Pandemia climática

Um ano depois, a sociedade, a economia, a política e o mundo em geral continuam reféns da crise pandémica, resultante do surto da SARS-CoV-2, a.k.a. covid-19. Lá longe vão os tempos dos arco-íris, do “vai ficar tudo bem” e do “vamos sair disto melhores pessoas”. De lá para cá, o business as usual voltou aos comandos da nossa mothership, de onde na verdade nunca saiu, e o novo normal não difere muito do velho normal. Os zilionários enriqueceram estrosfericamente com a crise, como sempre acontece com qualquer crise, com as 20 maiores fortunas do planeta a crescer na ordem dos 24%, durante o ano de 2020 (números da Bloomberg). Os pobres estão mais pobres, os remediados estão mais perto da pobreza e o fosso entre a super-elite e os demais aprofundou-se. O primeiro mundo luta entre si pelo acesso a mais vacinas, enquanto o terceiro depende da caridade do primeiro, que surge sob a forma de grandes operações de marketing, com grande mediatismo e poucos efeitos práticos. Micro, pequenas e médias empresas submergem sob o peso da burocracia e da inação política, contribuindo para o fortalecimento dos monopólios do costume. O desemprego e a miséria crescem, a precariedade e a exploração laboral florescem e a ausência de esperança é combustível para os novos populistas, que se alimentam do caos e da revolta.

Paralelamente a este cenário dantesco, momentaneamente esquecida ou relegada para segundo plano, a verdadeira pandemia avança, silenciosa e implacável, sem que nada ou quase nada seja feito para a travar. A tal crise climática, que nos arrasta, perigosamente, para um ponto sem retorno. A propósito, a directora de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS, María Neira, alertou no mês passado para a ligação entre o actual e anteriores vírus, como o Ébola ou o HIV, e os efeitos nefastos provocados pela acção humana no mundo natural. A médica espanhola aponta para a longa lista de vírus transmitidos de animais para humanos, que se relaciona, em larga medida, com a destruição de florestas tropicais. E se a palavra “Amazónia” é a primeira que nos vem à cabeça quando se fala em destruição florestal, é importante sublinhar que a coisa não se resume ao pulmão do mundo. Basta olhar com um pouco de atenção para aquilo que tem acontecido em zona como o Sudoeste asiático, para perceber isso mesmo.

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AstraZeneca – E uma vacina para esta loucura?

“Muitos milhares de pessoas desenvolvem coágulos sanguíneos anualmente na União Europeia por diferentes razões. O número total de episódios tromboembólicos em toda a população vacinada não parece ser mais elevado do que na população em geral”, acrescenta o comunicado. Até ao momento, “os benefícios da imunização com a vacina da AstraZeneca contra a covid-19, que tem riscos associados de hospitalização e morte, continuam a ultrapassar os riscos de efeitos secundários”, conclui a EMA -Agência Europeia do Medicamento.

 

Era o Vasco Pulido Valente que escrevia “O Mundo está a ficar perigoso” em inúmeros dos seus artigos de opinião. Imaginem o que diria hoje perante a novela da vacina da AstraZeneca.

Os jornais ingleses dizem que a UE está doida. A UE diz que a AstraZeneca está doida. Nós é que estamos a ficar doidos. Xalupas. Lélé da cuca. Nem meia dúzia de dias passaram sobre a esperança de uma abertura “quase plena” da economia no curto/medio prazo fruto das boas expectativas com as vacinas e os processos de vacinação. Nas notícias podíamos ler coisas como: “reservas de férias de verão do mercado alemão e britânico para Portugal, Espanha e Grécia sobem 600% com a perspectiva de vacinação em massa”. E nem dois dias passaram das notícias de aviões cheios de alemães rumo a Maiorca para a semana santa. E de repente…

De repente começam vários países europeus a suspender a vacina da AstraZeneca. Um a um. Só ontem: Portugal, Alemanha, França, Espanha, Países Baixos e Chipre. E porquê? Segundo o Público, “suspeita por estar relacionada com casos de formação de vários tipos de coágulos sanguíneos, com alguns casos de morte”. Quantos casos no todo? 30 em 5 milhões. Está montado o circo. E que circo. Numa altura em que Portugal se preparava para vacinar professores e assim abrir as escolas. Em que inúmeras companhias aéreas começavam a ter os seus voos cheios para a semana santa. E vários países a reabrir a economia. Ok, é favor desmontar as mesas e as cadeiras, recolher as camas de praia e regressar para dentro de casa.

Olhando para a bela relação entre a UE e a AstraZeneca e agora esta suspensão só posso finalizar com: Que comecem as teorias da conspiração.

Citações: O Mexia da EDP ainda mexe no seu bolso

É perfeitamente ultrajante que António Mexia, que abandonou a chefia da EDP por questões judiciais, vá receber 800 mil euros por ano até 2023. É uma vergonha tão grande que ninguém imaginou que possa vir a ser preso, e continue a mamar da eléctrica que paga dividendos e salários à custa da factura obscena que mensalmente pagamos, tal é a certeza de que os processos contra poderosos nunca chegam a uma sentença e na maior parte dos casos prescrevem. Mexia, na minha opinião e escrevo-a há muito tempo quando ele era todo-poderoso e todos se curvavam perante ele e paguei por isso como imaginam (contarei um dia qualquer), é o chefe de fila das elites medíocres e incultas que continuam a encarnar o pior do País. Quem hoje luta para salvar as suas empresas, quem batalha para salvar os seus postos de trabalho, ao ver esta notícia ignóbil só pode sentir nojo deste repelente marajá de triste figura.
Bom dia. Por Rui Calafate, Facebook

Então e a lista de jornalistas prometida?

No meio de toda esta pandemia não se consegue estar atento a todas as notícias. Por isso deixo a pergunta: o Expresso já publicou a famosa lista de jornalistas avençados do BES? É para um amigo…

Com que direito se decreta a perversidade?

