André Champalimaud Mello Ventura

Champalimaud e Mello são duas famílias que têm em comum a ligação ao Estado Novo. Receberam de Salazar o favor do tráfico de influências e da corrupção política que não aparecia na estatísticas porque as estatísticas eram aquilo que o regime fascista quisesse.

Não vou maçar-vos com detalhes sobre as ligações e compadrios das duas famílias com a ditadura salazarista ou com o centrão da porta giratória. Existe boa literatura que o fará bem melhor que eu e, querendo, até vos posso sugerir alguma.

Mas vou dizer-vos isto: alguém vai ter que explicar aos chorões do CH, devagarinho e se possível com desenhos, que São Ventura não é anti-sistema, muito menos líder de um partido “contra as elites”. Tal como Salazar nunca o foi. André Ventura e o CH têm entre os principais financiadores vários membros das famílias Champalimaud e Mello, que são tudo menos anti-sistema. São, isso sim, o próprio sistema. São a elite das elites. A elite dos negócios com o Estado em que a elite sai a ganhar e o contribuinte a perder. Basta ver quem anda por aqueles conselhos de administração para perceber isso mesmo. E chegará o dia em que Ventura e seus correligionários lá estarão, juntamente com os utilitários de PS, PSD e CDS. Até porque como agora já sabemos, as famílias Mello e Champalimaud não precisam de continuar a esconder que financiam a extrema-direita que quer brutalizar a democracia, mas que será sempre mansinha e obediente à elite que lhes paga cartazes.

A farsa democrática em Bruxelas segue dentro de momentos

Durante 20 anos, Vladimir Putin foi o fornecedor de energia que garantiu o crescimento económico extraordinário que a Alemanha conheceu. Já era o que é hoje, já matava e invadia, já reprimia a oposição e enriquecia a oligarquia, mas o Ocidente não tinha dúvidas: Putin era um dos seus.

Agora que o mesmo Putin já não é um dos nossos, a União Europeia decidiu virar-se para Ilham Aliyev, o seu novo trustworthy energy supplier, que mais não é que um Putin mais pequenito, que governa o Azerbaijão como se fosse o seu quintal. Tem a sua oligarquia, tortura e fuzila opositores, viola direitos humanos, não permite eleições livres, controla a imprensa e promove o nepotismo a ponto de ter sucedido ao pai e de ter a sua própria mulher como vice-presidente do país. E, na falta de ucranianos para massacrar, massacra arménios, malta de quem em princípio ninguém quer saber. Era o que mais faltava, pôr em causa o negócio por causa de meia-dúzia de arménios.

Está de parabéns, a tia Ursula, e a democracia respira de alívio.

Foi preciso apenas uma hora para nada decidir

Foi preciso apenas uma hora para que o primeiro-ministro e o PSD anunciassem uma “convergência” sobre o método adoptado para se avançar para a construção do futuro aeroporto em Lisboa. Estão previstas obras no aeroporto Humberto Delgado e a criação de duas comissões (uma técnica independente e outra de acompanhamento) com um coordenador-geral, que irá elaborar uma avaliação ambiental estratégica sobre possíveis localizações, incluindo a de Santarém. O trabalho deverá estar concluído dentro de um ano. (PÚBLICO, 2022/09/23)

Mais uma remessa de avençados durante um ano, para já, para avaliar, acompanhar, et cetera.

Esteve presente nessa reunião de uma hora o ministro sombra das infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, possivelmente a fazer corpo presente enquanto ouvia Luís Montenegro, que agora diz coisas.

Não sei se é preciso ou não aeroporto. Mas sei que este tema arrasta-se tão devagar que quando a decisão chegar, se chegar, poderá dar-se o caso da escolha surreal do Montijo já estar debaixo de água, tal como vêm avisando os oráculos das alterações climáticas.

Costini, como lhe chama João Miguel Tavares, nos seus passes de mágica, feitos de empurranços com a barriga. Claro que não são truques, sr. Primeiro-Ministro. Poderia algum vez V. Ex.a ser capaz de tal coisa?

