O valor do silêncio

Primeiro vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista.

Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista.

Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu.

Foi então que vieram buscar-me, e já não havia mais ninguém para me defender.”

(Martin Niemöller)

Foi após o 25 de Abril de 1974, que se consagrou o direito ao silêncio, como um dos maiores expoentes da Democracia. Pois que o silêncio deixou de ser uma arma de opressão e repressão, e passou a ser uma garantia de que ninguém poderia ser prejudicado por não falar. Passou a ser um direito, tanto mais para não se auto-incriminar. Até porque falar ou não, é um direito pessoal, manifestação de livre vontade do indivíduo.

Isto, após o regime do Estado Novo de Salazar, em que se impunha o silêncio a quem pretendia se expressar de forma contrária ao que o regime ditava como certo ou errado. E impunha-se pela força, fosse por espancamento ou mesmo morte. Impunha-se até em julgamentos nos tribunais plenários, com espancamentos diante dos olhos de magistrados em pleno julgamento.

Sim: o Estado Novo de Salazar matou gente. Matou a tiro, por tortura, por degredo. E castrou o pensamento livre, calando com censura, garantindo-se com eleições forjadas, matando opositores, prendendo a crítica, tudo sob a batuta do medo. E no mais terrífico silêncio imposto.

O objectivo do silenciamento foi sempre um só: permitir ao Estado Novo, a manutenção do status quo das ditas elites, garantindo a submissão dos demais.

A Democracia, por seu turno, permite o debate de ideias, expressão livre do voto em eleições sem fraudes, e até mesmo, que aqueles que não comunguem dos ideais da Democracia, defendam teses autocráticas.

Porque a Liberdade, enquanto valor estruturante de qualquer Democracia digna de tal nome, permite isso mesmo: que se fale, que se expresse, que se verbalize. Pois que na Democracia, respeita-se o silêncio. Não se impõe. [Read more…]

As bolotas e os porcos

Falava uma deputada do Partido Socialista. Falava e enquanto falava acusava o partido Chega de ser racista e xenófobo. Indignados, os deputados da agremiação tasqueira, pediram a palavra: para dizer que é uma ofensa serem chamados de racistas é xenófobos.

A deputada do Partido Socialista que falava é, só por acaso, negra. Como o é, o deputado Filipe Melo, do Chega, mais conhecido como Bidão Galo, por ser largo e transpirar azeite, decide mostrar que não é nem racista nem xenófobo, atirando um “vai para a tua terra” à deputada socialista.

Eva Cruzeiro, deputada do Partido Socialista.
Imagem: Expresso

Ora, a deputada Eva Cruzeiro nasceu em Portugal, tem origens angolanas e cresceu no Seixal. A menos que o ‘deputedo’ chegano queira que Eva Cruzeiro volte ao Seixal, não estou a ver o que mais pode confirmar o racismo e a xenofobia da seita aventurada transformada em bancada ‘para-lamentar’.

Isto ainda vai piorar: para já, a violência é só verbal. Mas tem vindo a escalar, porque o que interessa é ser notícia, aparecer e “mal ou bem, falem de mim”. Filipe Melo, o deputado que deve mais de quinze mil euros ao fisco, já fez as figuras todas da extrema-direita: já foi machista, já foi homofóbico, já foi racista e já foi xenófobo. Agora, só lhe falta ser anti-semita… mas desconfio que quem arrisca o seu dinheiro no Chega não lhe dê autorização para tal. Durante a troca de palavras, Melo levantou-se e estacionou a sua figura de Barrosão na escadaria entre a bancada da seita que representa e a bancada do partido que representa o quase-governo; a estratégia de intimidação é óbvia e não é nova: levantar a voz, primeiro; levantar-se do lugar, a seguir; aproximar-se do inter-locutor, pressionando-o… e já só falta o próximo passo, o qual todos sabemos qual será.

Filipe Melo, deputado chegano. Imagem: Chega.

Quando a nulidade que temos como presidente da Assembleia da República disse que se pode dizer o que se quer e o que bem nos apeteça na casa da Democracia, não antevendo que quem é tolerante com intolerantes acaba comido pelos segundos, a estória já estava escrita: se a carta é branca e a deputada é negra, “vai para a tua terra” é tão legítimo como qualquer outro argumento, até porque o Aguiar é Branco.

