Resistir à vacina

Sou uma das pessoas mais importantes do mundo. Pode haver algumas mais importantes, dentro da minha família. Tenho amigos, todos eles importantes, mas nenhum é tão importante como eu. Tenho amigos maravilhosos, mas sou muito mais importante do que qualquer um deles, mesmo aqueles que são os melhores amigos. As dores que sinto, quando, por exemplo, bato com um cotovelo numa esquina são infinitamente maiores do que as de uma fractura exposta de qualquer outra pessoa. Há pessoas que se magoam a menos de um metro de mim, sem que eu sinta a mais pequena dor. Peço desculpa, mas é assim mesmo.

Isto quer dizer que também eu quereria ser vacinado antes da larga maioria da população, incluindo uma enorme quantidade de velhos, de enfermeiros, de médicos, de bombeiros, de gente que, em geral, estará mais exposta do que eu ao vírus. E por que razão quereria eu ser vacinado antes de toda essa gente? Porque sou uma das pessoas mais importantes do mundo, como é evidente.

Não tenho conhecidos em lugares suficientemente importantes para conseguir ser vacinado antes dos milhões de pessoas muito menos importantes do que eu, porque como eu não há ninguém.

Se tivesse essa possibilidade, mesmo sabendo que ninguém iria saber, aceitaria ser vacinado? Se um amigo chegasse a minha casa com a vacina na mão, seria eu capaz de resistir a essa oferta? Não sei, gosto de acreditar que sim, mas gostaria de deixar claro que se eu, devido a algum privilégio ou outra circunstância favorável, fosse vacinado antes da minha vez, passaria a fazer parte da nojenta e viscosa categoria dos filhos da puta, tal como foram magistralmente definidos por Alberto Pimenta.

A “culpa” do jornalismo

[Miguel Carvalho*]
Ah, e tal, o jornalismo é o principal culpado do resultado de André Ventura. Sempre a dar-lhe voz, a fazer pé de microfone, a execrá-lo ou a pensar no próximo bitaite incendiário que virá dali, pois sempre virá alguma coisa.
Bem, sou capaz de concordar que Ventura e o Chega têm tempo de palha em demasia. Digo tempo de palha porque uma boa parte da antena está sempre a salivar com zaragata.
Mas o que sugerem: que o jornalismo se demita da sua responsabilidade de investigar, de escrutinar, de contrastar, de trazer a público aquilo que leve os cidadãos a tomar decisões mais responsáveis e aprofundadas, mesmo se escolhem não o fazer?
O que sugerem: que fiquemos sentadinhos a ver o andor passar e fazer de conta que não há um entertainer político hábil que ocupou o espaço de sucessivas irrelevâncias partidárias, do esquecimento a que foi votada parte do País, do ressentimento acumulado por tanto submundo engravatado e promessa por cumprir?
O que sugerem: que o jornalismo abdique de prestar um serviço público, independentemente da sociedade valorizar esse esforço, ainda por cima em tempos de recursos esganados?

[Read more…]

A mentira e o lapso

A propósito da nomeação de José Guerra para a Procuradoria da UE, ficamos a saber que ao indicar dados falsos, com vista a fundamentar a nomeação de João Guerra em detrimento de outros candidatos, pelos vistos o Governo não mentiu: cometeu lapsos.

Ainda assim, apesar dos dados falsos invocados, o Governo continua a entender que a escolha está bem feita.

É cada vez mais notório, na sociedade coeva, que uma mentira rotulada de lapso é mais um passo para que a sociedade assimile a falsidade como normal. Ou, pior, como verdade. Tal como a administração Trump tentou implementar a lógica da verdade alternativa, para transformar a mentira em factos.

Donde se conclui que, neste aspecto, não há diferença ideológica na transformação da mentira em lapso, verdade, facto ou qualquer outra coisa que vise normalizar a falsidade e torná-la impune.

Este sinistro caminho, só serve para aumentar a descrença na governação e nas instituições. Bem como para alimentar os ódios que servem de pasto para os oportunismos mais extremistas e boçais que começam a mostrar força. Que serão mentirosos, inventores de patranhas e mestres do engano e da ilusão. Mas, jamais teriam oportunidade para vencer por tais meios, se outros antes tivessem sido, pelo menos, um pouco mais sérios.

Encerre-se tudo

A mim parece-me bem.