Mulheres afegãs assistindo a um evento no dia mundial da mulher. Foto: AFP

Foi noticiado hoje:

As raparigas e mulheres jovens no Afeganistão estão proibidas de cantar em público. O Ministério da Educação afegão decretou que mulheres jovens e raparigas com mais de 12 anos não podem cantar em público – nem sequer o hino nacional.

A decisão do Ministério da Educação é vista como uma concessão aos Talibãs, que, de acordo com um novo plano de paz que recentemente se tornou conhecido, deverão estar envolvidos num próximo governo.

As mulheres vão pagar um preço brutal pela paz com os Talibã. Não poder cantar em público pode ser apenas o início das muitas violações de direitos humanos que se vislumbram.

Onde nasce e de que se alimenta todo este ódio às mulheres?

Nullius in verba

[Diogo Hoffbauer]

Quando o tema é a COVID, há uma pergunta inevitável. O tom e o propósito variam, mas a pergunta é fatal. Ora surge condescendente e grosseira, ora desesperada e confusa e – menos frequente – pode assumir contornos genuínos de curiosidade.

“Mas então o mundo está enganado?”

Depende do que entendes por mundo. Se te referes ao povo, à plebe, às massas, sim, a maioria estará enganada – ainda que não todos – porque longe das lentes necrófagas da comunicação social, entre censuras organizadas e ataques incessantes de milícias de idiotas úteis amedrontados, ainda há quem esteja a lutar muito para que o pesadelo não se materialize. Se por mundo entendes governos, aristocracias, corporações e elites financeiras, não estás minimamente enganado. Pelo contrário: tudo corre de acordo com o mais meticuloso dos planos. 

 Para os mais distraídos, a elite política e financeira mundial reúne-se todos os anos para discutir como é que nós, populaça, havemos de viver a nossa vida. Essas reuniões chamam-se Fóruns Davos e são organizadas pelo World Economic Forum. Essa fidalguia velhaca anunciou que tem um plano para acabar com o capitalismo como o conhecemos. Baptizaram este processo com o pomposo nome de Great Reset. O seu lema é “In 2030, you’ll own nothing. And you’ll be happy”. É verídico: eles dizem-nos que não teremos nada. O sonho molhado dos comunistas e restantes veneradores da miséria. O propósito, claro está, não é acabar com a propriedade privada. Eles, claro, continuarão a ter o que quiserem. O lema não é “We’ll own nothing”, porque eles – naturalmente – não se incluem. E orgulham-se disso. Até puseram um macho beta a sorrir para percebermos o quão felizes seremos…sem nada.

Sei o que dizem do Great Reset, e sei porque o dizem. Uma teoria da conspiração, disseminada por negacionistas de extrema-direita, que difundem desinformação por esses redes afora, e que representam a maior ameaça que as democracias ocidentais alguma vez tiveram de enfrentar. Já ouvimos esta cantilena até à extenuação. Ninguém se dá ao trabalho de definir nenhum dos conceitos utilizados nesta análise. Já nem sabem do que falam. Como o jogo de telefone estragado, as pessoas que o repetem agora nem sabem o que dizem, vomitam as palavras, desconhecem a literatura, ignoram a realidade. Quem nada percebe do assunto, assume que o especialista na televisão fala a verdade: a Internet está cheia de notícias falsas espalhadas por um lado do espectro político – e só por esse lado – um lado fascista, monstruoso, cruel, sádico, repulsivo, e se acreditares nalguma dessas histórias é porque pertences a esse lado do espectro. As pessoas comem isto; e, mesmo as que reconhecem o truque, não se aventuram, com medo de serem rotulados, e optam pelo recato. Honestamente, se mais alguém me vier pregar acerca das fake news da extrema-direita, enquanto consome acriticamente a média mainstream, nem sequer vou prestar atenção ao que me disserem. Não é por arrogância: estamos, simplesmente, a falar de alguém que, simplesmente, não sabe quando lhe estão a mentir – como tal, pouco teremos a aprender com as suas considerações epistemológicas sobre a verdade.  [Read more…]

Adoro o cheiro a napalm logo pela manhã

“E eu que pensava que a riqueza reside na nossa enorme diversidade. E eu que pensava que todos contam e são iguais. Sou uma utópica, que, provavelmente, nada sabe sobre o que é ser lusitana” – Hermana Cruz, jornalista.

Melhor que ninguém, uma jornalista do Porto sabe bem o que custa esta espécie de insularidade para todos os profissionais, dos mais diversos ramos, em que se vive fora da “capital do império”. Seja no Porto, em Braga, Vila Real, Coimbra, Aveiro ou Viseu. Sem esquecer Faro, Évora ou Beja, só para citar alguns exemplos. Ontem, tomou como exemplo o Porto, o FC Porto. Volto a citar Hermana Cruz: “Nacionalismo assim, carregado de preconceito regionalista e clubístico, mostra-me o que é ser portuguesa”. Mas o futebol é apenas a ponta do icebergue de um país que, hoje, não passa de um arremedo. E o FC Porto é apenas uma vírgula em toda esta história. 

Vamos ao exemplo de ontem em que o FC Porto levou de vencida a Juventus de Cristiano Ronaldo. Por partes.

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Ainda a propósito do dia da mulher

Jens Wolf, dpa

No dia da mulher, dispensam-se flores e presentes (tanto quanto em qualquer outro dia, o que naturalmente não impede de o fazer em cada dia, a quem e quando apraz). O dia existe porque já se conseguiu muito, em lutas históricas, mas muito mais trabalho há ainda a fazer, para alcançar a equidade de género. António Guterres referiu seis áreas estruturais, qual delas a mais difícil de atingir (o bold é meu):

Em primeiro lugar, que assegurem uma representação igualitária – desde os conselhos de administração das empresas aos parlamentos, do ensino superior às instituições públicas – por meio de quotas e outras medidas especiais. [Read more…]

Quem poderá traduzir “Lágrima de Preta”?