O estranho caso da aliança entre Montenegro e Ventura

Miranda Sarmento, líder da bancada parlamentar do PSD escolhido por Luís Montenegro, apelou aos seus colegas conservadores para votarem no candidato da extrema-direita para a vice-presidência da AR, alegando tratar-se de uma prática parlamentar, pese embora aquilo que está consagrado no regimento seja apenas a possibilidade de propor alguém para lugar, cabendo aos deputados decidir se aprovam ou não.

E se o critério são práticas parlamentares fundadas na tradição, seria de esperar que a maioria dos deputados do hemiciclo, incluindo os parlamentares do PSD, se mantivessem fiéis aquela outra que se traduz na boa velha máxima, “fascismo nunca mais”, mantendo a robustez do cordão sanitário à volta dos herdeiros da ditadura salazarista.

[Read more…]

António de Oliveira Salazar e BE, a mesma luta?

 

 

Nos tempos que correm muito se tem falado sobre os lucros extraordinários de grandes empresas. Esta matéria tornou-se bandeira para o BE. O curioso é que nos anos quarenta o então governo (presidido por Salazar) taxou lucros extraordinários (a empresas e a pessoas).

Deve estar com um sorriso de orelha a orelha.

O que é preciso é ter saúde

Não conheço bem Fernando Araújo, nem sei o que poderá acrescentar politicamente. E confesso que a terminologia de CEO, num serviço público, me faz alguma confusão.

No entanto, do pouco que conheço das ideias do antigo Secretário de Estado-Adjunto da Saúde, se conseguir, como pretende, alargar o SNS ao serviço da saúde oral (e se alargasse essa sua ideia à psicologia, ganharia mais pontos) e contratar mais profissionais (se fosse em exclusividade – facultativa, como alguns partidos propõem -, tanto melhor), já dará alguns passos para que a rota lamacenta por onde os sucessivos governos PS/PSD/CDS conduziram o serviço público de saúde (e para onde as novas forças radicais de direita, o CH e a IL, as querem levar à força) seja transviado.

Mas, com a denominação de CEO, temo que se abram, ainda mais, as portas aos privados, entregando, como já acontece, quase metade do Orçamento de Estado destinado à saúde ao negócio da saúde privada. Se Manuel Pizarro não oferece garantias neste parâmetro, a bem que as ofereça Fernando Araújo, que terá, diz-se, autonomia na gestão.

Esperemos que não se confirme a destruição do SNS e que Fernando Araújo consiga distanciar-se dos lobbies que assolam, hoje, o Estado português, do qual as forças neo-liberais são capatazes. Desconfio que não conseguirá, mas dar-lhe-ei o benefício da dúvida.

Fernando Araújo. Fotografia: Nelson Garrido.

Descansa em paz, imprensa portuguesa

Morreu a Acácia do André Ventura e a credibilidade de todos os órgãos de comunicação social que consideraram isto uma notícia e entraram em modo revista Maria. Descansem em paz. Todos sentiremos a vossa falta, em particular naquele tempo em que faziam jornalismo.

Marxismo liberal

Até a liberalíssima Holanda se prepara para taxar os lucros inesperados das energéticas e limitar aumentos futuros no preço do gás e da electricidade. Ou, traduzido para o idioma da direita radical portuguesa, “Venezuela”.

Sim, leram bem: Mark Rutte, líder do paraíso fiscal no centro da Europa, quer taxar lucros excessivos e fixar preços administrativamente, em total desrespeito pelo “mercado livre” (lol) e pela mão invisível do Adam Smith.

A direita portuguesa e o os “socialistas” (mega-Lol) estão cada vez mais isolados. E suspeito que não haverá cadeiras para todos no conselho de administração das Galps e das Iberdrolas. É bem feito.

E raparigas? São o resto…

Lisboetas para mim eram todos abatidos

Troquei intencionalmente a palavra “ciganos” por “lisboetas” de um comentário feito no mural de um português cigano a propósito de uma publicação sobre o Dia Nacional do Cigano. Apreciem a elegância do comentário: “Eu sou racista com ciganos e tenho orgulho em ser assim… Ciganos por mim eram todos abatidos”. Podem constatar no recorte abaixo, a conclusão da queixa que foi feita ao Ministério Público assinada pelo procurador-adjunto estagiário Pedro Sousa Ferreira.