O Chega clama por Salazares. Chora por estados novos. Vocifera contra a indisciplina. E fá-lo porque sabe que toda a autoridade está incumbida de branquear as práticas anti-democráticas, inconstitucionais, criminosas e cleptomaníacas do partido de Um Homem Só, qual União Nacional modernizada.

Quando a autoridade é uma bolota, acaba a ser comida pelos porcos.

Aguiar, o Branco. Imagem: SIC Notícias.

Isto está cada vez pior? Comparado com quê?

File:Antonio de Olivera Salazar sitting at his desk (by Bernard Hoffman, 1940) – Google Art Project.png

O Putin português com uma foto do assassino Benito Mussolini na sua secretária

Será verdade que “isto está cada vez pior”?

Não é de agora, não foi criada pelos novos fascistas, mas ninguém cavalga essa percepção como eles.

E o termo é exactamente este: percepção. Não confundir com realidade.

Mas… que percepção é essa?

É a percepção de que “isto está cada vez pior”.

Fun fact: não está.

E entre os responsáveis pela construção, que é em parte deliberada, desta ideia catastrofista, ancorada na demagogia mais ignorante e no populismo mais canalha, contamos políticos, órgãos de comunicação social, comentadores e activistas de extrema-direita, aos quais se juntaram, mais recentemente, YouTubers da área do gaming e da fraude com casinos ilegais, e, claro, influenciadores digitais apostados em monetizar a indignação e a idiocracy reinante.

Importa, contudo, sublinhar que todos eles estão a mentir.

Ou que, na melhor das hipóteses, são apenas ignorantes.

Porque Portugal não está cada vez pior.

Aliás, Portugal está, em muitos parâmetros, muito melhor. Sobretudo desde que o regime defendido pela larga maioria dos profissionais da percepção da desgraça inexistente foi derrubado e substituído pela democracia.

Está melhor na saúde.
Está melhor na nutrição.
Está melhor na liberdade.
Está melhor na educação.
Está melhor na economia.
Está melhor na segurança.
Está melhor na alfabetização.
Está melhor nas exportações.
Está melhor nas infraestruturas.
Está melhor na mortalidade infantil.
Está melhor na liberdade de imprensa.
Está melhor na liberdade de expressão.
Está melhor na esperança média de vida.
Está melhor no respeito pelos direitos humanos.

Em suma, está melhor naquilo que realmente importa. Naquilo que impacta a qualidade de vida da maioria.

Curiosamente, ou talvez não, o grosso daqueles que passam a vida a afirmar que “isto está cada vez pior” e que “antigamente é que isto era bom” são saudosistas da ditadura fascista do Putin de Santa Comba Dão. E defensores das suas maravilhas:

Da corrupção generalizada e intocável, promovida pelo regime salazarista.
Dos pés descalços e os estômagos vazios das crianças pobres.
Da repressão e do regime ditatorial de partido único.
Da oligarquia de Lisboa que tinha Salazar no bolso.
Da inexistência de um sistema de saúde universal.
Do analfabetismo e do trabalho semi-escravo.
Da violência policial, da tortura e da guerra.
Dos bairros de lata na periferia de Lisboa.
Do atraso estrutural a todos os níveis.
Da redução da mulher a objecto.
Da exploração infantil.
Do Ballet Rose.

E, claro, do respeito imposto pela violência. Que não era respeito nenhum.
Era medo.

Portugal tem imensos problemas, em áreas críticas, e é fundamental que os resolvamos todos e que responsabilizemos os seus responsáveis. Criticar o Estado e os políticos eleitos e legítimo. Mas qualquer pessoa que afirme, sem se rir, que isto estava melhor durante o Estado Novo, ou é ignorante ou adepto de ditaduras. No caso dos segundos, que não o assumem por hipocrisia e dissimulação, Putin bem que podia vir até à ponta ocidental da Europa. Porque a agenda do ditador russo é a mesma que defendem.

A língua de Rutte no orifício de Trump

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A imagem perfeita do novo quadro das relações internacionais: Mark Rutte, antigo primeiro-ministro holandês, agora secretário-geral da NATO, envia uma mensagem bajuladora a Trump, que responde sacando um print e publicando, sem edição, a totalidade do momento MAGA do liberal holandês.

