Labirintos
Associação de Professores de Português reconhece que o AO90 falhou
Nota inaugural: no final do texto, há hiperligações gratuitas.
Uma vez que há alunos brasileiros que têm sido penalizados na classificação de exames de Português por escreverem de acordo com a variante que aprenderam, a Associação de Professores de Português (APP) defende a criação de um grupo de trabalho para discutir aceitação de variedades de português em exames.
Não vejo mal nenhum em reflectir sobre o assunto, porque devemos defender o elo mais fraco, que, neste caso, é o aluno imigrante. Haverá várias questões a ponderar, mas a preocupação é legítima, embora não me pareça que o problema seja assim tão fácil de resolver. O que me traz hoje aqui, no entanto, é outra coisa.
Convém lembrar que a APP esteve sempre do lado da defesa do chamado acordo ortográfico (AO90), essa oitava maravilha do mundo que, segundo os seus diversos apóstolos, iria contribuir para a tão desejada «unificação ortográfica» que resolveria problemas que nunca existiram. Resolver problemas que não existem é, aliás, uma característica talvez tipicamente portuguesa. [Read more…]
Doha a quem doer, 1-0 para os adeptos do Braga!
Depois de um trocadilho barato com a capital do Qatar, vamos a coisas mais sérias e mais caras. Não por podermos falar de preços absurdos, mas por custarem vidas humanas e não só.
Na semana passada, foi sabido que a Qatar Sports Investements, proprietária do Paris Saint-Germain, adquiriu 21,67% da SAD do SC Braga. Anteriormente, estes mesmos 21,67% eram adquiridos pela Olivedesportos. Felizmente, a SAD do SC Braga viu-se livre dessa gente da Sport TV que não interessa para nada. Fazem com que jogos sejam marcados para horas indecentes, controlam os direitos televisivos e isso parece tudo muito obsceno. É muito melhor ter participação da Qatar Sports Investements, que é subsidiada pelo Estado qatari, chegando mesmo a ser considerada propriedade do Ministério das Finanças do Qatar. E como sabemos, o Qatar é um exemplo de país no que diz respeito a direitos humanos. Estamos a falar de um país que criminaliza orientações sexuais, que não permite pessoas andarem vestidas como querem, que não respeita outras crenças… Mas isto do futebol une as pessoas e como o Mundial é lá, de certeza que tiveram bom senso. Certo? Errado. Recorreram a trabalho escravo que já custou a vida de milhares de pessoas para se prepararem para o Mundial. Entre dezenas de federações e uma FIFA que prontamente expulsou a Rússia de todas as competições, ninguém se levanta perante isto. Todos sabemos que quando se fala de democracia, o Qatar mete a Rússia num bolso. Hipocrisia por parte da FIFA e afins? Não, que ideia. [Read more…]
Decadência
Ao ter conhecimento do “apego a um qualquer animal de estimação, típico das sociedades decadentes“, do bispo Linda, lembrei-me disto, lido há cerca de 33 anos:
— Não posso dispensar-me aqui duma psicologia da «fé» e dos «crentes» em benefício dos próprios «crentes». Se, ainda hoje, alguns deles (crentes) ignoram até que ponto é indecente ser «crente»—ou então quanto isso é sinónimo de decadência, de vontade de vida quebrada—, já amanhã o saberão.
—Nietzsche
No original, lido cerca de treze anos depois:
— Ich erlasse mir an dieser Stelle eine Psychologie des „Glaubens“, der „Gläubigen“ nicht, zum Nutzen, wie billig, gerade der „Gläubigen“. Wenn es heute noch an solchen nicht fehlt, die es nicht wissen, inwiefern es unanständig ist, „gläubig“ zu sein — oder ein Abzeichen von décadence, von gebrochnem Willen zum Leben —, morgen schon werden sie es wissen.
—Nietzsche
Nótula: Felizmente, estou durante uns dias na casa da aldeia, onde guardo estas preciosidades (a segunda edição, de 1988). Já agora, o amigo que me apresentou ao Frederico Guilherme e o próprio Frederico Guilherme fazem anos amanhã, 15 de Outubro. Ainda bem que há coincidências.
Mateus, 7:3
«Porque reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante e não vês a trave que está nos teus próprios olhos?»