Não perceber que isto diz respeito a toda a gente, aos ciganos, aos lisboetas, aos portuenses, aos deficientes, às mulheres, aos jovens, aos idosos, não perceber que isto é uma porta aberta para tornar a nossa sociedade mais desumana e mais carregada de ódio, pensar que isto diz apenas respeito aos ciganos é um erro colossal. Substituam a palavra ciganos pelo que quiserem e têm todas as formas de ódio possível da sociedade normalizadas pela mera “opinião”. E que tal “velhos por mim eram todos abatidos”? É uma mera opinião? O Ministério Público está atualmente a analisar a possibilidade de reabertura do processo para reanálise da decisão. Mas nós nestes espaços, no espaço público temos a responsabilidade de repudiar completamente estas agressões. Tal como foi conseguido no caso dos julgamentos abusivos de Neto de Moura sobre mulheres vítimas de maus tratos, temos que contribuir para afastar quem na justiça não cumpre os valores básicos da constituição portuguesa.

Já agora, em vez de andarmos a partilhar notícias engraçadinhas sobre a morte coelha do principal responsável pelo aumento de declarações de ódio no nosso espaço público deveríamos barrar as vias à normalização desse ódio.

Jair Bolsonazi e Silas Malafacho

Que Jair Bolsonaro é um fanático religioso já todos sabíamos, mas levar o ayatollah Malafaia para o funeral da rainha foi mais uma prova da teocracia que pretende impor no Brasil, até porque o pastor fundamentalista não desempenha qualquer função que o torne elegível para marcar presença num funeral de Estado. Silas Malafaia agradece e põe o seu exército pessoal de jihadistas cristãos a distribuir propaganda da extrema-direita no final da missa. Brasil e Irão, a mesma luta.

O interesse dos referendos regionais para Putin

Entre outros anúncios, Putin mostrou hoje pressa na realização de referendos nas regiões ocupadas, sabendo-se, de antemão, que a chamada comunidade internacional, seja qual for o desenlace dos mesmos, nunca os validará nem atenderá aos seus resultados.
Qual, então, o interesse de Putin na sua realização?
Quatro vejo muito claramente sem complexas ilações:
1 – Para consumo interno dos seus cidadãos, poderá anunciar que a “operação especial” está concluída, entrando na fase de defesa do território da própria Federação Russa a partir do momento em que integre essas regiões;

2 – Qualquer contra-ofensiva da Ucrânia, no futuro, a esses territórios na tentativa de os reaver, será encarada pela Rússia como um ataque ao seu país;
3 – Todo e qualquer equipamento militar usado oriundo dos países da OTAN será entendido como uma declaração de guerra da OTAN à Federação [Read more…]

Somos?

Since Spanish spirantization and English flapping both affect /d/ intervocalically, the acquisition of the/d/-/ɾ/ contrast proves difficult for English learners of Spanish.
— Herd, Jongman & Sereno (2013)

***

Somos isto, aquilo e aqueloutro (tosse sabática), mas não houve Stones e não haverá Fórmula 1. Por falar em música, já sabia que o Maher à superfície era um /mɑːr/ profundo, agora, não sabia era que o Marr é, efectivamente, Maher.

***

O que fazer com 125 euros?

“Nosso Senhor não é mouco!”, disse a beata-mor

Persona 1 – Profissional feminino de igreja – no sentido depreciativo tão bem definido pela Infopédia – dando-se ares de sua dona, tem um ar acentuadamente masculino: na forma como se move, nos gestos, no corte de cabelo curto, no ar alegadamente piedoso como se curva profundamente perante o altar-mor da Igreja dos Terceiros, a arrogância de certas atitudes, o tom de voz…
Persona 2 – Uma pobre mulher, que se lhe vê nos sacos de plástico e na forma como os acarreta no suor de uma manhã de Verão exagerado, no ar doente, de maladias diversas e de diversos foros, desde logo o mental, no tom de voz que se afazeu desagradável na vida que o universo a obrigou a levar e lhe retira o sossego com que tem direito a viver, todos – aliás – temos direito a viver. [Read more…]

O Capitão e a Rainha

Sabem quantos dias de luto nacional foram decretados quando o capitão Salgueiro Maia faleceu?