Há quem defenda que Rutte está a ser um grande negociador, como quando, no outro dia, Costa deu a Trump uma camisola do Ronaldo, autografada pelo próprio CR7. Parecem-me coisas diferentes. Uma camisola, mesmo que autografada pelo melhor mundo, não é a mesma coisa que aquele lamber de botas até ao mais ínfimo orifício na sola. [Read more…]

Manual de combate ao Chega

Seguem-se as cinco maneiras mais eficazes de combater o crescimento da extrema-direita testadas em Portugal e no mundo:
1. Realizar reportagens semanais sobre o mundo obscuro e as formas de financiamento da extrema-direita. Tem resultado bastante bem. A sociedade adere em massa e as tendências de voto diminuem no momento.
2. Acompanhar ao minuto cada incidente que acontece com candidatos destes partidos, principalmente se envolver saúde e idas ao hospital. De preferência, seguir ambulâncias até à porta do hospital e propagar imagens da vítima ferida. É apenas informação, é útil para o debate e não se trata de qualquer manobra para ser assunto dias a fio.
3. Sempre que um político de extrema-direita tem um relacionamento amoroso ou de amizade com uma pessoa estrangeira, apontar a incoerência e partilhar por todos os meios possíveis. É outra técnica que tem destruído totalmente os argumentos anti-imigração (é verdade que o que falam é de imigração descontrolada e isso vai ao encontro do sentimento da população, mas agora não interessa).

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Abaixo a oligarquia! Vivam os Trabalhadores!

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Neste tempo estranho, em que a nova oligarquia bilionária nos quer mais pobres, precários, desunidos e submissos, defender o valor do trabalho e dos trabalhadores é mais do que afirmar direitos. É marcar uma posição de oposição contra a opressão mascarada de “mercado-livre” e de outras liberdades fictícias que teimam em aplicar-se apenas às elites que financiam o terrorismo libertário e neofascista. Punho erguido contra eles!
Feliz Dia do Trabalhador, gente boa. Maio começa hoje, mas o espírito de Abril perdura 🌹

25 de Abril: a luta continua. Sempre!

Num tempo em que o ódio, o racismo e a maldade saem à rua sem vergonha, celebrar Abril torna-se ainda mais importante.
Existencial.

Na rua, em casa ou nas redes sociais, manter viva a memória da revolução, as suas conquistas e a brutalidade de que nos libertou é, parece-me, uma obrigação de todos os democratas. Para travar os que tentam reescrever a história e convencer-nos de que no tempo da guerra, da miséria, do analfabetismo, da censura e da corrupção salazarista é que era bom. Não era. E não admira que os defensores desta ideia estapafúrdia sejam os mesmos que hoje têm sonhos molhados com Putins e Trumps. Não tenhas ilusões: no dia em que lhes for permitido, entregam tudo aos oligarcas e atiram-te pela janela do 17.º andar.

A luta continua, não porque este seja um slogan bonito, mas porque a democracia é um projecto sempre em construção, sempre inacabado e sempre alerta para resistir aos novos fascistas. E por muito que guinchem e estrebuchem, são e continuarão a ser a minoria. É por isso que desejam a ditadura. Porque só assim conseguem impor a miséria ignorante à maioria.

Resistiremos!

25 de Abril SEMPRE, fascismo NUNCA mais!

O Triunfo dos Idiotas

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A democracia foi uma ilusão necessária. Uma ferramenta de propaganda e expansionismo que permitiu aos EUA conquistar ideologicamente a Europa e vencer a Guerra Fria. O seu propósito era claro: consolidar a hegemonia mundial norte-americana. Se a democracia fosse uma prioridade, que na realidade nunca foi, Allende não teria morrido em La Moneda e o Irão poderia muito bem ser hoje um estado secular.

A ilusão da democracia foi, maquiavelicamente, um meio para atingir um fim. Na Europa, claro. No Vietname, Indonésia, Iraque e nos vários golpes de estado patrocinados na América Latina foi imperialismo puro e duro. E o imperialismo é inimigo da democracia.

Não será por isso descabido dizer que foi o soft power, não o poder militar, aquele que deu a vitória aos EUA na Guerra Fria. Foi ele que seduziu a Europa com o Plano Marshall, África com ajuda humanitária e a Ásia com comércio internacional. E que permitiu aos EUA passar incólumes na Sérvia, na Líbia e no Afeganistão. Entre outras exportações de democracia, com os magníficos resultados que se conhecem. [Read more…]

Aguiar-Branco-sujo

Na minha vastíssima ignorância também sobre tonalidades, tenho ouvido falar, por vezes, de branco-sujo, que me parece, à partida, tão pouco branco, que nem branco seria, mas temos de aceitar que brancuras e branqueamentos há muitos.