(Ambos os artigos foram publicados hoje, na edição online do jornal Público)
Marcelo, o sobrevivente

Marcelo Rebelo de Sousa não comete erros, salvo raríssimas excepções. Porque Marcelo é calculista, planeia e antecipa, e joga o jogo como poucos, na política e na imprensa.
Marcelo é de outro campeonato. Tanto que destruiu a concorrência na corrida à Belém, num momento de crise existencial à direita, com o apoio do primeiro-ministro e presidente do partido com o qual o seu PSD disputa o controle do Estado.
Esta semana, porém, assistimos a uma dessas raríssimas excepções. E não, não estou a tentar desculpar Marcelo. As declarações do presidente são hediondas e inaceitáveis. E não acho que Marcelo o tenha feito inadvertidamente. Acho que foi calculado, com o objectivo de minimizar o horror que aqueles números representam. Foi um frete do presidente da República de um Estado laico à hierarquia da Igreja Católica. Só que correu mal, obrigando Marcelo a recorrer ao seu amplo repertório de desculpas esfarrapadas.
[Read more…]Autoritarismo do bem, pré-aprovado por Nosso Senhor Jesus Cristo
America is terrifying. pic.twitter.com/0F0dRDWTsu
— I am (@mackio_) October 11, 2022
No farol da liberdade ocidental, onde a democracia é sólida e exemplar, o abuso de poder e a violência policial são uma constante. Sorte a deles, e dos seus vassalos ocidentais, visa quase sempre pretos, hispânicos e outros não-caucasianos. Porque os caucasianos, é sabido, são alvo de vis perseguições e ataques racistas sem precedentes. De maneira que, em princípio, é autoritarismo do bem, pré-aprovado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Oremos.
A Leste Tanto de Novo

Moscovo, a sua cúpula dirigente e principalmente o próprio Putin não são exactamente grandes adeptos da transparência. As informações que chegam raramente são claras e têm quase sempre várias leituras. O que até é perfeitamente compreensível. A filosofia que escolheram em profunda disrupçâo com a evolução da humanidade, não lhes autoriza grandes sinceridades. Primeiro, isso permite-lhes não ter de efectivamente assumir o que quase ninguém compreenderia. Segundo, a obscuridade é sempre a melhor defesa da ditadura e um garante da sua sobrevivência.
[Read more…]Contra o Orçamento do Estado para 2023
Mantém-se um mistério o motivo pelo qual gente alfabetizada votou favoravelmente documentos redigidos nos termos de 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020, 2021 e 2022 [1] e [2]. Uma hipótese que me parece plausível é a de estes documentos não terem sido lidos por quem os votou. E isso, a ser verdade, é grave. Mas não sabemos se é verdade. Só sabemos que é uma hipótese.
Debrucemo-nos então sobre o documento hoje depositado por Fernando Medina nas mãos de Augusto Santos Silva.

Foto: Nuno Ferreira Santos (https://bit.ly/3CpJfXc)
Vejamos, pois, uma amostra do conteúdo do Relatório (pdf): [Read more…]
Credit Suisse e Deutsche Bank à beira do colapso porque a maralha voltou a viver acima das suas possibilidades
Crescem as suspeitas de que o Credit Suisse e o Deutsche Bank estarão à beira do colapso. E que o eventual colapso, apoiado na queda abrupta do valor das acções (as do Credit Suisse caíram cerca de 75%, desde Fevereiro de 2021) e na subida à pique dos credit default swaps, para valores superiores aos registados durante a crise de 2008, poderá ter consequências mais desastrosas que a queda do Lehman Brothers.
Lembram-se da queda do Lehman Brothers?
Foi aquele banco americano, ícone maior da superioridade do extremo-capitalismo neoliberal, que se desmoronou e levou com ele a economia mundial. Ou, traduzido para conservador-liberal, o Sócrates a governar e o povinho a comer bifes à maluco. A tradução para facho é parecida, basta acrescentar o termo “vergonha” em qualquer ponto da frase.
[Read more…]Cabrita é p’ra Frontex