Encerre-se Machu Picchu, Encerre-se Chan Chan,
Encerre-se a Capela Sistina,
Encerre-se o Pártenon,
Encerre-se o Nuno Gonçalves,
Encerre-se a Catedral de Chartres,
Encerre-se o Descimento da Cruz,
de Antonio da Crestalcore,
Encerre-se o Pórtico da Glória
de Santiago de Compostela,
Encerre-se a Cordilheira dos Andes,
Encerre-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
Encerre-se a água e o ar, Encerre-se a justiça e a lei,
Encerre-se a nuvem que passa,
Encerre-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto encerrar,
Encerrem-se os Estados, entregue-se por uma vez
o governo deles a carcereiros e hipocondríacos,
mediante recomendação da OMS,
Aí se encontra a cura do vírus…

E, já agora, encerre-se também
a puta que os pariu a todos.

Adaptação de José Saramago, em “Cadernos de Lanzarote – Diário III”. Lisboa: Editorial Caminho, 1996.

O Natal Ortodoxo na Sérvia

Tal como a maioria dos cristãos ortodoxos a Sérvia celebra amanhã o Natal e de acordo com o calendário juliano. Como tal, hoje assinala-se a noite de consoada ou “Badnje Veče”.
Por tradição todas as famílias têm o “badnjak”, um ramo de carvalho simples ou enfeitado com sementes de trigo e que é queimado em grandes fogueiras, numa cerimónia de inspiração pagã que tem início por volta das 18:00 e se prolonga até de madrugada (conforme foto em anexo). [Read more…]

A culpa é da Greta

Uma investigação do jornal britânico The Guardian revela que a factura a pagar pelos vários desastres ambientais que ocorreram durante o ano que agora termina, como os incêndios devastadores na Austrália e na Califórnia, ultrapassa os 150 mil milhões de euros. Mas esta é apenas a fatia quantificável, sendo que o total real é bastante superior a este valor.

Outro dado relevante é que o conjunto destes gravíssimos problemas ambientais foram agravados pelas alterações climáticas. A isto devemos juntar mais de 3500 mortes, 13,5 milhões de deslocados e refugiados ambientais, muitos deles provenientes de África, parte dos quais sepultados no Mediterrâneo, sem direito a honras fúnebres. [Read more…]

Sobre a miséria que alimenta o fundamentalismo religioso

Um destes dias estive a ver um episódio do Toda a verdade, na SIC, numa edição dedicada ao Paquistão. Num país onde reina a miséria, centenas (milhares?) de crianças trabalham desde tenra idade, nos fornos de tijolos, na periferia de Islamabad. Algumas têm 5 anos, nunca foram à escola e recebem uma miséria por turnos de 14 horas de trabalho duro, que compromete o seu crescimento e a sua saúde.

Trabalham porque os pais não têm dinheiro e mal conseguem pagar uma alimentação digna do nome, sempre a léguas dos padrões de decência mínima. E são alvos fáceis para os fundamentalistas islâmicos, que andam à pesca em locais como este, prometendo casa, conforto, comida e estudos, em troca de uma vida de obediência cega na madrassa, onde serão doutrinados na interpretação mais extremista da Sharia, com o alto patrocínio, como tantas outras, de oligarcas de estados poderosos como a Arábia Saudita. [Read more…]

Ano Europeu do Caminho de Ferro


2021: European Rail Year 
A todos, um ano cheio de bons momentos, boas viagens!

R.I.P.


2021 a começar mal, deixou-nos o fadista Carlos do Carmo, a obra permanecerá bem viva nas nossas memórias.

2020: o ano de todas as pandemias

2020 foi um ano difícil, que pode ser resumido em poucas palavras: vírus, epidemia, pandemia, medo, confinamento, distanciamento social, máscara, álcool-gel, negacionismo, contágio, zaragatoa, teste, ventilador, profissionais de saúde, SNS, layoff, crise económica, vacina e morte. Talvez pudessem ser acrescentadas mais algumas, que nem me ocorrem nem me apetece procurar, porque não pretendo fazer disto uma obra científica, mas este foi o léxico dominante, durante os nove últimos meses. E, não nos iludamos, continuará a sê-lo.