O racismo pretende construir muros e prisões. Estrutural ou não, deve ser combatido. O objectivo é erradicá-lo, extinguir o racista, não através da violência física, mas condenando-o à inexistência, através da educação, da cultura e das artes. Das artes, insisto. Tudo isto será utopia, mas é pela utopia que devemos ir.

O anti-racismo deve servir para derrubar muros, para explicar ao mundo que não estamos separados pela cor da pele. Como tantas lutas legítimas, também o anti-racismo está sujeito a exageros e perversões. Qual é a diferença? O racismo deve ser destruído, o anti-racismo precisa de ser melhorado. O problema de quem faz força em sentido contrário reside, por vezes, num excesso nascido da revolta ou da necessidade de compensar a força do inimigo.

Recentemente, na Holanda, surgiu uma polémica a propósito da tradução do poema que Amanda Gorman escreveu e declamou na tomada de posse de Joe Biden. Quando se soube que Marieke Lucas Rijneveld, a tradutora escolhida, era uma mulher branca, houve uma revolta tal que esta, apesar de avalizada pela própria autora, pediu desculpa e retirou-se. Pelos vistos, aquele poema só pode ser traduzido por alguém com a mesma cor de pele da autora.

O anti-racismo transforma-se, assim, num racismo de sinal contrário, mesmo que as intenções sejam, originalmente, as melhores. [Read more…]

Carta Aberta ao jornalista Pedro Tadeu (DN)

O jornalista Pedro Tadeu escreveu ontem, no DN, um artigo sobre jornalismo. Sobre o que se passa no jornalismo actualmente. Citando:

“Desde que esse meu amigo me contou o que se passou com ele, sempre que vejo uma notícia sobre a covid-19 fico desconfiado: “Será mesmo assim ou isto foi uma encomenda?” E quando constato a grande quantidade de peças que estão dentro da área de interesses destes “recrutadores de jornalistas”, quando vejo que essas peças se repetem no foco e na mensagem, exageradamente, nos últimos meses, fico espantado com a minha ingenuidade estúpida: “Como é possível eu ter achado que isto era, apenas, um exercício editorial insensato e incompetente, mas genuíno?” A seguir vem o desgosto: “Como é que a minha profissão chegou a este ponto!?”

Aqui fica a minha carta aberta ao Pedro Tadeu:

Caro jornalista Pedro Tadeu, eu tenho um amigo, não sei se o mesmo, que já nos idos de noventa me contava existirem jornalistas no activo a fazer assessoria de comunicação para privados. Esse meu amigo deparou com altos quadros, dirigentes, de canais de televisão cujas mulheres (ou irmãs ou mesmo primas, a minha memoria já não me ajuda muito) trabalhavam ou eram donas de empresas de assessoria de comunicação e ele, pasme-se, avisava que se o “pedido” viesse por essa mão amiga, a coisa teria direito a telejornal e tudo, veja bem. Isto já em pleno novo milénio e, suponho, não deve ter mudado assim tanto. E advogados comentadores nos media que, simultaneamente, tratavam dos problemas pessoais dos seus entrevistadores? E o mesmo se diga no tocante a médicos? Já ele me falava na confusão entre o que era pessoal e o que era profissional. Nisso e nos políticos que conseguiam ser, simultaneamente, informadores do jornalista A ou B e articulistas no mesmo jornal ou comentadeiras na mesma televisão. Uma festa. Ou, usando as palavras desse meu amigo (será p mesmo?), um festim.

Caro Pedro Tadeu, pelo que percebi do seu amigo e juntando com o meu, desconfio que não se fique apenas pelo Covid, ao que parece já não se pode confiar em praticamente nada do que se vê nos noticiários tal a confusão entre o que são noticias e o que são apenas encomendas. É claro que aqueles 15 milhões não ajudam nada. Isso e a propriedade actual dos meios de comunicação. De qualquer forma, obrigado pelo seu artigo e que nunca nos faltem os amigos.

Com os melhores cumprimentos.

A triste realidade do País em que a Burocracia e a Incompetência continua a fazer escola

O caso da jovem Constança Bradell é um daqueles filmes que tantas vezes vimos ao longo das últimas décadas no nosso país, em particular, nos casos que envolvem a relação entre o Estado e os portadores de doenças raras: é uma manifesta incúria, uma manifesta incompetência, uma manifesta negligência provocada por um sistema altamente burocrático que reflecte sobretudo a falta de empatia dos decisores e dos funcionários públicos perante o seu semelhante. Sim, o funcionalismo público português está, para nossa infelicidade, desde as camadas de base até ao topo, cravejado de funcionários que aparentam (ou talvez não tenham mesmo essa capacidade de tão insensíveis à dor do outro que se tornaram) não ter o mínimo de empatia perante o problema e a dor do próximo. A não ser que os visados pelo infortúnio sejam os seus filhos, os filhos dos seus colegas, os filhos dos seus hierárquicos ou os filhos dos deuses com pés de barro a quem lambem sistematicamente as botas à espera de benefícios.

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Comuno-liberais: os campeões das utopias na Avenida dos Aliados

O Partido Comunista Português faz 100 anos.

Para assinalar a comemoração, o partido decidiu espalhar, por toda a Avenida dos Aliados, no Porto, bandeiras com o símbolo do partido. Como esperado, a direita neo-liberal barafustou, esperneou, vociferou e espumou, dizendo que era de mau gosto (os liberais, esses exclusivos donos do bom gosto e da verdade em geral) e um ataque à democracia.