Zero.

Zero dias de luto nacional pelo homem que desceu a Rua do Arsenal desarmado e enfrentou os tanques de Junqueira dos Reis.

Assim elogiou Portugal um dos grandes heróis da democracia, o que não surpreende, ou não fosse Cavaco Silva primeiro-ministro, o mesmo que atribuiu pensões vitalícias a ex-PIDEs e a recusou a…. Salgueiro Maia.

Agora, 30 anos depois da morte do último grande herói, assisto, perplexo, ao decretar de 3 dias de luto nacional pela rainha de Inglaterra, sem perceber muito bem porquê. Ou talvez se perceba: o luto nacional, como outras ferramentas protocolares ao serviço de quem governa as várias instituições deste país, não passa de um privilégio que os privilegiados usam para privilegiar as suas castas. Corrijam-me se estiver enganado, mas não me recordo de nenhum serviço prestado por Elizabeth II à REPÚBLICA portuguesa que justifique tal honra.

Vocês recordam?

A verdade, inegável, é que este país deve mais a Salgueiro Maia do que à rainha, ao Cavaco, ao Costa e a toda a casta de privilegiados que se privilegia entre si. Todos juntos não valem uma unha do capitão.

É o que é.

Portugal é considerado o oitavo país da UE com maior risco de pobreza e exclusão social. Continuamos a nossa corrida para a cauda da Europa e quem paga a fatura são os que menos culpa têm. A não ser que culpemos os pobres que este país cria por votarem sempre nos mesmos, mas isso seria uma cobardia.

Vivemos num país em que as questões políticas caem sempre numa luta de trincheiras em que tudo se divide entre direita e esquerda. Como se fossem ideologias as responsáveis de o país ter de enfrentar estas notícias. Portugal é um país dividido em dois, sendo que um bloco se beneficia internamente, independentemente da competência, pois há competentes e incompetentes. O outro bloco é o tal que paga a fatura: os pobres. E este país não foi feito para os pobres. Não é ser de direita ou de esquerda que muda isto, mas sim o facto de termos um Estado que se confunde com dois partidos centrais, empresas que vão trocando favores com o Estado central, uma porta giratória de interesses. Numa entrevista, Rui Veloso dizia que a arte em Portugal era, principalmente, constituída por medíocres que se vão elogiando e premiando uns aos outros, porque só assim podem sobreviver. Não é só na arte, estende-se ao resto. Por muito que queiramos culpar uma ideologia por isto para defender os nossos, estamos só a alimentar um problema que não é de hoje.

Há uma enorme falta de empatia da classe política e isso só deixa o povo mais afastado. Da mesma forma que sei que tenho menos oportunidades do que um indivíduo sustentado por pais ricos até aos 40, também sei que tenho mais oportunidades do que um rapaz que nasceu no bairro e que tem de trabalhar desde os 16. Cabe ao Estado garantir que todos tenham acesso às ferramentas essenciais para poderem singrar e realizar-se enquanto pessoas. Se o Estado não serve para isto, então não serve para nada além de servir as suas clientelas.

Nesta luta contra um Estado que não cumpre a sua função essencial e ainda esbanja consoante quer e ainda engana as suas pessoas, precisamos de lucidez, acima de tudo. E os liberais têm tudo para conseguir liderar esta luta, desde que não se resumam a serem bajuladores dos EUA como muitos que por aí andam. Para sair da pobreza, é preciso uma mudança estrutural, porque não devemos obrigar ninguém a fazer um esforço para lá de humano para sair de uma situação de risco.