Muito foi dito e escrito sobre a pandemia. Da “gripezinha” à falsa sensação de segurança, passando pelas habituais conspirações, amplificadas pela ignorância militante, de repente éramos 7,8 mil milhões de especialistas em saúde pública, virologia e gestão de crises. Por cá fomos bestiais, depois bestas, e, quer-me agora parecer, terminamos o ano como culpados pelo agravar dos números. E não, não saíamos mais unidos, mais conscientes ou mais humanos de tudo isto. Saímos como entramos, com as nossas virtudes e defeitos, adaptados ao novo normal que, esperamos, já seja uma recordação distante daqui por um ano. [Read more…]

Sobre ser demasiado, ou as quotas de género

César Alves

A notícia dizia que a Câmara de Paris tinha sido multada por empregar demasiadas mulheres. Veio logo aquele arrepio na espinha: que raio de situação era essa, ainda por cima não sendo saída de um qualquer país demasiado conhecido pelo facto de as mulheres serem cidadãs de segunda?

O problema era simples: a lei das quotas de género, instaurada em 2013, que prevê que nenhum género esteja representado acima dos 60%, foi violada, uma vez que a Câmara de Paris emprega 69% de mulheres. A presidente do executivo, Anne Hidalgo, fez da multa um acto de activismo, assumindo a felicidade por ela e prometendo entregar pessoalmente o cheque.

Eu percebo genuinamente esta felicidade, uma vez que o problema da desigualdade entre homens e mulheres é gravíssimo, demasiado pesado e estrutural. Não a percebo do ponto de vista dos objectivos daquela lei que, desde a sua origem, tem pouco sentido. [Read more…]

A melhor história de 2020

A melhor história de 2020? No estado da Virgínia um grupo de moradores resolveu homenagear Anthony Gaskins, um funcionário da UPS.
Durante anos Anthony entregou cartas e encomendas, sempre sorridente e cumprimentando toda a gente. Nas semanas de confinamento, Anthony não só manteve um serviço eficaz como passou a bater à porta das pessoas para fazer entregas ou apenas para saber se estavam todos bem. Foi um apoio presente nos dias mais complicados, sendo inclusive um dos primeiros a ajudar quem se mudou para aquela localidade durante a pandemia.
Esta semana centenas de moradores organizaram-se para agradecer ao seu carteiro de forma sincera e bonita de se ver, como se pode comprovar no vídeo com a peça da ABC News. Sou fã destas coisas, destas pequenas coisas.
Paulo Franzini

Iluminismo Às Escuras: ideologia ou deriva ideológica?