Recentemente, José Pedro Aguiar-Branco afirmou que Pedro Nuno Santos «fez pior à democracia em seis dias» do que Ventura em seis anos, o que é surpreendente, porque ficamos a saber que o Presidente da Assembleia da República considera que André Ventura fez mal à democracia.

Por outro lado, tendo em conta que Aguiar-Branco raramente censurou Ventura ou o Chega, talvez possamos concluir que a qualidade da democracia não faz parte das suas preocupações. Aguiar-Branco, portanto, branqueou os ataques que Ventura fez à democracia, sujando-se. Efectivamente, branquear suja.

Subscrevendo as palavras do nosso José Mário Teixeira, direi, no entanto, que é importante confirmar que é habitual que uma certa direita recorra com muita facilidade ao equívoco das falsas equivalências, mantendo aberta a possibilidade de alianças com o Chega. Ao despir, em público, a pele de Presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco exerce o seu direito a sujar-se e a sujar o cargo que representa. Para cúmulo, despir-se em público pode considerar-se atentado ao pudor.

América Desigual

Todos achamos isto e aquilo sobre o desfecho das eleições americanas. Há análises para todos os gostos e vamos andar nisto alguns meses. Até porque o que se decide em Washington afecta a humanidade em bloco.
O que eu acho, e já achava antes – e quem comigo conversou e debateu o assunto ao longo dos últimos meses sabe que estive sempre convicto que Trump ganharia fácil a eleição – é que os Democratas e as suas elites se afastaram, há muito, das pessoas comuns.
Não necessariamente por causa do fenómeno woke, em todas as suas muitas dimensões, que há muito ultrapassaram a barreira do absurdo, mas porque os EUA, sendo a maior economia do mundo, são um país profundamente desigual.

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Harris v Trump

Votar em Harris e lutar politicamente 4 anos, ou votar em Trump e não votar novamente. (Palavras do próprio)

Venezuela: as eleições fraudulentas e as fraudes democráticas

É claro que as eleições de ontem na Venezuela foram fraudulentas. Não existem eleições livres em ditadura. Nem na Venezuela, nem no Irão, nem noutros regimes ainda mais violentos, mas muito estimados pelo status quo ocidental, como o saudita ou o chinês. Eleições livres são um luxo de europeus e pouco mais. E mesmo na Europa não sabemos se por muito mais tempo.

Constatado o óbvio, vamos ao tema quente da semana passada. Se um político estrangeiro se apresenta em território venezuelano na qualidade de observador eleitoral, sem que para isso tenha visto para entrar no país ou convite oficial das autoridades locais para ser observador do acto eleitoral, é claro que pode ficar à porta. Seja na Venezuela ou nos EUA. [Read more…]

A IL, o regime comunista do Estado Novo e o combate aos caçadores furtivos que matam unicórnios cujo corno serve para tratar a disfunção eréctil

Como todos sabemos, o corno de unicórnio tem poderes medicinais, sendo usado para tratar a pele atópica e a disfunção eréctil ou a pele eréctil e a disfunção atópica, não sei bem, porque ainda estou a tentar entrar em Medicina e as médias estão altíssimas. Por isso, os unicórnios correm perigo de extinção – nas matas e florestas de todo o mundo, especialmente em Monsanto e na Arrábida, há caçadores furtivos que matam, sem escrúpulos e sem balas, unicórnios aos milhares.

No desfile comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril, a Iniciativa Liberal, dentro do mesmo espírito informado e científico, gritou a palavra de ordem “Comunismo nunca mais”, de maneira a pôr os pontos nos bês. Viva a Iniciativa Literal!

Não passarão

A enchente na Avenida da Liberdade e nos Aliados fez-me perceber que me deixei alarmar em demasia com o protesto eleitoral que reforçou a extrema-direita.

Preocupado estaria se, ao invés de captar um voto de protesto conjuntural, os herdeiros do Estado Novo fossem capazes de encher as ruas com dezenas ou mesmo centenas de milhares de pessoas a celebrar o 11 de Março.

Contudo, o máximo que os vi fazer foi encher o pequeno auditório de uma livraria, para ouvir homens a preto e branco defender que a mulher devia estar na cozinha e que a violência doméstica não existe porque elas não se queixam. É repugnante, bem sei, mas o 25 de Abril que tanto desprezam deu-lhes a possibilidade de arrotar estas e outras verborreias.