Poucos defendem o Estado Social como os verdadeiros liberais. Mantenhamos essa luta, focados na causa e longe de caminhos fáceis. É importante lutar contra a pobreza, com empatia e com consciência social.

Adriano Moreira e Otelo Saraiva de Carvalho

 

Decidi não alinhar na mais recente imposição do politicamente correcto, que tentou, nos últimos dias, exigir a canonização em vida de Adriano Moreira.

Não percebo, excepto à luz de um inexplicável delírio colectivo, como é que órgãos de comunicação social, dirigentes políticos e outras figuras proeminentes da sociedade conseguiram pintar Adriano Moreira como um indefectível humanista e democrata.

O Adriano Moreira do lusotropicalismo.

O Adriano Moreira do Estado Novo.

O Adriano Moreira ministro de Salazar.

O Adriano Moreira que reabriu o campo de concentração do Tarrafal, onde a crueldade, a tortura e a morte serviram o fascismo.

Humanismo?
Democracia?

Não brinquem comigo, se fazem o favor.

Acredito que Adriano Moreira se possa ter arrependido do caminho feito ao serviço da ditadura salazarista. Que os 48 anos que se passaram desde então lhe tenham mostrado a verdade sobre o regime tenebroso que integrou, por sua livre e espontânea vontade. Mas não me venham impor versões alternativas da história. Não venham os mesmos que não há muito tempo demonizaram Otelo Saraiva de Carvalho, obrigar a plebe a venerar Adriano Moreira. Otelo fez mais pela democracia que um milhão de Adrianos Moreiras. E não por isso escapou à cruz pelo seu envolvimento com as FP-25.

O dia em que o PCP votou por Orbán

O PCP é como o algodão, não engana. Agora venham de lá esses comentários de que isto faz parte de uma campanha que visa destruir e aniquilar o PCP. Não é preciso, O próprio PCP e os seus dirigentes a fazem esse trabalho. Com denodo.

O horrível equipamento da selecção e outras questões menores

O equipamento da selecção para o Mundial é horrível?

Talvez seja.

Ainda assim não tão horrível como os 6500 trabalhadores que morreram na construção dos estádios do Mundial, explorados, traficados, sem condições de segurança, mínimos de dignidade e não raras vezes em regime de escravatura.

Nem tão horrível como a legitimação de uma monarquia absoluta e totalitária que em pouco ou nada se distingue do Kremlin nos métodos, onde ser mulher é não ter direitos, ser homossexual é ilegal e assumir uma religião que não o Islão dá pena de prisão até 10 anos.

Ou tão horrível como a hipocrisia daqueles que se indignam com regimes onde a sharia é lei, excepto quando estão em causa ditaduras como a Qatari, onde a sharia também é lei e prevê penas como a flagelação e a lapidação.

A diferença?

[Read more…]

Somos liberais e não sabemos?

Segundo dados da Eurostat (gráfico em baixo), há cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão social (22,4%). Os números agravam-se quando falamos de idosos. E, se pensarmos que somos dos países mais envelhecidos da União Europeia, ainda pior se torna o cenário. Já a média da UE situa-se nos 21,7%.

As pensões não sobem por aí além, os salários são baixos e tendem a estagnar. Acresce a isto uma carga fiscal desmedida sobre a classe média e uma fraqueza/laissez faire incompreensível com quem lucra milhões com a mão de obra barata. Pagamos a nossa própria pobreza, enquanto uma minoria vai comendo a maior parte do bolo (dica: não são os ciganos do RSI ou os desempregados).

Hoje em dia, e cada vez mais, assistimos a uma distribuição deficiente do bolo económico. Há cada vez mais ricos e, por contraponto, cada vez mais pobres. E só quem for inocente achará que entre uma e outra tendência não existe correlação. Só a título de exemplo, a fortuna dos bilionários cresceu 60% desde 2020 (cerca de 5 triliões de dólares), ao mesmo tempo que aumentou a pobreza no mundo. A isto, acresce a notícia que nos diz que há mais de 50 milhões de escravos espalhados pelo mundo. [Read more…]

Um PS à direita da direita

No debate do Estado da União Europeia, uma espécie de Estado da Nação comunitário, Ursula Von Der Leyen defendeu a aplicação do badalado windfall tax às energéticas – ao qual António Costa e a sua maioria parlamentar insistem em resistir – e a flexibilização das regras orçamentais, para que não se repita o desastre que foi a resposta à crise do subprime e das dívidas soberanas. Mais do que defender esta ideia, a presidente da comissão foi mais longe e anunciou um windfall tax comunitário, com o qual espera arrecadar 140 mil milhões de euros.

