues de alguma direita e da extrema-direita para os encontrar, basta ouvi-los nos transportes públicos. O facto de as forças de segurança norueguesas terem subestimado o perigo de atentados vindos desta gente que não usa turbante e combate a “aliança multiculturalista”, é muito significativo. Nada impede um destes tipos que andam de Salazar na boca de seguir o exemplo do norueguês (e sabe-se como este tipo de atentados produz efeitos de contágio).

Quero eu com isto dizer que se deve travar a liberdade de expressão da direita? não, esse seria o pior caminho. Mas é tempo de as polícias europeias lhes dedicarem a atenção que concentram apenas noutros fundamentalistas.  O 22 de julho pode não ficar por aqui, e o branqueamento pela comunicação social da emergência política desta gente (não esquecer que em muitos países da CE estão no poder, ou bem próximos dele), não ajuda nada. Não se trata apenas de um louco, que tudo aponta para não ter agido sozinho, trata-se da emergência de uma ideologia contra a qual a Europa deveria estar vacinada em época de crise. Tal como em 1900 e trintas, não está. Não a tomem a tempo, e ainda vemos a História a repetir-se, novamente como tragédia, é claro.

A reprodução no celibato

celibato        Quando falo de reprodução social, refiro-me à quantidade de recursos, bens e pessoas, que cada grupo social deve reservar para garantir a sua continuidade, bem como o conhecimento com o qual se organiza a relação entre pessoas e coisas e a sua gestão. A reprodução dos homens é um processo ligado aos bens, um sistema complexo, no qual a forma em que os bens são possuídos é parte da conjuntura histórica que define a estrutura em que os homens são feitos. Este facto acaba por explicar, na minha opinião, a coexistência de duas formas reprodutivas dos seres humanos: o casamento e o celibato. Do primeiro provém a filiação vinculada aos bens; do segundo, provêm os filhos sem pai social, tratando-se de uma filiação não vinculativa aos bens e mantida num sistema de parentesco extenso, no qual o apadrinhamento é o laço que define o lugar social de cada um.

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A minha pequena homenagem a Amy Winehouse

Da primeira vez que ouvi Amy Winehouse senti um arrepio na espinha. Quando me confrontei com a sua imagem senti dois. Eu imaginava uma cantora negra, grande, gorda e saíu-me aquela trinca-espinhas branca e inglesa, de pose desconchavada, joelhuda, com make-up de bordel de terceira.

Gostava sinceramente dela, sem dizer apesar de, sentia uma certa comoção com aquela rapariga, com as suas escolhas, com os seus demónios, com o seu enorme talento. Não acredito que pudesse haver Amy Winehouse sem aquela Amy Winehouse, não acredito que aquela mulherzinha cantasse tanto, tão sofrida, poderosa e languidamente sem ser aquela mesma pessoa, aqueles dez-reis de fragilidade cheios de atracção pelo abismo. E também não acredito que a autora Amy Winehouse pudesse compor aquelas canções não sendo o ser perdido que era.

Haverá quem a recorde pelo acessório. Eu recordá-la-ei por “Frank”, por “Back to Black” e por algumas arrepiantes interpretações ao vivo. Foi uma Grande Artista e viveu como pôde. Agora repousa em paz – ou canta com outras almas gémeas, cheias de talento e de inquietude, como ela.

Amy Winehouse: durou pouco mas foi bom

Amy Winehouse, 1983 – 2011, RIP

Terrorismo ataca nos jornais

Esta manhã ainda não tinha visto a manchete do I. É uma obra-prima do terrorismo jornalístico nacional:

Como quem semeia colhe frutos, é passar os olhos pelas caixas de comentários, por exemplo do Público. Debaixo de um título ao nível desta manchete, versão aspas:

Suspeito detido é um “fundamentalista cristão”

(encontrem-me no mesmo jornal fundamentalismo islâmico escrito com as mesmas aspas, sff) nascem teorias fantásticas, ao pé das quais a ressurreição de Lázaro é uma brincadeira de putos. Vejam esta:

pode um muçulmano invocar, de um modo legítimo e ortodoxo, a sua fé para cometer actos de terrorismo? Sim, pode!: os seus textos religiosos estão cheios de apelos ao “dar a morte” a quem não segue a sua fé… Pode um cristão invocar, de um modo legítimo e ortodoxo, a sua fé para cometer actos de terrorismo? Não, não pode!: nada nos textos cristãos o permite… Mais: este acto foi justificado por este bárbaro como tendo a base na sua crença? não! são os actos cometidos por terroristas islâmicos justificados pela sua fé? Sim. Donde a questão é: porque é que, por exemplo no Público, se omite aquela e se refere esta?