Depois do sucesso que foi a gestão do caso que resultou no homicídio de Ihor Homeniuk, às mãos de agentes do SEF, Eduardo Cabrita está na corrida para director executivo da Frontex.
Da Frontex.
Estas merdas não se inventam.
Royale with cheese
La langue, un français écorché, mêlé de patois, était indissociable des voix puissantes et vigoureuses, des corps serrés dans les blouses et les bleus de travail, des maisons basses avec jardinet, de l’aboiement des chiens l’après midi et du silence qui précède les disputes, de même que les règles de grammaire et le français correct étaient liés aux intonations neutres et aux mains blanches de la maîtresse d’école.
— Annie Ernaux (efectivamente)
***
Por causa da Mary Royall /rɔɪəl/, lembrei-me do royale /rɔiˈæl/ (with cheese). Trata-se sobretudo de tonicidade, sim, por isso, muito mais do que da velha história da selecção e da *selessão, perdão, da *seleção, lembrei-me da facção e do façam. É exactamente por isto que a linearidade não pode — não deve, OK — servir nem como forma de orientação nem como princípio norteador. Por falar em nortear e orientar (todavia, go west, porque the west is the best), há álbum novo dos The Cult e, na segunda, tereis os GNR de há 30 anos na rtp memória.
No sítio do costume? O costume.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.
***
Lucy in the Sky with Diamonds
16 anos do assassinato de Politkovskaya e aniversário de Putin

Há 16 anos, no dia de aniversário de Vladimir Putin, Anna Politkovskaya era assassinada na escadaria do prédio onde vivia. A prenda de aniversário para Putin vinha da parte de Ramzan Kadyrov, na altura primeiro-ministro da Chechénia e hoje presidente desta república da Federação Russa. Kadirov, filho do grande mufti Akhmad Kadyrov, é um islamista, um delinquente como Putin, com um vasto passado de violência, assassinatos, tráficos lucrativos, etc. O acordo com Putin era simples. Kadirov fazia o que bem entendia na Chechénia, repressão, corrupção, tráfico, etc., mas tinha a obrigação de garantir o fim das pretensões separatistas. Putin, em troca, transferia fatias generosas do orçamento de estado para a Chechénia e para a conta de Kadirov. Anna Politkovskaya era uma voz inconveniente para este negócio, denunciou este acordo tácito entre os dois, bem como os esquemas criminosos em que estava envolvido Kadirov, denunciou ainda a repressão, a perseguição a homossexuais ou as restrições à liberdade das mulheres chechenas.
Mas o papel mais importante de Politkovskaya foi a denuncia bem documentada e detalhada da natureza do regime de Putin e em especial das forças armadas russas. O que o mundo tem estado a descobrir desde fevereiro já tinha sido escrito e documentado por Politkvskaya no início da década de 2000. Caracterizou a podridão instalada no regime de Putin ancorada numas forças armadas profundamente corruptas, onde a mentira é moeda corrente e a desumanidade tem como principais inimigas as associações de mães de soldados russos, as únicas que Putin não teve coragem de triturar até hoje. É graças a estas mães que Anna Politkovskaya tem acesso a processos judiciais contra variadas patentes das forças armadas, processos que raramente têm um desfecho. Esses preciosos textos plasmam uma hierarquia militar alienada da humanidade, violenta, acima da lei, onde o valor da vida dos soldados é praticamente zero e onde se mente, mente, mente, mente e mente sem freio. Descrevem-se com detalhe praxes militares de violência extrema, onde se morre, ou ainda a falta de material no campo de batalha da Chechénia, a falta de um teto ou de uma simples tenda para dormir, a falta de alimentos e de água, soldados que são obrigados a pilhar supermercados para ter o que comer. Estes textos ajudam a perceber bem a desorganização e o terceiro mundismo das forças armadas russas que constatamos nas reportagens que nos chegam da invasão da Ucrânia. O exército russo pouco evoluiu desde a II Guerra Mundial. Se na altura era compreensível que o sucesso das forças armadas da URSS dependesse muito da massa humana, ancorado em perdas de imensas vidas humanas, já no século XXI isso não é aceitável.
Bolsonaro subsídio-dependente