Nada contra a estarem contra. Mas eu também acho ridículos, de mau gosto e populistas, os outdoors do Iniciativa Liberal espalhados pela EN-14 e pela VCI, também na zona metropolitana do Porto, e nunca barafustei, esperneei, vociferei ou espumei por causa disso; ou os outdoors do Chega com a cara do querido líder e frases desconexas espalhadas pelo país fora. Antes pelo contrário, acho sempre piada à capacidade do ser humano de manipular para se engrandecer, dos “direitolas” aos “esquerdalhos”, passando pelos canonizados “centristas”, e, por tal, sorrio a todos os outdoors. Provavelmente, na cabeça dos neo-liberais, seria preferível, em vez das bandeirinhas do PCP, umas bandeirinhas com o símbolo da Vista Alegre de um lado da Avenida, e outras com o símbolo da Amazon do outro, rematando com uma grande bandeira com a cara do Jeff Bezos sobre a Câmara Municipal do Porto. Quem sabe? [Read more…]

Moedas irá privatizar Lisboa e entregar a gestão à esposa

Carlos Moedas, candidato do PSD à câmara de Lisboa, foi um súbdito fiel de Passos Coelho, esse Miguel de Vasconcelos que esteve ao serviço do poder estrangeiro, durante o período em que Portugal esteve sob ocupação da troika.

Uma das promessas que levou Passos Coelho ao governo foi a de não privatizar à toa, como podemos verificar num vídeo inesquecível, criado pelo Ricardo Santos Pinto.

Os CTT foram privatizados, sabendo-se que davam lucro e tinham, ainda, outras funções na compensação de um dos maiores problemas nacionais, o desequilíbrio entre litoral e interior, num país com regiões que caminham a velocidades demasiado diferentes.

Carlos Moedas teve um papel fundamental nessa e noutras privatizações. Por coincidência, a esposa de Carlos Moedas veio a integrar a estrutura que passou a gerir os CTT privatizados e transformados em lojas de má literatura, ao mesmo tempo que abandonaram povoações e passaram a funcionar pior, porque a incompetência é exclusiva do sector público, uma das mentiras da direita liberal para tomar conta de negócios e de monopólios.

Note-se que o PSD, na oposição, e bem, atacou o PS devido às teias familiares que atravessam o actual governo, mas já se sabe que o argueiro no olho alheio é sempre maior do que a trave que está no meu.

Caso ganhe as autárquicas em Lisboa, será que Carlos Moedas irá privatizar a câmara? Se isso acontecer, a esposa transitará para a equipa que passará a gerir a cidade? A brincar, a brincar…

Deixo, a seguir umas ligações sobre a importância de Carlos “videirinho” Moedas nesta história. É instrutivo, divertido e poupa-me trabalho. [Read more…]

Assédio de menores: Um manto de silêncio insuportável… Parte 2:

DepoIs das publicações no facebook e da queixa apresentada pelo pai da menor assediada, o artista plástico Jorge Curval foi entrevistado pelo Notícias Viriato.

(Fotografia do artista plástico da autoria de Pedro Meira/Olhares)

Os Hugos e as Venezuelas

Aos bimbos e às bimbas: fazemos vaquinha para expatriar o Hugo e salvá-lo desta Venezuela europeia?

Portugal não é a Venezuela. Portugal é Portugal, mas o Hugo é dos que acham que o PS, por ter “socialista” no nome, é, de facto, socialista; ou que o PSD, por ter “social-democrata”, seja realmente social-democrata – só isso demonstra que somos, de facto, Portugal. Ao Hugo falta ler mais e ler melhor, ver mais e ver melhor: pois, dizia Francisco Fanhais na sua “Cantata da Paz” que se “vemos, ouvimos e lemos”, então, “não podemos ignorar” – o Hugo aparenta ler pouco, ouvir mal e ver o que lhe convém. O Hugo não tem de pensar igual a uns, nem diferente de outros, mas sim pensar por ele : o princípio democrático aceita de bom grado que pense diferente; mas o princípio democrático também repele os Hugos da vida, que são anti-democracia e manipulam para proliferar: André Ventura…? Quem?

A extrema-direita ganha forma, ganha força e ganha ódio. O Hugo tem 22 ou 23 anos, frequentou exactamente a mesma escola secundária que eu. À época, e usando do clichê, parecia um miúdo normal, como o são tantos outros que, aos 17 e 18 anos, estão ainda na definição do carácter e do seu caminho. Estudou Ciências e Tecnologias, o que, à partida, poderia indicar que acabaria o 12.º ano preparado para enfrentar a vida com o conhecimento científico que nos impede, julgamos nós, de enveredarmos pelo caminho do populismo (um conceito, em si, anti-ciência, mas que terá a sua cientificidade). O Hugo cresceu, no seu contexto, moldou-se. Não privei assim tanto com o Hugo da escola secundária, que apesar de parecer pouco desenvolto para a altura nas conversas que tinha, parecia minimamente empático e nada reaccionário nas suas abordagens.

O Hugo jogou polo-aquático muitos anos e, segundo sei, com bastante sucesso. Deduzo que o esforço físico e o número/nível de pancadas na cabeça tenham prejudicado o crescimento do Hugo e consequente desenvolvimento cognitivo. Poderá ser uma explicação para o desvio do Hugo, neste caso concreto, mas não explica o desvio de outras centenas de jovens, nascidos na década de 90, pois nem todos somos do polo-aquático, mas alguns já são da extrema-direita. [Read more…]

Assédio de menores: Um manto de silêncio insuportável…

Ontem, no seu facebook, Filipe Ribeiro denunciou um caso de assédio à sua filha feito pelo conhecido artista plástico Jorge Curval (vou colocar aqui a palavra ALEGADAMENTE para evitar chatices para o Aventar). A sua filha tem 12 anos.

O que mais me choca é que passadas 24 horas persiste um manto de silêncio estranho na comunicação social. Sempre tão lesta quando toca a políticos ou jogadores de futebol…

 

Orgulho no passado?

Há pessoas que louvam a grandiosidade do passado português, com um discurso que revela arrepios e êxtases. As batalhas medievais, a gesta dos Descobrimentos, a acção dos restauradores da Independência, tudo é apainelado, pintado em murais virtuais gigantescos, do tamanho de uma glória incomensurável.

Não sou insensível aos feitos extraordinários dos nossos antepassados. É verdadeiramente incrível a coragem de quem participou num combate medieval ou a abnegação de quem viajou em frágeis naus por oceanos desconhecidos e entrou em selvas inóspitas. Talvez por ser um impotente de sentimento, como dizia Carlos da Maia, não consigo, no entanto, sentir orgulho, admiro à distância, gosto de saber, consigo espantar-me.