  Há uns quantos iluminados que confundem o plano ideológico com o plano terreno. Ou então não é confusão, é propósito.
  Deixo aqui o meu manifesto, de uma forma redutora, mas para que não haja dúvidas: sou de esquerda, sou socialista democrata, defendo uma economia democrática, baseada no serviço público e posta em prática por cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres em democracia política. Sou socialista, mas também sou democrata. Aliás, antes de ser socialista, sou democrata. Rejeito qualquer tipo de autoritarismo e totalitarismo partidário, rejeito regimes opressores de partido único, rejeito a repressão e a opressão, seja ela de direita ou de esquerda. Sou neto da democracia, da qual os meus pais são filhos e os meus avós são pais. O meu último objectivo, enquanto cidadão e enquanto pensador, é destruí-la. Por tal, não confundo teoria ideológica com a História real; como também não confundo a legítima fé dos Homens com fundamentalismos religiosos.
  Como tal, cada vez mais vejo pessoas da minha geração que parecem não ter aprendido nada com a História e, montadas no ideal (porque hoje o ideal vale mais do que o pensar sozinho), desbravam novos contos de fadas, onde partidos totalitários não são, afinal, assim tão totalitários, onde regimes imperialistas opressores não foram, afinal, tão imperialistas e opressores como pareciam e onde ditadores sanguinários que mataram em nome de um ideal não eram, afinal, tão assassinos como a História mostrou que foram.
  Ter um ideal não nos impede de nada. Não nos impede de questionar, não nos impede de abominar regimes opressores e não nos impede de preferir, sempre, a democracia ao totalitarismo. Identificando-me como socialista democrata, o partido com o qual melhor me identifico com assento parlamentar é o Bloco de Esquerda. Ora, o BE, de raízes pluri-dimensionais, nasceu por oposição a dois partidos: em primeiro lugar, ao PCP, por rejeitar os laivos autoritários e totalitários em que o PCP e os partidos comunistas clássicos redundam; e, em segundo, ao PS, por rejeitar o socialismo dito “real” e uma aproximação do socialismo e da social-democracia à direita. O Bloco de Esquerda é, e sempre foi, um partido que concentra em si várias formas de pensar, à esquerda, diferentes de si mas compatíveis entre si: desde marxistas-leninistas (uma minoria no partido), a trotskistas mandelistas (grande parte da formação do partido foi assente na ideia trotskista de combater o regime opressor soviético) e a socialistas democratas e a sociais-democratas. Não fosse o BE um “partido-de-partidos” (isto é, com base de fundação assente em vários partidos: a saber, UDP, PSR e Política XXI) e não haveria a pluralidade ideológica e de pensamento que existe no Bloco de Esquerda. É também por isto e levado por esta ideia de pluralidade que gosto do BE. Aconselho a leitura do manifesto fundador do partido, de 1999, e deixo aqui o link: https://www.bloco.org/media/comecardenovo.pdf
  Não posso é aceitar que um partido onde me encaixo albergue em si retorcidos mentais que são capazes de enaltecer atrocidades como as que se passaram na antiga URSS e tenham um discurso pró-Partido Comunista. Sei que os há, no Bloco de Esquerda. E, não sendo eu filiado, pouco ou nada posso fazer em relação a isso, senão repudiar e deixar aqui o testemunho da vergonha que sinto por tais factos e dizer-vos que não perceberam nada sobre como o BE surgiu e se fez notar. Comigo não contam para essa “esquerda alternativa” que mais não quer do que uma esquerda antiga baseada na usurpação dos poderes e assente na ladainha dos “trabalhadores e do povo”. Comigo não contam.
  Socialismo, por convicção e pensamento. Democracia, pela Humanidade e contra qualquer tipo de autoritarismo político.

Massacre na Azambuja

Matar animais por satisfação pessoal é cruel, desumano, abjecto. Tenho para mim que existe uma linha que nos separa, humanos normais que cumprem mínimos de decência, dessa subespécie de homens e mulheres das cavernas que matam por um qualquer prazer sádico e doentio. Uma linha vermelha que separa a civilização da barbárie.

Massacrar animais não é caça. E se não é crime, talvez esteja na hora de legislar sobre o assunto, sem perder muito tempo. Porque a caça tem um propósito, ao nível do controle populacional, que, ao contrário de que alguns fazem crer, desempenha um papel fundamental na manutenção da biodiversidade. Mas isto não foi caça. Isto foi um massacre brutal, perpetrado por subgente hedionda que se regozijou com o resultado da matança. [Read more…]

Breve pensamento avulso sobre a corrupção

Pensamentos lapidares de uma cultura nacional que vai custar muito mudar, para se conseguir melhores níveis de exigência e, também, de conduta:

  • Rouba mas faz obra.
  • São todos iguais.
  • Todos querem mama.
  • Se estivesses lá fazias igual.
  • Se eu pudesse também comia.
  • Não vai dar em nada.

E o mais lapidar de todos:

  • Estou-me a cagar.

Mudar isto é o grande desafio, pois não bastam leis. É preciso gente com vontade e com poder para o fazer.

Até lá, resta o estado de alerta reactivo da sociedade civil.

A Banalização da História

A História não é estática. Engane-se quem pensa que sim. A História é, antes de tudo, História. Contudo, o passado não nos pode amarrar nem, em sentido contrário, nos desprender. A História há-de ser sempre uma lição, um alerta e, sobretudo, um facto. Questionar a História faz-nos bem, desperta-nos e ensina-nos.

Há hoje uma tendência para a desvalorização histórica. O que não pode acontecer, não é aceitável e, em contra-senso, demonstra-nos uma falta de noção histórica de quem envereda pelo caminho da desvalorização e da falta de noção histórica.
Certas franjas à direita insistem hoje num discurso que envergonha a noção histórica.