Combatam-se os saudosistas com a razão.

Não passarão.

Obrigado, 25 de Abril

«Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!»
“Aniversário”, Álvaro de Campos

Os dias, tal como as pessoas, têm virtudes e defeitos. O dia 25 de Abril de 1974 é o pior dia da História de Portugal, à excepção de todos os outros.

Feliz aniversário, Liberdade!

Ainda me arrepio com as histórias, as músicas e os relatos de quem viveu a guerra e a revolução.

Com os documentários, as reconstituições cinematográficas e as imagens daquele dia inicial inteiro e limpo.

Com a coragem daqueles militares, que arriscaram a liberdade e a vida para que todos pudéssemos ser livres e – finalmente – viver.

Com a existência clandestina dos bravos da resistência antifascista.

Com a realização daquela alegada utopia, que na madrugada que todos esperavam emergiu das trevas e limpou o céu.

Com o privilégio que foi nascer em democracia, sem nunca, de forma alguma, ter estado sujeito à censura, à perseguição ideológica, à prisão arbitrária, à tortura ou à morte às mãos de um qualquer carrasco da PIDE.

Poucas coisas me alarmam, tão intensamente, como a ideia de vivermos hoje um tempo em que uma ruidosa minoria decidiu sentir saudade de um tempo que não viveu.

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Notas sobre o incidente israelo-iraniano

Três pontos prévios, sobre o incidente israelo-iraniano deste fim-de-semana:

  1. Israel está a levar a cabo um massacre na Faixa de Gaza. O nível de brutalidade da sua ação supera largamente o de Putin na Ucrânia. Não há justificação possível para a desproporção da resposta ao ataque terrorista de 7 de Outubro.
  2. O ataque de Israel ao consulado iraniano na Síria viola o direito internacional e a Convenção de Viena. E acontece não porque Israel se sentiu ameaçado pelo Irão, mas porque se julga acima da lei.
  3. Ao nível interno, Israel ainda é uma democracia. No plano externo é um regime desestabilizador, dos mais violentos e dos que mais desrespeita o direito internacional e as suas instituições.

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Os donos da democracia

A Democracia é o que nós dissermos que é. 

Os resultados são o que nós quisermos que sejam. 

Fascistas são os que nós dissermos que são.

Progresso é o que nós quisermos que seja.

 

Só os nossos podem ter opinião. 

Só os nossos podem ter liberdade. 

Só as nossas lutas são justas. 

Só nós sabemos o que é melhor para vocês. 

E não se pode criticar os eleitores?

Quando alguém, como é o meu caso, não fica satisfeito com o resultado das eleições, aparecem umas acusações que não me parecem menos estranhas por serem frequentes.
1 – é preciso respeitar a vontade do povo.
Tanto haveria a dizer.
Em primeiro lugar, ó alminhas, criticar não é faltar ao respeito. Depois, criticar não altera votação nenhuma nem manda os criticados para o calabouço da minha prisão política particular gerida por barbudos que torturam os prisioneiros com canções revolucionárias e outras crueldades. Finalmente, em democracia, um cidadão, se lhe apetecer, pode criticar os outros cidadãos todos, incluindo os próprios pais.
Quando critico os outros, posso estar convencido de que sou melhor do que outros? Sim, é possível e, diria, recíproco. Se eu considerar que as minhas opiniões são melhores do que as de outra pessoa, corro o risco de ser atacado por algum complexo de superioridade, mas isso não tira nenhum bocado a ninguém. Curiosamente, as pessoas que consideram que as minhas ideias são um disparate também se julgarão superiores a mim. Entretanto, enquanto andamos nestas discordâncias, enquanto nos julgamos superiores uns aos outros, não nos cai nenhum membro e o mundo pula e avança.

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Açores: a escolha que se impõe

Os açorianos foram chamados a decidir a nova composição do parlamento regional e, mais deputado, menos deputado, ficou “tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.

A AD, que congrega PSD, CDS e PPM, consegue 26 deputados. Em 2020, PSD tinha conseguido 21, CDS 3 e PPM 2. Ou seja: 26 deputados.

O PS perde 2 deputados, o BE perde 1, a IL mantém o deputado que tinha e o CH consegue mais 3.

Contas feitas, as alterações na aritmética parlamentar são insignificantes.

E, sobretudo, não mudam o essencial: sem maioria, José Manuel Bolieiro deve encontrar uma solução para garantir a governabilidade da região autónoma dos Açores.