As mesmas pessoas que sentem orgulho no passado relativizam quase sempre as atrocidades. Ou porque outros fizeram antes o mesmo ou pior ou porque não fomos tão maus como os outros ou (e este é sempre muito interessante) porque é preciso atender ao contexto. Também há quem defenda que, no meio de tudo, interessa realçar o papel civilizador.

Colonizar um território foi sempre o mesmo – é como se eu, transportando uma arma, uma cultura e uma religião, entrasse no apartamento de uma família desarmada e lhes explicasse, tendo em conta a evidência da arma e a superioridade da cultura, que teriam de passar a viver na despensa, passando a existir para me servir a mim e aos meus. Algures, no meio ou no fim da história, ainda ficaria surpreendido com alguma reacção agressiva. [Read more…]

Estreia a Aventar

[Renato Teixeira]

Em tempos, quando saí do 5Dias, cheguei a conspirar com o João José Cardoso para rumar ao Aventar. Hoje já não temos entre nós o saudoso JJC mas essa conspiração ganhou forma pelo convite do Fernando Moreira de Sá. A blogosfera mudou muito nos últimos anos e eu não serei excepção a esse fenómeno. Dos acesos debates sobre este mundo e o outro, onde o tempo era mais importante que a gramática, agora o que se mantém vivo parece ser à conta mais da análise do que pelo relato do quotidiano. Mais pela investigação e denúncia, do que pelo pulsar de estados de alma. Não sei, agora que dou início a esta participação, o que mais me motivará, cá estaremos, eu e vocês, para o descobrir. Para quem nunca se tenha cruzado comigo cabe-me fazer a devida apresentação e declaração de interesses. Sou jornalista de formação e trabalho como consultor de comunicação, actualmente ao serviço do Sindicato dos Estivadores. Como jornalista trabalhei sobretudo temas relacionados com a política nacional e internacional e como consultor de comunicação passei de forma fugaz pela NextPower, do universo da LPM, e de forma mais prolongada pela CV&A. Politicamente comecei o meu envolvimento no movimento estudantil e no movimento antiglobalização e estive nos primeiros anos do Bloco de Esquerda, projecto que abandonei quando a maioria do partido deixou de colocar o PS no arco da governação para o passar a ter em conta para uma alternativa política. O Zé que fazia falta ao PS na CML, foi mesmo o balão de ensaio da geringonça. Depois de sair do partido dediquei-me sobretudo ao movimento social e sindical, bem como à causa palestiniana. Sou um refugiado de Coimbra em Lisboa, antigo da República Prá-kys-tão, apreciador de futebol e de gastronomia e serei sempre antifascista antes de tudo o resto. Obrigado ao colectivo pela abertura das portas deste espaço, onde espero poder contribuir para a bonita história de longevidade e diversidade que o Aventar representa.

Não podia dar inicio à minha participação no Aventar sem a devida homenagem a João José Cardoso, com quem partilhei a experiência militante, o amor pela escrita e a paixão pela Briosa.

Prof. Saúde & Investigadores

Obrigado a todos os profissionais que nos hospitais asseguram o bom funcionamento dos regulares serviços de saúde e simultaneamente lutam contra a Covid. Obrigado a todos investigadores que ajudam a conhecer o vírus, a combatê-lo e se batem contra a desinformação. Este Benjamin Biolay é para vós, merecem-no.

O lobby da estupidez

João Caupers, o novo presidente do Tribunal Constitucional (TC), ainda agora entrou e já se lhe indica a porta de saída.

Em 2010, aquando da aprovação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, o agora novo presidente do TC afirmou, entre outras coisas, numa crónica afixada na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa que, e cito, “A minha tolerância para com os homossexuais não me faria aceitar, por exemplo, que a um filho meu adolescente fosse “ensinado” na escola que desejar raparigas ou rapazes era uma mera questão de gosto, assim como preferir jeans Wrangler aos Lewis [sic] ou a Sagres à Superbock”. Portanto, João Caupers acha comparável gostar de diferentes marcas de cerveja com gostar-se de pessoas do mesmo sexo. Quem nunca acordou de manhã a pensar “hoje apetecia-me mesmo uma Tagus”? Ou então “hoje apetecia-me mesmo fazer sexo oral a um camionista na EN14”? Se não fosse suficiente, Caupers posicionou-se “contra” o lobby gay (ter um presidente do TC com crenças em teorias da conspiração era tudo o que precisávamos neste momento), afirmando que os homossexuais gozam de um estatuto de protecção especial, ao contrário dos “vegetarianos” que, diz João Caupers, existem em maior escala em relação aos homossexuais.

O novo presidente do TC carece de inteligência emocional, é notório. Quantas vezes não fomos já atacados pelo “lobby gay”? Quantos de vocês nunca estiveram sossegados na vossa casa, no silêncio da noite, e o “lobby gay” sempre a chagar-vos a cabeça? Quantas vezes já não fomos, todos nós, assediados pelo “lobby gay”, que nos sussurrava interiormente: “dirige-te ao glory hole na estação de serviço de Pombal” ou “encontra-te com aquele senhor matulão em Monsanto” …? Quantas vezes? É a chatice do “lobby gay”. Muitas vezes estamos a descansar depois de um longo dia de trabalho e… zás!… lá está o “lobby gay” em cima de nós a pedir sexo anal ou que coloquemos o strap-on. [Read more…]

Outros confinamentos

[Manuela Cerca]*

Tinha 15 anos.

Nos primeiros dias do mês de Agosto de 1975, o meu mundo desabava. Para trás ficavam dias sombrios. Para a frente só havia incerteza.

Ao entrar no Boeing 747 da TAP, com os meus irmãos, desfaziam-se todos os sonhos da infância e adolescência. Sozinhos, os meus pais, crédulos e ainda no exercício da sua actividade, ficariam por lá, até Outubro, enfrentávamos o desconhecido. Havia, é verdade, a certeza de que no destino estariam, pelo menos para nós, braços e colos que nos acolheriam e nos ofereceriam a tranquilidade de uma vida familiar. Mas muitos dos que connosco faziam a viagem não sabiam que destino os esperava. Não conheciam ninguém, muito menos a terra que os recebia.