Tenho ouvido, por mais do que uma vez, a comparação entre o tempo da Outra Senhora e os tempos que vivemos. Seja porque estamos hoje limitados na nossa liberdade de associação (por conta da pandemia), seja porque certa direita não aceita o Governo de esquerda que se encontra no poder. Desvalorizar os acontecimentos passados, comparando-os aos acontecimentos do presente é, antes de ser demagogia pura e dura, um “cuspir” na História e naqueles que a viveram. Antes de podermos entrar pela demagogia adentro e compararmos a democracia em que vivemos a uma ditadura passada, teremos de aprofundar as nossas noções históricas, quer sejamos de esquerda ou de direita.

A luta pelo regime democrático não pode escolher lados, mesmo que a ditadura que se instalou em Portugal durante mais de quarenta anos tenha sido de direita. A luta pelo regime democrático deve tocar-nos a todos: socialistas e todos no seu espectro, liberais e todos no seu espectro. Contra todo o tipo de extremismos: de direita ou de esquerda.

Quando se tenta encobrir e desdenhar tempos em que a PIDE ostracizava, perseguia, torturava e matava é desonesto, mas, acima de tudo, é uma atitude ignóbil e ignorante de quem não respeita nem estudou História. Compará-la aos tempos modernos é boçalidade. Repito: o combate aos nacionalismos, aos fascismos e aos atropelos contra a Humanidade, deve pertencer a todos os que acreditam na República e na Democracia.

Assumo-me de esquerda. Defendo o socialismo democrático. Num passado recente governou em Portugal um Governo de direita, encabeçado por Pedro Passos Coelho e apoiado em democratas-cristãos. Por muito que esse Governo tenha atropelado certos direitos e tido tiques de autoritarismo com cheiro a velho, nunca, mas nunca, o poderei equiparar a um Governo fascista, liderado por António de Oliveira Salazar, Governo esse que se regia pela opressão e repressão dos seus cidadãos, que se escudava numa polícia política impiedosa, injusta e assassina, e que reforçava o seu poder através das suas colónias.

A banalização da História é tema para os ignóbeis. O combate contra qualquer extremismo, seja de direita ou de esquerda, repito de novo, cabe a todos os democratas, sejam estes de direita ou de esquerda. O resto fica com a ignorância histórica. O resto, nunca mais.

Nos tempos modernos: fascismo nunca mais.
25 de Abril, sempre!

Aventando desde Belgrado

Fortaleza de Kalemegdan
Autor: Djordje Jovanovic

 

Chamo-me Paulo Franzini, sou natural de Vale de Cambra e resido em Belgrado desde 2011. É para mim um gosto juntar-me a este blogue de referência e largar também umas coisas ao vento. Para além dos temas normalmente aqui abordados, pretendo acrescentar algo sobre os Balcãs, ainda pouco conhecidos e quase exclusivamente associados aos conflitos que marcaram o fim da Jugoslávia. Mas acreditem em mim, os Balcãs têm muito para oferecer. Entre várias atracções destacam-se Belgrado, Sarajevo, Skopje (ou Escópia), a baía de Kotor no Montenegro, a costa da Croácia e Ljubljana. Conhecida como uma região montanhosa, apresenta várias riquezas naturais e um enorme acervo de contrastes culturais e históricos que influenciam desde a arquitectura a culinária.

[Read more…]

O estranho caso de Ihor Homeniúk

A morte de um ser humano em Portugal sob tortura perpetrada pelo Estado português, seria, não há muito tempo, razão para um escândalo de contundente repercussão política.

Todavia, o que se assistiu foi a uma brandura de tratamento, transversal a toda a sociedade portuguesa.

Até a página da Amnistia Internacional  Portugal, não deu grande relevo a semelhante crime ignóbil (o nome de Ihor Homeniúke é apenas referido num texto recente).

Isto numa sociedade como a portuguesa, marcada, fortemente, por valores humanistas que fazem de nós, enquanto povo, gente com repulsa pela violação da dignidade humana, gente solidária e predisposta a acudir.

Além da habitual “exigência” de “apuramento de responsabilidades”, pouco mais ou mesmo nada a dita sociedade civil e as organizações políticas em geral exigiram sobre algo que deveria ter causado engulho e revolta.

Quando, recentemente, as rede sociais começaram a movimentarem-se na demanda por explicações, aos poucos lá começaram a aparecer algumas reacções.

Começou-se, então, a construir na comunicação social a ideia de que o que se passou com Ihor Homeniúk é um problema de procedimentos do SEF.