Pode sempre invocar-se a ignorância, sendo a religião coisa da fé contra a razão não podem saber que o cristianismo é historicamente muito mais terrorista que o islamismo. Aliás é escusado explicar-lhes: não acreditam. Guerras santas, inquisição, ou coisas bem mais próximas de nós como a invocação do catolicismo para defender o império colonial, é escusado explicá-lo a fundamentalistas: a fé cega, ensurdece e provoca a emissão sistemática de disparates. Esperemos que fiquem por aqui. Quando em Portugal também pegarem em explosivos e espingardas a coisa ficará muito mais complicada.

A verdade é uma coisa que não lhes assiste

O novo director do I, António Ribeiro Ferreira, esse grande admirador da arguida Maria de Lurdes Rodrigues, já meteu uma das suas marcas pessoais no jornal: o ódio ao funcionário público.

Serventes seleccionadas para o efeito, Katia Catulo e Liliana Valente têm feito um bom esforço. Primeiro aldrabaram os vencimentos, pegando numa amostra não aleatória e comparando com o salário médio nacional do privado,* sem terem em conta funções e habilitações, por exemplo. Se fossem honestas, googlavam o assunto, e descobriam como Eugénio Rosa já demonstrou o óbvio:

Não podemos separar os salários das qualificações. E o nível de escolaridade da administração pública é muito superior. O salário médio tem de ser superior porque a percentagem de trabalhadores com o ensino superior é cinco vezes superior ao do privado.

isto referindo-se a um “estudo” do Banco de Portugal em tempos de socretismo plantado por Constâncio nos jornais, mas onde até se reconhecia “que se a análise fosse feita por categorias se verificaria uma penalização salarial dos trabalhadores da administração pública.”

Hoje foram ao absentismo, usando a mesma “amostra”. Imaginação não falta na cabecinha das duas serviçais: os trabalhadores da função pública faltam 18 dias por ano, o que começa por incluir as licenças de maternidade e paternidade, suponho que no privado já ninguém faz filhos, e como o delírio não tem limites contabiliza-se alguém que teve 365 faltas injustificadas num ano, espero que tenha sido num bissexto.  Contabilizam igualmente baixas por doença prolongada, de quem aguarda uma reforma por doença (é normal morrer-se antes, mas espero que a ausência ao serviço em virtude de se ter falecido não tenha sido usada para chegar aos tais 18 dias). Pormenor curioso: desta vez omite-se a comparação com o sector privado. Porque será?

No fundo, tendo em conta o panorama do I, com ameaças de despedimentos e reduções salariais, temos de ter alguma compreensão pela esforço das senhoras. Só espero que não sejam obrigadas a passar às escutas para não perderem o emprego.

*Curioso: as serviçais usam um número, 884, que é superior ao do INE para público e privado, 813 euros. Ou seja: a média dos salários no privado seria assim superior à média de todos os salários. Deve haver aqui qualquer coisa que me escapa.

Anders Behring Breivik não é um terrorista, é um cristão

Anders Behring Breivik não é muçulmano, não é de esquerda, mas assassinou 91 compatriotas. Temos agora um complexo problema de linguagem atormentando as redacções.

No Público uma alma benzeu-se e conseguiu utilizar a palavra:

Este é o mais grave atentado terrorista na Europa desde que 52 pessoas perderam a vida em Londres em 2005, num ataque levado a cabo por terroristas islâmicos.

Bom esforço: escreve-se terrorista, mas enfia-se islâmico no mesmo parágrafo. No Expresso procuro, e não encontro: atentado, vá lá. Nas primeiras horas ainda se vendeu o peixe do “grupo islâmico”. Ninguém comprou.

Anders Behring Breivik é um filhodaputa de um cristão fundamentalista, com a mania das armas e politicamente de direita. Mas os terroristas só podem existir no outro lado da guerra santa.

Para quem vê o mundo a preto e branco é assim. O perigo vem sempre de Meca, agora que já não vem de Moscovo. São sempre os outros. 91 humanos foram vítimas de “um atentado”.  Nos próximo dias vão convencer-nos  que foi cometido por um “tresloucado”, o que não deixa de ser verdade mas também se aplica aos outros.

Aquilo que está entre o preto o o branco não existe, existe a comunicação social que o apaga, apagando-nos a massa cinzenta.