Na dúzia de meses que antecedeu esta partida vivemos em guerra. Uma guerra civil que transformara, num ápice, a nossa zona de conforto em campo de batalha fratricida. As ruas onde brincávamos passaram a estar-nos vedadas, as escolas onde nos sentíamos em segurança muniram-se de “planos de contingência”, como agora se diz, e a qualquer momento as evacuações podiam acontecer. As viagens, naquela imensa Angola, tornaram-se perigosas e incertas. Desaconselhadas. Os postos de controle das várias organizações políticas( MPLA, UNITA, FNLA) consoante as zonas da sua influência, eram territórios aleatórios, de onde não sair, ou sair com vida, dependia em muito da sorte que nos cabia. O som das balas, rajadas ou morteiros, invadiam-nos os dias e principalmente as noites. O “inimigo” estava ao nosso lado, mas nem sempre o víamos. Os bens essenciais escasseavam, os assaltos pela calada da noite multiplicavam-se. [Read more…]

Nem rei, nem roque

Pablo Rivadulla Duro, conhecido no mundo da música como Pablo Hasél, é um rapper catalão condenado a uma pena de nove meses e um dia de prisão pela justiça espanhola, por “injúrias ao rei”, “injúrias às autoridades do Estado” e “enaltecimento do terrorismo”, sentença baseada no conteúdo artístico do rapper e em publicações numa rede social.

Sessenta e quatro publicações no Twitter e uma música no Youtube. Foram estas as razões que levaram a justiça espanhola a condenar Pablo Hasél, em 2018, a uma pena de dois anos de prisão, posteriormente reduzida. Em 2020, o Supremo Tribunal de Espanha confirmou a decisão. Agora, em Fevereiro de 2021, Pablo Hasél é forçado a entregar-se às autoridades “de forma voluntária”.
Pablo Rivadulla Duro denunciou, em todas as suas músicas, a censura a que o Coroa espanhola submete o seu povo, os crimes económicos cometidos por Juan Carlos, o rei emérito, a hipocrisia da União Europeia colonizadora e imperialista, o ressurgimento dos fascismos um pouco por toda a Europa. Por isto, foi preso.

Convém recordar que há menos de um ano o Supremo Tribunal espanhol abriu uma investigação ao rei Juan Carlos I por suspeita de delitos de corrupção internacional, branqueamento de capitais e fraude fiscal, num esquema que lhe terá rendido, e à Coroa espanhola, cerca de 65 milhões de euros, em conluio com a Arábia Saudita. Como se não bastasse, Juan Carlos esteve também envolvido noutro escândalo: a caça ilegal de espécies ameaçadas em África, usando fundos públicos. Em Agosto de 2020 fugiu para os Emirados Árabes Unidos. Coincidências.

A juntar a tudo isto, o The Economist, numa publicação feita na semana passada, considerava Espanha uma “democracia plena”. Portugal, como se sabe, baixou à categoria de “democracia com falhas”. Se as falhas da Democracia portuguesa são piores do que a suposta plenitude democrática espanhola, não sei. Sei, isso sim, que Portugal não tem presos políticos. Nem Monarquia. Nem dinheiro. Talvez o The Economist, por ser uma revista do mundo económico, se baseie noutros factores, que não a Democracia, para aferir democracias. Não sei.

Espanha é aqui ao lado. A realidade não é assim tão distante, no entanto, em Portugal, nada se diz. A bem de uma suposta diplomacia internacional com “nuestros hermanos”, é óbvio que o Governo português, nomeadamente na pessoa do Ministro dos Negócios Estrangeiros, nada irá dizer. O que é curioso, quando nos lembramos que foi este mesmo Governo que, há não muito tempo, se apressou a pôr-se ao lado do imperialismo Estado-unidense e Europeísta, reconhecendo Juan Guaidó como presidente da Venezuela. Coincidências.

Não espanta, portanto, que num país tão próximo, tão histórico e tão cheio de pó por limpar, ainda não se tenha instaurado a única forma de governo realmente democrática: a República. Tudo o que vem associado à Monarquia, fosse no século XV, seja no século XXI, cheira a estrume. E continuará a feder enquanto uma só família detiver todo o poder concentrado nas suas mãos. E não há Parlamento fantoche com coligações de esquerda que o mascare.

Liberdade para Pablo Hasél.

 

Confinamento – II

-Está um dia lindo, primaveril, solarengo, daqueles em que apetece dar um passeio à beira-mar, ou beira-rio. Alguns biltres dizem que não posso, que tenho que ficar em casa, apesar do corpo precisar de vitamina D. Vão encarcerar o raio que os parta, ditadores de meia-tigela e deixem-me viver em paz, não quero, não tolero, nem admito, que me digam o que fazer ou como devo viver. Só vivemos uma vez, o tempo que perdermos, jamais recuperaremos…

Astrologia no tempo da RTP pela Verdade

A propósito da saída das redes sociais dos médicos pela verdade, em 2003 organizei uma petição com cerca de 40 investigadores, entre os quais o Prémio Nobel Georges Charpak, a Prof.ª Teresa Lago e o Prof. Rui Agostinho, que acompanhou queixas a vários órgãos de soberania e reguladores públicos contra a rúbrica de astrologia no Programa Praça da Alegria. Nesse ano, o serviço público de televisão pagava chorudamente a uma astróloga para desinformar os espetadores, que chegou ao ponto de descompor uma espetadora em direto alegando que esta não tinha nascido no dia que lhe tinha indicado, isto para justificar uma previsão anterior que não se tinha concretizado. O processo que se seguiu à queixa não foi nada fácil, com a agravante de ouvir as críticas de alguns dos meus pares porque achavam eles que se deveria ignorar os astrólogos, que só ganhavam força com a minha queixa, etc. Mais de um ano e meio depois da queixa a astróloga saiu mesmo da RTP, segundo o que foi dito saiu pelo seu próprio pé, sem que a própria RTP tivesse alguma vez justificado que serviço público providenciava essa rúbrica de astrologia ou tivesse formulado qualquer pedido desculpas aos espetadores.