Na Segunda-feira, dia imediatamente a seguir à primeira volta das eleições brasileiras, o governo Bolsonaro anunciou a antecipação de prestações sociais.
A extrema-direita a antecipar prestações sociais para fazer campanha, precisamente aquilo de que acusa a esquerda de fazer.
A extrema-direita que demoniza prestações sociais, com o seu discurso moralizador e punitivo sobre aqueles “que não querem trabalhar” e preferem “mamar do Estado”.
A usar o Estado, que quer pequeno, para fazer campanha.
O Estado e os recursos do Estado.
Dinheiro dos impostos dos brasileiros.
Que Bolsonaro e os seus apoiantes dizem querer cada vez mais baixos.
Como destruir a propaganda bolsonarista em 80 segundos
"A sua fonte é o Whatsapp, a minha é o jornalismo".
— Amanda Lima (@amandalimajor) October 3, 2022
Noite eleitoral na @cnnportugal
📺#EmTodasAsFrentes #Eleicoes2022 pic.twitter.com/i1lFZNxLLC
A jornalista brasileira Amanda Lima, mostra como se faz. Pega na notícia falsa, confronta-a com declarações oficiais e públicas que destroem por completo a mentira, e termina reduzindo o elemento bolsonarista a mero receptor/emissor de propaganda veiculada via WhatsApp, no questions asked. Isto sim, um conteúdo a considerar seriamente para o programa curricular de qualquer disciplina de Cidadania nas escolas. Pedagogia anti-fascista. Haja alguém que a faça.
Elon Musk fala putinês

Mas a direita não o tenta cancelar. Porque o fascínio por quem tem muito dinheiro e negócios altamente lucrativos, ainda que financiados com milhões de dólares do Tesouro americano, se sobrepõe SEMPRE a “questões menores”. O mesmo motivo que a faz berrar contra o comunismo para de seguida se transformar num fofinho cachorrinho bebé, quando lhe perguntamos se devemos fechar a porta daa democracias liberais a mão de obra escrava – mas extremamente rentável – que Pequim vende aos seus heróis e financiadores. Talvez a solução seja o PCP convidar Musk para actuar no Avante 2023.
Extrema-capitalista

Liz Truss, antiga avençada da Shell e defensora acérrima do capitalismo na sua forma mais desregulada e predadora, definiu como prioridade máxima, imediatamente após chegar ao n°10 de Downing Street, um enorme corte nos impostos, que tinha como principais destinatários os mais ricos entre os mais ricos. No entender da sucessora de Boris Johnson, tal decisão alavancaria a economia para o benefício de todos. Trickle down economics bullshit all over again.
Notem antes de mais, senhoras e senhores, que cortar impostos a direito, beneficiando as elites e reduzindo as receitas fiscais que permitem ajudar os mais desfavorecidos, é, segundo a narrativa dominante, sinónimo de moderação. Todos sabemos que exigir justiça fiscal é radicalismo a fugir para o extremismo, ali no mesmo patamar que o racismo, a xenofobia, a censura e a perseguição de minorias. A mesmíssima coisa. Tem feito um excelente trabalho pela democracia e pela generalidade das pessoas, esta moderação.
Adiante.
Sobre mulheres extraordinárias
Today in Iran, schoolgirls remove their compulsory hejab and chant “death to the dictator” while stomping on the photos of their rulers https://t.co/ipQPSZhsvC
— Karim Sadjadpour (@ksadjadpour) October 3, 2022
Entretanto, no Irão, a coragem chegou às escolas. Não vão ser fácil, travar o “sexo fraco”…
TAP, Todos A Pagar…
Nada tenho a opor quando uma empresa decide adquirir para os seus administradores e directores de topo, uma frota automóvel a condizer com o estatuto da empresa. É discutível que uma empresa em dificuldades financeiras opte pela marca BMW, diria que a imagem não condiz com a realidade, mas ainda assim, continua a ser uma decisão da empresa, que terá de lidar com as consequências da sua gestão.
Quando a empresa é pública, o caso torna-se político, desde logo porque a administração responde ao ministro que a tutela. Ao acrescentar que a empresa é a TAP, que terá encomendado uma frota de 79 viaturas de marca BMW, quando soma já nesta altura 3,2 mil milhões de Euros de resgate com dinheiro do contribuinte, o acto de gestão torna-se pornográfico.
Não adianta virem sequer com a desculpa que optaram pelo renting, aluguer operacional das viaturas, pelo qual se pagam mensalidades, porque anteriormente já o faziam. Mas até agora tinham frota Peugeot e passam para BMW, quando, face ao momento financeiro da empresa pública, existem várias opções menos dispendiosas no mercado.
Mas sabe a administração da TAP, que as suas decisões não assumem riscos de maior, podem sempre contar com o aval político do ministro e com o bolso sem fundo do contribuinte luso…
Viva a República!