Espero que essa solução não passe por acordos com a extrema-direita.

E que o PS esteja à altura dos tempos que vivemos e se abstenha de chumbar os orçamentos da AD.

Porque quando a escolha é entre a democracia e o retrocesso iliberal, conservadores, liberais, social-democratas e socialistas estão na mesma trincheira. E devem saber entender-se para a preservar.

Foi assim que se derrubou a extrema-direita na Polónia.

É assim que se impede a extrema-direita de chegar ao poder em França.

E talvez seja essa a solução para impedir o regresso da marioneta de Putin à Casa Branca.

Acima de tudo, é essencial preservar a democracia.

Porque sem democracia, as diferenças ideológicas não contam.

São todas suprimidas.

É este o “valor mais alto que se alevanta”.

Democracia.

Next stop: Republic of Gilead

O novo speaker da câmara dos representantes, Mike “MAGA” Johnson, é um nacionalista cristão. Em 2019 afirmou “Não queremos estar em democracia”. Pragmático.

Teresa Violante explica as consequências do capitalismo selvagem às criancinhas

Na Polónia, a desvalorização do Estado social e dos direitos sociais foi um dos fatores que levou a maioria da população a identificar-se com um projeto assente na corrupção do poder político, no ataque à independência judicial e aos limites ao poder executivo. A degradação do Estado social contribui para a erosão das democracias liberais. Esta é uma lição urgente para a Europa.

O restante artigo está aqui e merece ser lido com atenção. A solução para abater o populismo e os novos autocratas ocidentais e reforçar o Estado Social e combater as desigualdades. Simples assim.

República, Sempre!

Há quem defenda que isto da República não é lá grande coisa, porque até existem monarquias onde se vive melhor do que aqui.

E é verdade.

Como é verdade que existem outras tantas onde se vive muito pior.

Mas o ponto, para mim, não é esse. [Read more…]

Não passarão!

Grande discurso do Rui Tavares, hoje, na Casa da Democracia.

25 de Abril SEMPRE, fascismo nunca mais!

Professores em luta no Portugal sOcIaLiSta

Num Estado com tiques autoritários, ou a caminho disso, o governo dá instruções à polícia para colocar no terreno várias operações stop, com o propósito de atrasar, dificultar e evitar que uma manifestação, na capital do país, ganhe dimensão.

E diz que por lá andou que esse Estado, hoje, foi Portugal.

O tal que é socialista.

E neste Portugal socialista, perdão sOcIaLiSta, o dia da grave nacional dos professores foi recebido com inúmeras operações stop, onde autocarros foram mandados parar uma e outra vez, e os professores repreendidos (constou-me também que multados, mas não pude comprovar) por levar as carteiras no colo ou comer no autocarro.

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Operações stop aos autocarros que transportam professores para a grande manifestação

Imagem retirada do Instagram.

Há relatos de professores multados por trazerem mochilas ao colo ou por estarem a comer dentro do autocarro. Há autocarros que pararam em mais do que uma operação stop.

Eu, que tantas vezes andei de autocarro, nunca vi uma única operação stop a autocarros que saíssem de Lisboa para o Porto, nem do Porto para Lisboa. Já vale de tudo para tentar melindrar quem, há anos, luta por melhores condições e reivindica a justiça para a sua profissão. Quando, em Brasília, se fala do alinhamento dos militares com os vândalos, não se espera que em Portugal a GNR e a PSP se aliem também aos vândalos para tentar destruir a democracia: neste caso, os vândalos são o Governo português, a direita à direita do PS e a extrema-direita.

Os Governos do PS sempre tão lestos na tentativa de criminalizar as greves e os grevistas, têm o desplante de se dizerem de esquerda, terem socialista no nome, enganando incautos, terem liberalizado a economia portuguesa e privatizado anéis e dedos, desde 2019 que querem macronizar a política portuguesa; e ainda se ofendem muito quando alguém de esquerda lhes diz, com propriedade, que de esquerda é que o PS não é. São iguais aos liberais e dão combustível aos proto-fascistas.

Votaram nisto? Agora aguentem, lidem com isso e tentem não se deixar enganar da próxima vez. A única esquerda está à esquerda do PS (mesmo que neste caso, os sindicatos afectos ao PCP mostrem conhecer o dono e entrem na estratégia de tentar sectarizar uma luta de todos os profissionais da educação, dando combustível a este des-governo que dá combustível à extrema-direita).

