Será o espectáculo popular com que umas centenas de animais se deliciarão esta noite em Medinaceli, um município de Soria no reino de Castela e Leão.
As bestas lançarão fogo aos cornos de um touro indefeso, terminando por soltá-lo entre fogueiras e outras chamas, para seu gaúdio de pobres seres sem inteligência.
Eu sei que os animais são inimputáveis. Mas estes deviam ser enjaulados por uns bons tempos, ou talvez convertidos ao reino vegetal, ao menos não incomodavam, e daí, bestas destas viravam no mínimo em silvas bem espinhosas.

Éramos vários cientistas a vender o seu peixe aos caloiros. Não era na praça do mercado, antes fosse, facilitava o debate. Era dentro de um grande anfiteatro. Por acaso, três académicos no estrado,
Maat, a Deusa da Justiça e da Verdade, ligada ao equilíbrio
de trezentos caloiros na plateia do auditório. Os peixes cheiravam de acordo com a pronúncia e a voz de quem falava. No meu caso, sempre cheirava a mar de rosas: o meu sotaque era pesado, especialmente para os mais novos, não habituados a ouvir a sua língua portuguesa, falada de forma britânica, galega, castelhana ou afrancesada. Os vendedores de peixe, muito sérios, usavam palavras caras nas suas intervenções. Caras, pelo rigor do vocabulário e a dificuldade do conteúdo. Minutos passados foi a minha vez. Perguntaram para que servia a Antropologia? Para sintetizar devido ao meu modo de falar, (denominado por alguns alunos pelo termo carinhoso de Iturrês) lentamente respondi: "Nunca perguntamos quantas pessoas vão à Missa aos Domingos para depois juntar um grupo deles e fazer um inquérito a um número proporcional; nós perguntamos, em que dia da semana é dita a Missa, e as explicações começavam para o coitado que nada sabia de catequese dentro de um País Fatimizado". A gargalhada foi grande pela raridade da resposta e por fatimizar o país, como se fosse um assassínio maciço. Fatimizar Portugal? Mas, que laia de académico é este estrangeiro que nem sabe que Portugal é terra sagrada por ter aparecido na vila de Fátima a Nossa Senhora? Fiz cabeça de turco e pedi explicações. Não paravam. Os que por sentimento de fé diziam, os que por simpatia narravam, os que por colaborar ao saber histórico provavam, e o debate nunca mais acabava..! Tinha vendido o meu peixe, imensos caloiros passaram para o curso de Antropologia do ISCTE dos anos 80 do Século passado, como anteriormente tinha acontecido com o meu sotaque castelhano na Grã-Bretanha, ou antes ainda, com o meu sotaque britânico na Galiza. O elo era sempre atingido: começava, sem saber como e por onde, a interacção.
uma lei que é costume praticar ainda que não esteja escrita, como esse morgadio desaparecido na ciência do direito mas não entre os habitantes de uma aldeia ou vila, a economia baseada na poupança do cêntimo, estruturada na colaboração de angariar força de trabalho para semear e plantar, força de trabalho que deriva do parentesco e das histórias de vida ou, simplesmente da vizinhança, mas nunca de Adam Smith ou Milton Freedman, saber doutoral que não tem cabimento dentro da empiria ou esse saber lógico que acredita nas experiências como principais formadoras das ideias, discordando, portanto, da noção de ideias inatas, definidas pelo saber doutoral.
Adam Smith,leitor Edimburgo 1754



O desespero dos cientistas é a descoberta do que é o método científico. Cada intelectual procura a sua metodologia e é classificado por ela. As ciências sociais confundem-se com o senso comum já que, para além da inexistência de códigos e instrumentos específicos, todos os indivíduos procuram orientar e racionalizar as suas acções dentro de uma determinada estrutura social, verificando-se assim a dificuldade de eliminar aspectos subjectivos na análise do cientista. Tarefa difícil de realizar. O caminho mais simples é o preconizado por John Stuart Mill, filósofo e economista escocês, que em 1895 no texto Utilitarianism, editado por William Colins Sons & Co, Glasgow, diz que o caminho mais simples para saber a verdade de um facto, é o da lógica ensinada por David Hume em 1739: A Treatise on Human Nature, Oxford University Press, versão portuguesa da Editora Gulbenkian, 2001. A lógica recomendada é da indução, dedução. A indução é entender os factos que pretendemos desvendar, aplicando teoria e, através de outras hipóteses, explicar a nossa pretensão; alternativamente, mas em conjunto, a hipótese da dedução: estudar os factos e retirar deles teoria ao comparar com métodos provados de pesquisa. A meu ver, indução e dedução devem ser usados em conjunto. É impossível teorizar sem factos investigados, bem como fazer da teoria, factos. Este foi o caminho que aprendi com o meu orientador de estudos, Jack Goody, que me ensinou também que os factos são retirados do t







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