Isso dá Monarquia é muito bonito para quem gosta, e dá bom material para as revistas Caras deste mundo, mas se é para escolher, prefiro a República. Até porque a República permite-me escolher. Não me condena a ter que levar com malta que nasceu com o direito de ser mais que os outros. Se os eleitores por vezes escolhem políticos corruptos, ou tratantes de outras artes larápias, a culpa não é da República. Não faltam tratantes nas famílias reais. É ela por ela. De maneira que, senhoras e senhores, tenho a dizer-vos o seguinte:
Viva a República!
A Terra vista de Marte
Esta foto do rover Curiosity da NASA mostra a Terra vista da superfície de Marte, brilhando mais do que qualquer estrela no céu nocturno marciano. Pode ter sido num momento em que o Putin estava a rebentar com a Ucrânia.
Só para recordar
Só para recordar, o “resgate” da Troika custou ao país 78 mil milhões de euros. Banca já custou 28% deste valor.
É só fazer as contas e lembrar a conversa sobre viver acima das possibilidades, como disse o homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas.
Quem é que a Troika veio mesmo salvar? E quem é que andou a viver acima das possibilidades? Ficam estas questões retóricas para quando o próximo pantomineiro lhe apontar o dedo.
É Lula

Se tivesse que escolher entre uma porta e um Bolsonaro para presidente do Brasil, escolheria a porta sem pestanejar. Escolher o Lula é fácil, mas escolher um liberal ou um conservador de direita que se opusesse à agenda do ódio, do fanatismo e da violência seria igualmente fácil.
Na pior das hipóteses existe sempre um mal menor. No caso, o mal menor é o antigo presidente que mais oportunidades criou para os mais desfavorecidos, que mais brasileiros tirou da miséria, que mais saúde, educação e esperança deu aos mais pobres entre os mais pobres. Uma porta, repito, seria melhor que Jair Bolsonaro. Lula da Silva, caso seja eleito, não será apenas melhor. Poderá muito bem ser a solução para apaziguar um Brasil dividido pelo extremismo bolsonarista.
Neste momento, Lula lidera por curta margem, cerca de 3%, mas a segunda volta parece inevitável. Estou fora, racho lenha, mas não tenho a mínima dúvida sobre qual é a minha trincheira: é Lula.
Sem rumo
“Don’t argue with me, Hemingway,” Miss Stein said. “It does no good at all. You’re all a lost generation, exactly as the garage keeper said.”
— Hemingway, “A Moveable Feast“
***
Felizmente, o jornal A Bola deixou de ter Vítor Serpa ao leme dos seus destinos. De facto, não lembra a um cacodemónio ter como timoneiro, num Portugal moderno, uma pessoa que faz a apologia da resistência silenciosa como forma de luta: quer em abstracto, quer, obviamente, no caso concreto, em relação ao AO90.
Além disso, trata-se de alguém que interpreta como geracionais comportamentos sui generis de indivíduos também eles, no seu direito, peculiares. Ora, o comportamento de Bruno de Carvalho é exclusivamente dele e não conheço estudos com amostras da população nascida em 1972 (da qual também faço parte) através dos quais se demonstre que os actos concretos indicados por Serpa relativamente a Carvalho sejam representativos de um comportamento geral da nossa geração.
Quanto à lógica dos raciocínios de Serpa, divirto-me, confesso, no labirinto do texto de despedida. Sabemos que eterno significa aquilo que não há-de ter fim, que dura sempre (se teve principio ou não, essa é outra questão). Todavia, no tal Portugal moderno há pouco mencionado, ler no mesmo texto “nenhum poder deve ser eterno” e “mais de trinta anos depois de ter assumido o cargo” dá-me tanta vontade de rir como a diferença entre a grafia anunciada e a grafia adoptada pelo jornal A Bola.