Uma bela forma de transformar um homicídio numa mera relação de causa/efeito. [Read more…]

Portugueses que sabem que houve fraude nas eleições americanas

Há portugueses que têm a certeza absoluta de que houve fraude nas eleições americanas. Viram, com aqueles olhos que a terra há-de engolir ou que o crematório reduzirá a pó, vídeos e provas (evidências, em português técnico) que mostram irrefutavelmente a vergonha que foi a eleição de Joe Biden.

Eleição, ponto e vírgula, que aquilo não foi eleição nenhuma, foram truques atrás de truques, porque há coisas que não passam cá para fora.

(coisas que não passam cá para fora é uma expressão que só conseguimos encontrar em ambientes altamente especializados, frequentados por especialistas doutorados pela universidade da vida, do balcão de café e das caixas de comentários. As coisas que não passam cá para fora são escondidas lá dentro por gente que não quer que se saiba. Os especialistas em coisas que não passam cá para fora têm, no entanto, acesso privilegiado a toda essa informação. Aquilo que garante que sabem de que é que se está a falar fica patente em afirmações como “e mais não digo”, que é, no fundo, um diploma oral, ou “você sabe muito bem de que é que estou a falar”, frase acompanhada de uma fungadela elucidativa e de um sapiente arquear de sobrancelha) [Read more…]

Pessoas que dizem que os outros têm mas é inveja

A crítica é algo tão desagradável que chega a ser desagradável até para o crítico. O criticado nunca gosta – é como perder um jogo: pode-se disfarçar, pode haver contenção, uma piada descontraída, mas é sempre mau.

São várias as reacções do criticado. Se for educado, será contido, declara que aceita, mentindo em grande parte, mas pensando sempre que a crítica é o fumo que prova a existência de um fogo.

Há, contudo, muitos mais espécimes. Há o criticado que afirma aceitar a crítica, mas. E a seguir ao mas, vêm desculpas não necessariamente esfarrapadas, porque também há desculpas bem vestidas, perfumadas.

Dentro do criticado nitidamente desagradado, há uma grande variedade de raças. Uma delas é o que critica a crítica, reclamando que seja construtiva. Ora, a verdade é que a crítica só é bem feita se for destrutiva – porque a crítica serve para destruir, cabendo ao criticado reconstruir a partir das ruínas.

O meu preferido, entre os desagradados, é o criticado que acusa os críticos de serem unicamente motivados pela inveja. Neste caso, o crítico só critica porque, no fundo, quer ser como o criticado.

Um dos mais conhecidos exemplares desta variedade é José Rodrigues dos Santos (JRS), acolitado por muitos dos seus fiéis. Diante das críticas de que é alvo nas várias actividades que pratica, JRS limita-se a acusar os outros de [Read more…]

André Ventura, a voz de toda a direita

Entre muita direita, mesmo a católica, há a ideia de que só está desempregado quem quer ou só é pobre quem não tem mérito para ganhar dinheiro.

O Chega, para viabilizar a geringonça açoriana, impôs a redução dos apoios sociais no arquipélago. Os pobres e/ou os desempregados têm é de se fazer à vida.

Essa mesma direita – que inclui o PS do Manuel Pinho que aconselhava a investir em Portugal, porque temos salários baixos – está sempre a gritar que é preciso criar uma legislação laboral mais flexível, que é preciso poder despedir mais facilmente.

André Ventura vem, agora, com a ideia de que é preciso pôr essa malta do Rendimento Social de Inserção (RSI) a trabalhar, continuando a pagar-lhes o mesmo.

Não sei se isto é próprio da esquerda, mas acredito que, num país civilizado, é assim: o trabalho implica salário e não esmola ou subsídio. Há trabalho para se fazer? Pague-se um salário.

É verdade que o Estado é um dos patrões que mais se alimentam de vários embustes, como o de não abrir vagas necessárias na Função Pública, impondo a precariedade – basta ver os milhares de professores que trabalham há anos sem vínculo, o que mostra que são necessários ao funcionamento de um sistema que só lhes quer pagar o mínimo possível, uma espécie de trabalhadores à jorna, carne para canhão. O inaceitável praticado por uns não torna aceitável qualquer inaceitável.

Ventura não diz as verdades, mas diz aquilo que muita gente de direita gosta de ouvir e nem sempre tem coragem para dizer, por saber que é eticamente vergonhoso. A subida do Chega faz-se à custa, aliás, desta gente que não gosta de sociedade e que prefere a selva, aquela em que apenas sobrevivem os mais fortes. Ventura é só um PSD que perdeu a vergonha.