Por cá, o líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, defendeu há dias que existem alternativas ao windfall tax, sem especificar quais. Eis o “socialismo” português em todo o seu esplendor: uma espécie exótica que se coloca à direita dos conservadores em matéria de políticas redistributivas, no momento em que elas são mais necessárias. Agora façamos um minuto de silêncio por todos os doutorados da universidade da vida que garantem que o PS está tomado pela esquerda radical.

Oremos.

Uma brecha na realidade

Há quem goste de presumir distracção, como se um certo distanciamento das coisas do mundo, alguma incompatibilidade com o material, conferissem elevação e nobreza de espírito. Eu sou uma dessas pessoas, naturalmente. Nem valeria a pena vir atirar pedras se não me dispusesse a levar com alguma. Mas isto para dizer que, embora uma certa incompatibilidade com aspectos práticos continue a manifestar-se, tenho feito um longo caminho que me permitiu aprender a fazer coisas tão improváveis como verificar a pressão de pneus, abrir tampas de xarope à prova de crianças (não foi fácil) ou usar um ferro de soldar (nem perguntem).  [Read more…]

O pobre da Jonet

O pobre também é uma pessoa e as pessoas são todas diferentes umas das outras, normalmente para pior. Há pobres e pobres, naturalmente, mas já lá iremos.

Para os privilegiados como eu, o pobre é uma abstracção que, às vezes, sai da sombra das ideias distantes e aparece nas esplanadas, a fazer aquelas coisas de pobres, como não ter tomado banho ou pedir dinheiro, que é algo que os pobres insistem em não ter, como o banho.

A consciência do meu privilégio obriga-me, de uma maneira geral, a perceber que mal posso imaginar o que seja ser pobre, porque, entre uma ou outra dificuldade, a comida está no prato e o colchão não é nada mau. Do mesmo modo, aprendi a ter vergonha de usar a palavra ‘fome’, quando o meu mal é ter saltado uma ou outra refeição porque fiquei à conversa com um amigo que, não por acaso, raramente é pobre.

Ser pobre implica, imagino eu, depois de raciocinar, ter dificuldades em pagar contas. Mais: implica frequentemente não conseguir pagar contas, negociar adiamentos, pedir empréstimos baixíssimos para ter luz em casa. O pobre e o dinheiro existem, mas raramente coexistem: onde está um, não está o outro, num jogo das escondidas em que o dinheiro raramente aparece, fugindo divertido enquanto o pobre está encostado a contar até dez, antes de ir à procura de um adversário tão esquivo.

[Read more…]

Ainda bem que não somos os EUA

Luís é um professor português que decidiu visitar Nova Iorque. Tragicamente, sofreu um aneurisma durante a estadia, foi internado e operado nos EUA e adquiriu imediatamente uma divida de 150 mil euros, porque o seguro só cobre até 30 mil.

Não sei quanto a vós, mas democracia americana, com a maior economia do mundo e o pior sistema de saúde público do mundo desenvolvido é, em bom rigor, uma democracia de merda. E o exemplo acabado daquilo que nos acontecerá se nos deixarmos levar pelo conto do vigário neoliberal, que tudo quer privado.

E sim, até o nosso SNS é melhor que aquela porcaria que eles lá têm. Mesmo de rastos, mal gerido e descapitalizado como está agora. Mil vezes melhor.

Mil.