Serpa deixou de ser director, é certo, mas as recaídas, graças a Zeus e a todos os deuses, mantêm-se.
Desejo-vos uma óptima semana.
***
Lula lá
O Brasil vai a votos este domingo, dia 2 de Outubro, para decidir quem será o próximo Presidente da República e quem ocupará os restantes cargos públicos do maior país da América Latina. Amanhã há-de ser outro dia.
Todas as sondagens são claras: a decisão dos mais de 150 milhões de eleitores brasileiros recairá entre o candidato da extrema-direita miliciana e autoritária, saudosista da ditadura militar e apoiado por boa parte do (sempre muito democrata até os seus interesses serem postos em causa) centrão, Jair Bolsonaro, recandidato à eleição, e Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente que se apresenta às eleições suportado por uma ampla base de apoio que vai desde a esquerda mais consequente (de onde Lula vem, de resto) até setores do centro-direita que apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff (e alguns até a candidatura de Bolsonaro) mas, como bons acrobatas que são, perceberam qual é o melhor lado para se estar neste momento.
Esta é, provavelmente, a mais importante eleição do século no Brasil. Depois do golpe contra a Presidenta eleita e sucessora de Lula, Dilma Rousseff, depois do rearranjo induzido de forças sob a égide do golpista Michel Temer, que preparou tímida mas adequadamente, com a ajuda das seitas evangélicas e de um poder judicial cooptado, o terreno que levaria à eleição fácil de Bolsonaro, os brasileiros têm a oportunidade de acabar com o pesadelo bolsonarista e de retomar o caminho de progresso e desenvolvimento iniciado por Lula da Silva em 2002. Os brasileiros têm a oportunidade de tirar do mais alto cargo do país a sinistra figura responsável pelo incremento da violência racista nas ruas brasileiras, pelo maior desmatamento da Amazónia nas últimas duas décadas, pelo regresso dos militares à cena política, pelo índice de mortalidade extraordinariamente alto na pandemia, fruto dos descasos e irresponsabilidades grosseiras (a “gripezinha” que se tratava com cloroquina e da qual ninguém morria), pelo descrédito internacional do Brasil (é interessante, neste ponto, recuperar a feliz declaração de Chico Buarque: “Eu gosto do governo do PT porque ele não fala fino com os EUA nem fala grosso com a Venezuela.”), pelo regresso do país ao mapa da fome, de onde Lula e as suas políticas públicas o haviam tirado.
O Brasil de Chico e Elis, de Drummond e Cartola, de Vinicius e Caetano, de Clarice e Niemeyer, de Sócrates e Elza é o Brasil popular, o Brasil da favela com orgulho, do samba no morro e comida no prato, de porta aberta e voz doce. É o Brasil multicultural e inclusivo, esperançoso e decente. É o Brasil que hoje se levanta contra o Inominável, pela democracia, pelos direitos sociais, pela maioria popular. É o Brasil dos que “acreditam nas flores vencendo o canhão”. É o Brasil que vai tirar o miliciano do Planato e o vai pôr na prisão, pelos crimes contra a humanidade que cometeu. E no primeiro turno.










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