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Crónicas do Rochedo – 41: O Debate na TVI24 (Política e Redes Sociais)

Ontem, a convite da TVI24, participei num debate em que me foi pedido para falar sobre a presença dos partidos políticos nas redes sociais (o efeito das redes sociais na política). No debate participaram, igualmente, Paulo Pena (jornalista), Diogo Faro (Humorista) e Francisco Teixeira da Mota (advogado).

Ao decidir aceitar o convite da TVI24 iria quebrar um prolongado silêncio, uma vez que, desde a minha entrevista ao Miguel Carvalho (Visão, 2013), tenho recusado este tipo de convites. Obviamente, sabia que ao participar no debate iria despertar dois grupos, velhos conhecidos meus: as virgens ofendidas e os amnésicos. Ora, eu vivo e trabalho em Espanha há mais de cinco anos. Não trabalho, nem directa nem indirectamente, com qualquer partido ou empresa portuguesa, o que, a meu ver, me permite o distanciamento necessário para abordar a matéria para a qual fui convidado. O Paulo Pena foi convidado porque, reconhecidamente, é um dos jornalistas portugueses que mais tempo e atenção dedica ao fenómeno. O advogado Francisco Teixeira da Mota foi convidado porque é um dos especialistas na matéria. O Diogo Faro foi convidado, pelo que percebi, porque é activo nas redes sociais e está (ou esteve) envolvido numa polémica nas mesmas recentemente. Eu fui convidado porque, no entender da TVI24, conheço o meio no tocante à participação dos partidos nas redes sociais.  [Read more…]

Má sorte ser-se Cavaco

Cavaco tem todo o direito a escrever e a dizer o que lhe apetecer e a ser deselegante e malcriada, porque vivemos num país livre e é preciso respeitar as pessoas com incapacidades. Ninguém está livre de ter um filho assim e não é menos filho se for assim. Ainda por cima, ser malcriado não impede ninguém de chegar a bastonário ou de ter ambições políticas, como já foi demonstrado por outros antes dela.

Pelos vistos, Cavaco chamou “gorda fura filas” à Presidente da Câmara de Portimão, que se considera “obesa”, termo débil e politicamente correcto. Cavaco não é mulher de meias palavras. Sendo mestre em Saúde Comunitária e Saúde Pública, terá aprendido que a melhor maneira de tratar uma pessoa com problemas de peso é chamar-lhe “gorda”, havendo teóricos que defendem a importância curativa de apodos como “vaca” ou “baleia”. No fundo, isto é enfermagem. Acrescente-se que Cavaco tem, também, uma pós-graduação em Gestão pela Católica, onde aprendeu, decerto, a sentir-se superior e a espalhar pragas bíblicas.

Já é pior ser-se desonesto, mas também isso é um direito e os tribunais poderão resolver esse assunto daqui por dez anos. Cavaco escreveu que ouviu dizer que o secretário de Estado da Descentralização e da Administração Local e a sua esposa, directora da Segurança Social de Faro, tinham sido indevidamente vacinados. Ficou a saber não era verdade e que, portanto, não se tinha verificado nada de indevido. No faroeste das redes sociais, Cavaco confessou que foi contactada pelo próprio secretário de Estado, o que a levou a acrescentar que não foi vacinado, mas que podia ter sido e que isto é tudo uma grande vigarice, porque há muito nepotismo, recorrendo a uma técnica habitual em qualquer tasca, quando um bêbado muda de insulto, por o anterior não ter resultado. [Read more…]

Diogo Faro ou o mundo em que gostava de viver

@liberty.edu

O incêndio da semana, nas redes sociais, foi o de Diogo Faro, humorista português que, nos últimos tempos, solidificou a sua imagem como activista dos direitos humanos e sociais, personificando a agenda identitária dos dias que correm. De uma forma legítima, note-se, até porque a maioria das questões que aborda são de uma extrema importância. No entanto, o meu problema com o Diogo Faro foi sempre o tom bélico das suas intervenções, criando uma divisão entre bons e maus. Ele próprio se identificou como um “pugilista digital”. Ou seja, nunca esteve em causa o conteúdo mas a forma que, a meu ver, soa a pregação para convertidos. Desconfio do facto de alguém que esteja do lado errado desses tópicos – porque sim, há um lado errado quando o tema são direitos humanos – tenha mudado a sua postura e opinião ao ler o Diogo Faro. Por isso, o humorista falha sistematicamente naquilo que para mim é um dever social de quem tem alcance público como ele: o de fazer a diferença. Amplifica a voz de muita gente? Talvez. Mas falta o passo seguinte, o de conseguir chamar à razão outras pessoas.

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Willkommen!

Sejam bem-vindos, ó profissionais de saúde alemães.

Antes de mais, pedimos desculpa pelo facto de se saber primeiro na Alemanha que vocês vinham para cá ajudar, sem que aqui se soubesse ainda.

É que isto sem a pandemia já era um pandemónio, com a bronca de um ucraniano a morrer às mãos do SEF, um Presidente a fazer striptease em campanha por uma vacina que depois não houve, uma candidatura martelada ao lugar de Procurador da União Europeia, entre outras cenas tipo.

E aquela coisa do Cavani não ter vindo para o Benfica, também não ajudou nada.

Enfim, tem sido só scheisse.

Mas, como podem ver, tivemos o cuidado de vos colocar num hospital privado.

O que não é para qualquer um.

Olhem que nesta terra, recorrer aos privados só mesmo depois de esgotar o parque automóvel das ambulâncias às portas das nossas urgências.

E, também, porque há sempre comunicação social e sociedade civil a meterem nojo.