Braga, um município de interesses

Diz-me alguém anormalmente bem informado no coração da cidade, em quem acredito porque devo e não porque seja levado a credenciar intrínseca ou extrinsecamente, que uma Junta de Freguesia de Braga interpôs recentemente uma acção contra o Município, devido a constantes atropelos da edilidade, exemplarmente por omissão ou por inconformidade entre os interesses do munícipe e os do dono do bar, aliás os dos donos dos muitos bares e os muitos munícipes, da zona histórica, donde, aparentemente, a Câmara quer expulsar os moradores que pagam IMI e portagem anual para aceder às garagens das suas residências.
E, se falo em IMI, é porque os moradores da zona histórica de Guimarães, por exemplo, não pagam IMI, algo a que Braga fugiu, vá lá saber-se porquê e com que intenção subliminar, tendo – como tem – uma zona com passado histórico bem propínquo ao da civitas rival minhota, quiçá mais importante que o vimaranense. [Read more…]

Tanto lês, que treslês.*

 

 

O actual Sr. Presidente da República de Portugal, Sr. Professor Doutor Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa (sim, o respeitinho é muito bonito, e eu não quero ser sujeito a qualquer processo……), estava no Brasil quando foi anunciada a morte da Rainha de Inglaterra. Pergunta-se se foi à nossa Embaixada fazer a comunicação oficial do Estado Português sobre a morte da Chefe de Estado Isabel II, ou se a fez na rua.

E é isto. 

*Ditado popular português

Carlos III, o (verdadeiro) Recordista

Vejo muita gente falar no longuíssimo reinado de 70 anos de Isabel II, só ultrapassado pelos 72 anos de Luís XIV – reza a história, não temos como verificar – mas ninguém fala no recorde absoluto do príncipe Carlos, agora Carlos III, que esperou 70 anos para ser rei. E esse, meus amigos, ninguém lho tira. Pelo menos durante o vosso tempo de vida. Embrulhai, príncipes e princesas deste mundo.

London Bridge is falling down

À vista desarmada do comum plebeu, o protocolo London Bridge, planeado ao micromilímetro para garantir que as exéquias de Isabel II decorreriam de forma imaculada, estava em curso desde a manhã de Quinta-feira, pese embora o seu planeamento estivesse a ser preparado e limado há muitos anos. A família mais próxima a caminho de Balmoral, as declarações da sua equipa de médicos em crescendo de preocupação até ao anúncio oficial no final da tarde e até o Huw Edwards da BBC, de fato e gravata preta a apresentar no noticiário da uma, tudo apontava para o inevitável desfecho. É possível até que a rainha tivesse falecido durante a noite anterior, mas ainda não tinha chegado o momento de o anunciar, precisamente por haver um protocolo a seguir. Longo foi o seu reinado, como sempre se deseja nas monarquias sólidas, mas nem Isabel II era eterna. Nem verdadeiramente soberana. Era – sempre foi – refém do protocolo. Até na sua morte.

[Read more…]

A minha Isabel II

Ponto prévio: a primeira de todas as Isabéis é a minha avó, que aparece aqui fotografada num dos seus muitos esplendores.

Não sou insensível a contos de fadas, até porque fazem parte da minha formação, sendo que, a partir de dada altura, tive de fazer um esforço para que não fizessem parte da minha deformação.

Não aceito, de qualquer modo, que esses contos de fadas sejam queimados em autos-de-fé politicamente correctos, porque também não me passa pela cabeça que as pirâmides egípcias sejam arrasadas para que os escravos ou os crentes (outra maneira de se ser escravo) que as construíram sejam compensados pelas vidas que perderam mesmo antes de morrer. É preciso aprender a viver com contos de fadas.

A rainha Isabel II, falecida de fresco, e a sua família fizeram parte de um conto de fadas com pessoas reais, que acompanhei na minha infância, em fotografias de jornais e de revistas cor-de-rosa. Como qualquer romântico incurável, maravilhei-me com casamentos que pareciam ter trazido os filmes da Disney para a realidade.

Depois, cresci devagarinho, descobrindo a humanidade dos divórcios, a inevitável fealdade da política (que não a torna menos necessária) e o parasitismo de mais uma família que era também uma atracção turística. [Read more…]