Cresci a ouvir todos os dias a palavra terrorista associada sempre aos movimentos de libertação. O nosso exército era santo, Wiriamu nunca existiu. Estou habituado.

Barcelos Tem Uma Frente de Rio!

Que tem vindo a ser desenterrada, e fazem lá umas festas

 

O não casamento como estratégia de reprodução numa aldeia portuguesa (1862-1983)

ninho vazio         Quando em 1971-1973 levei a cabo a minha pesquisa entre o campesinato do Vale do Chile apercebi-me que, apesar das crenças, valores e regras legais, religiosas e políticas, os casais, na ausência de um padre ou de um registo civil, – o que aconteceu com frequência nos grandes latifúndios chilenos – simplesmente juntavam-se quando surgia a necessidade de dividir a casa. Mais tarde, na Galiza, entre 1975 e 1978, observei que, tanto para esse período como para o passado histórico até ao século XVIII, o casamento verificava-se normalmente entre pessoas da mesma condição, baseando-se em negociações em torno da herança, sendo portanto, e uma vez que o património varia através dos tempos tanto nos conteúdos como nas possibilidades económicas, uma instituição historicamente mutável. Apercebi-me de uma série de possibilidades que se haviam desenvolvido para o casamento na Galiza, tais como o casamento combinado pelos pais do principal herdeiro, ou combinado pelos próprios, enquanto herdeiros residuais (Iturra, 1978 e 1980), os quais, uma vez mais, têm uma importância variável, dependendo dos conteúdos patrimoniais das transações matrimoniais. [Read more…]

Do Pecado

Bosch.

Hieronymus Bosch. H.á um livro de uma jornalista espanhola, a casa dos sete pecados, um romance histórico sobre o pecado, desejo, morte, traição. Bosch aparece por razões evidentes. Segundo o protagonista, Felipe II, “Ninguém melhor que ele sabe plasmar numa imagem a verdadeira essência da redenção dos homens”. Eu diria mais. Ninguém melhor que ele sabe plasmar a verdadeira decadência humana. Não se enganem, os quadros de Bosch têm pouco a ver com o Renascentismo. São quadros da Idade Média combinados com as novas técnicas do Renascimento.

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Chapelaria Necessidades, chapéus à medida

Roubado ao Nelson Louro Alves no Google+, que começa a servir para alguma coisa.

O celibato como sistema reprodutivo de pessoas, bens e saberes em aldeias camponesas

        Este texto é a reconstrução por escrito das minhas palavras sobre a reprodução no IV Congresso de Antropologia de Espanha, realizado em Alicante. Ao trabalhar o argumento que apresentara com base num esboço, outras ideias levaram-me um pouco mais longe em relação à exposição original. De facto, este texto é fruto do estudo que venho desenvolvendo sobre racionalidade, reprodução e estratégia, para o qual me sirvo de dados sobre camponeses europeus, estando, portanto, entrelaçado com o argumento que debato em vários outros textos dispersos pelo mundo. É, por isso, que no final, incluo uma lista deles que, oxalá, pudessem juntar-se a este para sua melhor compreensão. Em qualquer caso, o que pretendo aqui é inspeccionar as ideias e factos que, não sendo das aldeias estudadas, fazem parte da etnografia que um antropólogo europeísta deve consultar e que é possível encontrar na História, na lei positiva e canónica, na religião como na doutrina, Igreja e fiéis, assim como na economia teórica e conjuntural. É este o contexto dos factos da lógica camponesa que, na sua dimensão própria, está registado nas relações sociais e na tecnologia, que são os textos do saber oral e da sua cultura.

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Vítor Louçã Gaspar disse correctamente o nome de Sónia Fertuzinhos!

Foi hoje no Parlamento. O ministro das Finanças, Vítor Louçã Gaspar, respondeu à deputada do PS, Sónia Fertuzinhos, e conseguiu dizer o seu nome correctamente, embora com uma lentidão ainda maior do que é costume. Triunfante, fez a cena do costume. Pediu imensa desculpa por ter dito o nome dela muito devagar (como se as outras palavras ele as dissesse depressa) e aludiu à sua tradição de confundir nomes no Parlamento. Sim, porque, nas suas próprias palavras, Fertuzinhos é um nome difícil de dizer.
Imagino a cena em frente ao espelho: F-e-r-t-u-z-i-n-h-os. F-e-r-t-u-z-i-n-h-os. Fer-tu-zi-nhos. Fer-tu-zi-nhos. Fertu-zinhos. Fertu-zinhos. Fertuzinhos. Consegui, consegui.
Felizmente para Vítor Louçã Gaspar, Narana Coissoró já não é deputado. Nem Krus Abecassis. Nem Eleutério Alves. Nem Hermenegilda Camolas Pacheco. Mas Rosa Albernaz ainda é. E Ana Maria Bettencourt também. E Honório Novo, esse nome tão difícil. Temo que a reputação da eloquência de Vítor Louçã Gaspar seja destruída muito brevemente.
Este tipo é um prato!