Compreendam que os nossos recursos são parcos, e se queremos continuar a ser o país que menos gasta com a pandemia, temos de manter este esforço.

Atenção que não é austeridade. É esforço.

De qualquer forma, vindos de tão longe, era só o que faltava se iam agora andar de ambulância em ambulância para assistir ao povo, às portas das urgências do Santa Maria.

Ainda para mais com este tempo.

Mas, dizia eu, que são muito bem-vindos.

Fazem-nos um jeito do caraças.

Imaginem que temos imensos profissionais de saúde a trabalhar no estrangeiro. Principalmente enfermeiros. Que foram para fora à procura de melhores salários e progressões na carreira e outras coisas assim.

E nenhum parece estar com ideias de voltar para cá e dar uma mãozinha.

Malandros!

Mas, o que importa é vocês estão cá. E até trouxeram material auxiliar.

Pena não ter sido no Natal, pois faziam de Reis Magos.

De qualquer forma, se precisarem de alguma coisa, seja o que for, até mesmo umas sandes de pernil, é só dizerem.

Estejam à vontade e obrigadinho.

Bucha e Estica

Há pessoas que, em posições de poder que representam classes trabalhadoras, tendem a tomar como seu o lugar, quando o que representam são profissionais de diversas áreas. Profissionais esses que merecem o brio de quem os conduz, a honestidade e, acima de tudo, capacidade de isenção. Infelizmente, há certos bastonários que, por mais do que uma vez, têm mostrado esforço em beneficiar, com palavras e com acções concretas, certas cores políticas. Usar cargos de poder em representação de X classe trabalhadora para aparecer e fazer oposição política, tentando compensar o fraco trabalho de quem devia fazer realmente oposição, mostra a falta de carácter, apenas e só, de quem o faz. E também há certos bastonários de ordens que acham que fazem parte de um sindicato.

Se a senhora bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, tivesse tanta noção quanta a vontade que tem de dar beijos de amiga a André Ventura, e se calhar não fazia figuras de otária.

André Ventura dirige-se a adversários chamando-lhes “avô bêbedo” ou “coisa de brincar”, Ana Rita Cavaco dirige-se a uma presidente da câmara como “gorda fura filas” e desculpa a sua própria piada de mau gosto dizendo que foi Isilda Gomes, autarca de Portimão, quem assumiu ser “obesa”. Pois, pá. Todos sabemos que sempre que alguém assume uma doença, isso nos dá o direito de gozar com essa pessoa e com a sua doença. Especialmente quando essa pessoa agiu mal em alguma situação! Por exemplo: sempre que vejo que um obeso não faz o pisca a conduzir, ultrapasso-o e grito “ó gordo, mete o pisca!”.

Vai-se a averiguar e, afinal de contas, foi o deputado do Chega quem deu aulas de etiqueta à senhora bastonária.

Ou então, surpreendentemente, em vez de transmitir COVID-19, aquele “beijo de amiga” em Setembro transmitiu estupidez. Concluindo: podes tirar o Chega do PSD, mas nunca conseguirás tirar o PSD do Chega, sejam militantes, dissidentes ou bastonárias da Ordem dos Enfermeiros.

O que se tem passado com a distribuição das vacinas, segundo o que tem vindo a público, é grave e expõe, mais uma vez, a “chico-espertice” típica dos portugueses e, também, que a família do Partido Socialista é cada vez maior. Mas grave ou não, Ana Rita Cavaco é bastonária da Ordem dos Enfermeiros, não é apresentadora do “Isto é gozar com quem trabalha” e, como tal, não é sua função dizer facécias. E se não sabe onde começa e onde acaba a importância do cargo que ocupa, é porque não merece o cargo que ocupa. Por fim, Ana Rita Cavaco está lá em representação dos enfermeiros e não do PSD e da direita, pois, que eu saiba, ser bastonária não é ser deputada.

Imagino que Ana Rita Cavaco se preocupe com o compadrio. Aliás, preocupa-se tanto, mas tanto, que até contratou Tiago Sousa Dias, seu amigo de longa data, ex-militante do PSD, apoiante de Rui Rio nas directas do partido contra Santana Lopes, braço direito de Santana no Aliança depois do PSD correr com ele e agora activo do Chega e alegado futuro secretário-geral do partido “neo-preconceitos”, a quem a Ordem dos Enfermeiros paga 72 mil euros, a dividir num contrato de 3 anos, desde Março de 2020. Aparentemente, PS e PSD gostam de medir o membro “eu sou mais asqueroso do que tu”.

O que vale é que a qualidade dos nossos enfermeiros não se mede pela qualidade da sua bastonária (que é nula, no caso da senhora Cavaco, se é que ainda é preciso dizê-lo). Neste caso: “Mulher gorda/Ai, a mim não me convém/Eu não quero andar na rua/Com A VACINA de ninguém/E mulher magra/Ai, a mim não me convém/Eu não quero andar na rua/Com A ESTUPIDEZ de ninguém”.

           FILIPE AMORIM/GLOBAL IMAGENS

Praticar o distanciamento de nós próprios: a questão do eu

 

@dougsavage

 

Não será de todo irreflectido pensar que vivemos uma constante e abrangente crise de identidade. A procura pelo significado do eu pintou a história de aventuras, da realidade à ficção ou mesmo na intersecção de ambas. Somos, afinal, eternos contadores da nossa própria história.

A ideia de sermos história cria, desde logo, uma crise de identidade: somos a nossa história ou os contadores dela? E se a contarmos, ela deixa de ser nossa?

Coloca-se o problema do distanciamento. Será proveitoso pensar que quanto maior o distanciamento, maior a incapacidade de encontramos o eu na história. Precisamos de estar próximos de algo para podermos dissertar sobre esse algo. A proximidade e a convivência garantem-nos experiência acumulada que se transforma em conhecimento de causa. Mas esta proximidade tem, em si mesma, encerrado um paradoxo existencial do distanciamento: não será a nossa visão mais clara quanto mais nos distanciarmos do objecto em análise, neste caso, nós próprios?

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