Do Mataste-os, Miguel à morte do homem branco

Miguel Oliveira, o nosso herói em duas rodas, venceu o Grande Prémio de Portimão. O seu director, no final, disse-lhe “Mataste-os, Miguel!”

Éder, o herói de um golo só, gritou em público, no meio das comemorações do Europeu de 2016: “Amanhã, é feriado, caralho!”

Num mundo em que se tomasse tudo à letra, Miguel Oliveira estaria a ser interrogado pela polícia e milhares de trabalhadores teriam ficado em casa por ordem de Éder.

Mamadou Ba defendeu, num vídeo, que é preciso “matar o homem branco assassino, colonial e racista”. Houve gente de uma certa direita que preferiu parar em “branco” e gritar que houve ali incitamento ao ódio, racismo e tudo.

Efectivamente, essa certa direita vive muito preocupada em demonstrar que não há racismo estrutural ou que não há racismo ou que o anti-racismo é outra espécie de racismo. No fundo, essa direita é filha de gente que nunca se conformará com esta mania da igualdade e que vê com maus olhos os filhos dos proletários e dos escravos de há cem anos que se atrevem a dizer o que pensam.

Dir-se-ia que a direita tem dificuldades cognitivas e que, por isso, não sabe lidar com metáforas. Seria redutor e insultuoso para a inteligência de tantos.

Há casos de grande inabilidade no uso das metáforas, é certo: há uns anos, Assunção Esteves chamou “carrascos” a vítimas que se queixavam. Os mesmos que hoje se indignam com Mamadou, por desejar o fim da toxicidade, ficaram, então, muito calados. Percebe-se: os que protestavam pertenciam a uma raça inferior.

Processo Reaccionário de Equivalência a Calimero (PREC)

Está em curso o Processo Reaccionário de Equivalência a Calimero (PREC), seguido pela Direita portuguesa, na esteira de um Trump que não aceita perder eleições e de polacos e de húngaros que se queixam desse empecilho que é o Estado de Direito.

A Direita portuguesa, que era tão nação valente e imortal, tão heróis do mar (preferindo, contudo, o povo pobre ao nobre povo), tão Chaimite, tão peito ilustre lusitano, anda, agora, combalida de tantas queixinhas, sempre tão desgostosa com a democracia ou por causa da democracia. Ainda recentemente, em 2015, lacrimejou e fez beicinho porque o funcionamento democrático ditou uma maioria parlamentar muito feia, de barbas e camisas aos quadrados, com seringas para velhinhos e caninos afiados para as criancinhas. [Read more…]

Chega ilegalizar o Chega?

Há quem defenda que o Chega é um partido ilegal ou que é necessário ignorá-lo para não se correr o risco de lhe dar visibilidade.

Em primeiro lugar, a expressão “partido ilegal” é um paradoxo, num Estado de Direito. O Chega existe e tem um deputado na Assembleia da República. Isso chega para estar dentro da legalidade.

Mas não temos o direito a apresentar queixa, se acreditarmos que existem indícios de inconstitucionalidades no programa, nas acções ou nas declarações do Chega? Com certeza que sim, mas reduzir o combate político a isso é superficial e, portanto, perigoso, até porque não basta estar convencido de ilegalidades, é preciso prová-las. O que fazer enquanto isso não acontece ou se nunca chegar a acontecer? Relembre-se, por exemplo, que o Partido Nacional Renovador (actual Ergue-te) existe e concorre a eleições.

Mais vale acreditar que o Chega é legal, como foram e são legais partidos tenebrosos, alguns, com responsabilidades governativas, muitos, responsáveis por coisas inomináveis.

Mas o Chega não é perigoso? É muitíssimo perigoso, inimigo do Estado de Direito, praticante de um falso cristianismo elitista que despreza as classes baixas (a cruzada contra os apoios sociais é só um dos sintomas). A Quarta República do Chega é o futuro regresso ao passado. Por muito que o seu programa seja legal, as suas intenções e as suas declarações (ainda que comicamente contraditórias, como demonstra Ricardo Araújo Pereira) devem ser combatidas. [Read more…]

João Miguel Tavares, a culpa lusitana e o mito de Mário Nogueira

Na sua crónica de hoje, João Miguel Tavares (JMT) consegue o milagre de se afastar de muita direita que vê nos apoios sociais o grande problema da economia portuguesa. Há dias assim, em que JMT escreve menos abjecções.