Carro ou comboio?

Comboio ICE da DB, com wi-fi enquanto se viaja a 300 Km/h

Comboio ICE da DB, com wi-fi enquanto se viaja a 300 Km/h

Bate-se muito na opção do carro em detrimento do comboio mas vejamos. Uma viagem de carro Lisboa-Coimbra, por exemplo, com duas pessoas fica ao mesmo preço do comboio. Com três pessoas no carro fica mais barato. No carro não há horários estranhos, digamos assim, nem ligações perdidas por instantes.

É certo que os combustíveis têm vindo a ficar mais caros. Mas, por incrível que possa parecer, é um ponto negativo para o carro que não tem tornado a opção comboio mais atractiva. E o que fazem outras empresas de comboios? Pensam em horários convenientes, melhoram a qualidade de serviço, têm tomadas de electricidade nos comboios (sim, em alguns comboios da linha do norte também há algumas tomadas a funcionar) e agora até já têm wi-fi. E, claro, é possível planear toda a viagem num site bem feito, onde até, ó sacrilégio, é possível alugar um carro.

Olhó Passarinho

Bem Vindos ao Cairo 002

A primeira visita é sempre cheia de recomendações para quem não conhece o país, as gentes, a cultura.
Começa logo com os nãos.
Algumas, são apenas observações minhas, de entre o que vou vivendo e o que me vão explicando.
Estou aqui há um mês.
Não se pode beber água da torneira.
Não é permitido vender bebidas alcoolicas nos supermercados.
Não há bebidas alcoolicas nos menus dos restaurantes e embora alguns as sirvam,
é preciso saber que locais as têm.
Não há regras de trânsito, literalmente.
tem prioridade quem passa primeiro e quem buzina mais. ´
Caótico!
Até hoje, ainda só vi 3 sinais de trânsito:
“proibido falar ao telemóvel”
“proibido buzinar” e
“sentido proibido”
Ainda assim, é de longe o melhor caos organizado que conheço.
Não há muita liberdade para se vestir o que se quer, pelo menos da parte das mulheres.
Eles dizem-se modernos e a caminhar para a aproximação ao mundo ocidental,
mas ombros e joelhos à mostra, ainda são mal vistos pela maioria da população.
Há quem não faça caso disso, mas os nomes atribuidos a essas mulheres daquela forma sorrateira, não são os mais bonitos.
Eu sou, claramente, uma dessas mulheres.  [Read more…]

O ministro Vítor Louçã Gaspar tem-se destacado pela educação com que se dirige aos deputados e aos jornalistas e pela forma pausada como exprime as suas ideias. Ontem vi um documentário sobre um artista português e a primeira coisa que me ocorreu foi : Este tipo é um mentiroso colossal!

Com a sua forma de falar «ao ralenti», como quem escolhe as palavras com que vai enganar os pacóvios, o ministro Vítor Gaspar já entrou para a galeria dos mentirosos da política nacional. Meia dúzia de semanas foram suficientes.
Quando se começou a falar do «desvio colossal», Vítor Gaspar inventou uma estória mirabolante sobre uma série de palavras que tinham sido ditas pelo primeiro-ministro entre desvio e colossal. Pedro Passos Coelho não o desmentiu e o Presidente da República até o citou.
Para além de se saber que o desvio colossal existe mesmo, o órgão oficial do PSD, o «Povo Livre», atribui a Pedro Passos Coelho exactamente essa expressão: «desvio colossal».
Pois, é como o título deste «post». Vai-se ver e, afinal, não havia qualquer palavra entre Vítor Gaspar e mentiroso colossal.

O Que Diria Eça de Queiróz?

… do Jornalismo Patrocinado?