Vocês são todos muito inteligentes.

Um liberal miguelista

Fotografia retirada do jornal Público

João Miguel Tavares sugeriu, no sítio onde escreve, que “num sistema democrático a polícia deve ter a possibilidade de usar força letal”, referindo-se à invasão, por parte dos apoiantes de Bolsonaro, dos edifícios dos Três Poderes e afirmando que, na sua visão, a polícia, a tal que até foi conivente com o desenrolar dos acontecimentos, deveria ter o direito de atirar a matar sobre os terroristas.

Assim mesmo, olho por olho. Dente por dente. Puxar cabelos e lutar na lama. Igualarmo-nos a quem queremos combater.

Ora, João Miguel Tavares diz-se liberal mas, como liberal que diz ser, parece não ter percebido que, num sistema democrático (e liberal), deve acontecer exactamente o oposto do que diz (isto é, a polícia não poder usar força letal, a não ser em casos em que a própria vida do profissional da polícia ou de terceiros seja colocada em perigo). A Lei e a Constituição, pelo menos a portuguesa, são muito claras a esse respeito. Não conheço os meandros da Constituição brasileira, mas com certeza também será directa e sucinta em tal aspecto. Os terroristas bolsonaristas que destruíram tudo o que se atravessava no seu caminho, durante os tristes acontecimentos do último Domingo, hão-de ser julgados dentro dos trâmites da Lei; sem fuzilamentos ou execuções sumárias. A vida não é o ‘Inglourious Basterds’.

Já João Miguel Tavares, dizendo-se um liberal, começa a amealhar demasiadas opiniões que o colam aos miguelistas ou não fosse ele um Miguel.

Invasão da Praça dos Três Poderes: estava escrito nas estrelas

Estava escrito nas estrelas: dois anos após a invasão do Capitólio, os brasileiros “do bem” invadiram a Praça dos Três Poderes e as várias instituições ali sediadas. Houve vandalismo, roubo e delinquência para todos os gostos. Parabéns a todos os que, também por cá, se bateram pela falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro e pela normalização da extrema-direita. A vossa posição face à democracia é hoje mais clara do que nunca.

Força, Brasil! O extremismo não passará!

Falsas equivalências

No seu discurso de ontem, reagindo à barbárie que os apoiantes de Bolsonaro impuseram em Brasília, Lula da Silva chamou à extrema-direita aquilo que ela é: neo-fascistas de trazer por casa. Logo se levantaram, inconformamos, os empedernidos liberais do extremo-centro, dizendo que as declarações do presidente brasileiro polarizam e acicatam a reacção.

Esta posição é, apenas, e na verdade, mais uma das infindáveis tentativas de colar a extrema-direita à esquerda, quando sabem perfeitamente que o que está em causa não é uma questão de extremos, mas sim de fascistas versus democratas. Esta estratégia de fazer equivaler a esquerda, fundamentalmente social-democrata, à extrema-direita racista, xenófoba, homofóbica e corrupta é antiga, foi recauchutada e colhe hoje os seus frutos. Mas não há equivalência possível entre quem defende os pressupostos constitucionais que regem uma democracia e aqueles que, inscientes, a querem destruir, começando por corroê-la a partir de dentro, para depois extravasarem e passarem à violência declarada contra as Instituições democráticas. Em Portugal sucede o mesmo, sobretudo depois da entrada declarada da extrema-direita na Assembleia da República: a tentativa de colar o Chega, representante dessa direita retorcida e podre de bolor, aos partidos representantes da esquerda tradicional, como o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, partidos que, quer se queira quer não, quer se goste ou não, nunca tiveram um projecto político de destruição da ordem constitucional e democrática. A estratégia, diga-se, é igual aqui, no Brasil, na Espanha, na França ou na Itália.

Ao Brasil, aos democratas brasileiros, da direita moderada à esquerda, que não se revêem em tais actos e respeitam a democracia, vai daqui toda a minha solidariedade e a vontade de que esses insurrectos fascistas sejam postos no seu devido lugar: na cadeia.

Viva o Brasil. Vivam os brasileiros.

Fotografia retirada de: Revista Veja

Extrema-direita brasileira imita trumpistas e invade Congresso Nacional (vídeo em directo)

Fascista que é fascista não tolera a democracia. Bolsonaro fugiu para os EUA, mas deixou plantada a semente do ódio. É enfiar esta escumalha em Carandiru.