Quanto ao resto do texto, concordo que Portugal é um país mal gerido, com desvios de receitas – impostos ou fundos europeus – para gastos desnecessários, numa sucessão de actos de corrupção legal e ilegal que fazem de nós um país bastante pior do que deveria ser.

Note-se, no entanto, a diferença: no princípio do texto, JMT consegue, como se viu, explicar claramente quem não tem a culpa. Quando começa a identificar os culpados, limita-se aos últimos dez anos e, pelo meio, como era previsível, deixa a Passos Coelho o papel de alguém obrigado a executar uma política pela qual não era minimamente responsável, o que é uma ficção querida a muita direita.

A história da má gestão portuguesa vem de longe e inclui, entre tanta coisa, a visão deslumbrada de gente que quis ficar na História, com base no folclore de obras inacabadas, como a subordinação de Soares e de Cavaco a uma Europa que impôs a destruição do nosso tecido produtivo, com passagem por uma longa tradição de favores com dinheiros públicos a interesses privados, com bancos e parcerias público-privadas a mamarem na teta dos impostos e na tendencial supressão de direitos ou nos cortes salariais (sempre em nome de uma produtividade sem verdadeiros incentivos que não sejam os de não cair na miséria). A dívida pública, que, por ser pública, todos somos obrigados a pagar, continua por ser verdadeiramente explicada, talvez porque não convenha a quem andou criá-la enquanto parecia estar a governar o país. [Read more…]

Testes Covid

Sandra Capela*

Press Play

A Terceira Vaga

Sandra Capela*

Pandemia de Covid 19? Ou será outra coisa?

Sandra Capela*

Entrevista ao Dr. Fernando Nobre por Rui Unas:
“O mundo está a ser flagelado, mas não é pelo vírus”.

 

Pandemia: breve análise do Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa

Ricardo Graça, Jurista

Depois de estudar minuciosamente o conteúdo do acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, venho esclarecer o mais popularmente possível, para entendimento por todos os cidadãos portugueses sejam eles mais letrados ou menos, sempre fazendo uso do meu dever para com a comunidade, o seguinte:

Como é do conhecimento de alguns, foi proferido ACÓRDÃO N.º 1783/20.7T8PDL.L1-3 pelo Tribunal da Relação de Lisboa datado de  11 de Novembro de 2020.

Tal acórdão corresponde a uma decisão de mérito judicial de um Tribunal Superior e não permite recurso para o STJ, pelo que se consolidou na jurisprudência portuguesa.

A título de curiosidade popular, venho indicar que, este acórdão decisão teve origem num “habeus corpus” intentado por cidadãos a que foi decretado o isolamento no Arquipélago dos Açores, em que o Juiz de Instrução Criminal local ordenou, novamente, a libertação por prisão ilegal. Tendo a Direcção Geral de Saúde recorrido para o tribunal superior competente territorialmente, o Tribunal da Relação de Lisboa. O recurso da própria DGS foi apreciado neste acórdão e pela bondade das Sras. Drs. Juízas Desembargadores, incidiu aquele em várias questões que foram suscitadas pelas partes.

Assim sendo, permitiu a aplicação a todo o território nacional e ilhas do seguinte:

[Read more…]

Colaboracionismo

Sandra Capela*

“La palabra colaboracionismo deriva del francés collaborationniste, término atribuido a todo aquello que tiende a auxiliar o cooperar con el enemigo. Entendida como forma de traición, se refiere a la cooperación del gobierno y de los ciudadanos de un país con las fuerzas de ocupación enemiga. La actitud opuesta al colaboracionismo –la lucha contra el invasor– es representada históricamente por los movimiento de resistencia.
Los “colaboracionistas'” suelen serlo por diferentes motivos: por afinidad ideológica, por simpatía por el enemigo, o por coincidencia en los objetivos, aunque también pueden serlo por coacción o incluso por miedo. En otros casos, los colaboracionistas esperan obtener ganancias, enriquecimiento o favores del enemigo.”

Link: https://es.wikipedia.org/wiki/Colaboracionismo