 

2012 está a caminho

Eu conheço uma cidade que vai deixar a sua marca em 2012. E que marca. Um grupo de gente de grande qualidade está a liderar um projecto fantástico. Assim os deixem concretizar os seus sonhos e garanto que vai ser uma grande surpresa.
A sua paixão pela terra que os viu nascer e crescer é a razão e a força que os move. Quem sabe se não vamos ter nas ruas e ruelas, becos e vielas da sua cidade momentos surpreendentes de partilha colectiva?
Falo por mim, estou mortinho por ver chegada a hora do arranque deste grande momento de 2012:

Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil.

Odorico de Paraguaçu ou o modelo de um edil.

Não sei se recordam este chavão publicitário que passou na televisão durante a década de 1990. Ele é, ainda hoje, bem revelador da «mentalidade paroquial» e municipalista que grassa na sociedade portuguesa desde, pelo menos, o Liberalismo. Nessa altura, profundas modificações foram operadas na divisão administrativa do país e vários foram os municípios levados à extinção. Choveram cartas nas Cortes. As velhas elites que diziam falar pelo povo, clamavam que estavam ameaçadas as liberdades daquelas antigas e venerandas terrinhas. Estavam era ameaçados os tachos oligárquicos onde as velhas famílias comiam e que agora, rotos e vazios, lhes eram retirados.
Contudo, o liberalismo teve mão para por no lugar esses rincões do Antigo Regime, oferecendo lugares novos aos velhos e criando novos lugares para os novíssimos. Hoje, tal seria impossível. As oligarquias deixaram de ser consanguíneas e passaram a ser partidárias. O dinheiro comanda. Apenas se falou em reduzir o número de municípios o caciquismo local tremeu. Mais depressa caía outra vez o Carmo e a Trindade do que se acabavam com concelhos. Alguns presidentes, daqueles da velha guarda, mestres e doutorados em eleições, vieram dizer que nunca, que as liberdades das antigas e venerandas terras, etc, (os tachos), etc, bastiões, etc, desenvolvimento, etc, progresso, etc., NÃO & etc.
É óbvio que a III República jamais conseguiria acabar com um munícipio que fosse e virou-se para as freguesias. Como a maioria dos presidentes da junta não tem sequer o quarto ano de escolaridade, nem o mestrado em argúcia política como os edis municipais, é fácil manobrá-los. Os municípios rejubilaram. Menos juntas, menos dinheiro, menos patetas a quem pagar jantaradas para servir nas campanhas. [Read more…]

Social-democracia de Esquerda

Isto de ser social-democrata de Esquerda é uma chatice.

Ontem participei na tertúlia organizada pelo Instituto Francisco Sá Carneiro, sob o tema “Sá Carneiro visto pelos outros”. Os “outros” – eu, Tiago Barbosa Ribeiro, Tomás Vasques e Bruno Góis  , os convidados, porque de Esquerda e Sá Carneiro, de Direita.

Ora, a social-democracia nasceu na Esquerda, oriunda dos marxistas que não aceitavam que as transformações sociais tivessem de ser feitas à custa de um processo revolucionário, mas antes no apuramento democrático rumo a uma sociedade socialista. E é este o meu espaço político, o daqueles que acreditam que é possível construir uma sociedade socialista por via da social-democracia. O que significa que não se tem partido político à escolha: o PS mantém o socialismo na gaveta e a social-democracia no armário; o PSD mantém a social-democracia da nomenclatura, pratica cada vez mais o liberalismo e foge ao socialismo quanto pode.

O modelo de social-democracia concebido por Sá Carneiro, não visa atingir o socialismo. Antes se baseia num modelo liberal de concepção da sociedade e do papel do Estado. Ou seja deslocou a social-democracia da Esquerda para a Direita.

Na interacção da tertúlia entre “os outros” e “os da casa”, defendeu-se que o pendor liberal da social-democracia tinha a ver com a génese portuense de Sá Carneiro, porque o Porto é uma cidade liberal.

Discordei e discordo, até porque muito do que o Porto conseguiu ao [Read more…]

Prova do suicídio de Salvador Allende – Heróis do Chile

Hortênsia Bussi de Allende

Sua Excelência Salvador Allende e a Primeira-dama Hortênsia Soto Bussi de Allende, no dia de começar o seu mandato, 4 de Outubro de 1970

A notícia recebida hoje de madrugada, deixou-me como alma em pena. É verdade que morei poucos anos no Chile, mas tive essa alegria de conhecer ao persistente candidato à Presidência do Chile, o médico político Salvador Allende. Aliás, o conheci em circunstâncias especiais: não lhe era permitido entrar na nossa terra, terra de agricultura e de indústria, com imenso operariado que, sem poder falar porque a esquerda era perseguida no Chile, até a volta a democracia em 1990. Mal soube a notícia, esse mando do proprietário a polícia, nada falei em casa, fui de imediato aos Carabineros (Guarda Civil) e mandei abrir as portas, acusando a esses guardas de atropelar a Soberania da República por não deixar entrar em propriedade privada, a um Senador da República. Os guardas não sabiam o que fazer, mandei, porém, que se encerrassem na sua caserna e dizer que nunca nada tinham visto. Filho de patrão, obedeceram. Abri as portas, pedi desculpas ao Senador, quem ripostou que estava habituado. Calei, o agarrei do braço e fomos de casa em casa dos 300 operários, apresentei ao Senador, fiz um discurso sobre uma cadeira. Toda de esquerda, saiu de imediato a rua, asilados no meu patronato. Foi o melhor discurso que lhe ouvi na minha vida: reivindicações, a terra é para quem a trabalha, as indústrias também, incremento de ordenado e de segurança social, liberdade de expressão, que era a falha do Chile. Passei uma tarde em grande. Despedi-me dele às portas da indústria, ficaram certos os operários que deste assunto nunca mais se falaria, apoiada a minha palavra pela do Senador. Anos mais tarde, comigo já na Grã-Bretanha, fui investigar o que era uma República com um Presidente marxista. A pedida de Fidel Castro de organizar, por ser um país católico militante, organizamos o movimento Cristãos para o Socialismo. Já Presidente, a Sua Excelência agradeceu e nunca falou contra nenhuma confissão, como nunca o tinha feito antes: o povo era protestante e católico, mas os seus votos o fariam Presidente para ele ter a oportunidade de fazer-nos a todos iguais. Os romanos, os Bispos, queriam nós enviar ao inferno. Nem curto nem preguiçoso, convoquei os Bispos e usei a sua teoria de que o Espírito Santo habitava em todos nós, citando o Apocalipses de João e a teoria gregoriana do Século VI em frente. Impressionados, calaram, sabia menos que nós. [Read more…]

Não se pode fazer política sem ludibriar o eleitor?

Santana Castilho *

1. Todos sabem, mas são poucos os que se insurgem contra a incoerência e o ludíbrio na política. Passos Coelho, candidato, disse da carga fiscal o que Maomé não disse do toucinho. Como homem de palavra que se dizia, garantiu não subir os impostos, pelo menos os que oneravam o rendimento. Se, afirmou, em limite, a isso fosse obrigado, então, taxaria o consumo. A primeira medida que Passos Coelho, primeiro-ministro, tomou, foi confiscar um belo naco do rendimento do trabalho dos portugueses. Lapidar!

O ministro das Finanças explicou aos ludibriados como se consumará a pirueta. Fê-lo em conferência de imprensa original, estilo guia turístico: à vossa esquerda (página 5 do documento de suporte), podem ver o gráfico tal; à vossa direita (página 27 do documento de suporte) podem contemplar o quadro X. Estilo novo, por estilo novo, poderia ter ido mais além. Poderia ter recolhido previamente as perguntas e incluir um desenho no documento de suporte, estúpidos que somos, para nos explicar por que razão os rendimentos do capital foram protegidos. Dizer-me que o não fez para não desincentivar a poupança e porque era tecnicamente impraticável, fez-me sentir gozado. Reduzir o alvo aos cidadãos e deixar de fora as empresas de altíssimos lucros, remete para o lixo o discurso da equidade e faz-me sentir ludibriado. [Read more…]

O grupo doméstico ou a construção conjuntural da reprodução social

familia20201.jpg?w=280&h=224     Como é habitual na prática de uma ciência, os conceitos mais antigos começam a perder a capacidade de subordinar fenómenos no processo explicativo. Isto ocorre por várias razões e parece-me que a mais importante é a descoberta de mais elementos no fenómeno, a maior clarificação do processo, a luz que, por fim, se faz na identificação das ideias ainda não expressa do real. Se pensarmos que o conhecimento científico é o processo de subordinar o desconhecido ao conhecido, estruturado em conceitos, modelos e ideologia (a materialidade das ideias), é possível explicar-se a inflação de fenómenos que diminuem a capacidade explicativa do conceito; se pensarmos que as ideias ali sintetizadas são resultado da experiência histórica heterogénea que os homens vão construindo, podemo-nos render à evidência de que, por vezes, é necessário voltar a definir para saber do que falamos para quem e desde quando.

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