Fascistas odeiam livros

Em Espanha, as primeiras medidas adoptadas pelos novos executivos locais e regionais PP/Vox consistiram na censura de várias formas de expressão artística, da obra Orlando, de Virginia Woolf, ao filme de animação Lightyear. E é natural que assim tenho sido. Quando a direita moderada fica refém da extrema, o resultado não pode ser outro. Os fascistas, para prosperar, precisam de um povo tendencialmente estúpido. Não surpreende que os livros sejam seus inimigos.

Trickle Down Irlandonomics

Lido hoje no site da Euronews: na Irlanda, paraíso neoliberal dos baixos impostos, onde todos vivem felizes e se tropeça na prosperidade tecnológica em cada esquina, 60% dos jovens entre os 18 e os 29 anos pensam emigrar.

Mas… que passou-se?

Passou-se inflação galopante e uma crise no sector imobiliário sem precedentes, que faz com que um país em situação próxima do pleno-emprego tenha cada vez mais pessoas em situação de sem-abrigo.

Que o são porque os seus salários não permitem comer e pagar uma casa.

A situação é tão grave que existem hoje mais pessoas que não conseguem pagar uma casa do que durante a Grande Fome do século XIX. [Read more…]

A inocência até prova em contrário? Não, a inocência conforme nos convém

Cartoon de Vasco Gargalo.

A casa de Rui Rio foi alvo de buscas. A sede do PSD também.

Não há arguidos. Ainda. Ou seja, ainda ninguém é acusado e, tampouco, culpado de nada. Todo o cidadão tem direito à sua defesa e até que um Tribunal consiga provar por 1+1 que os visados são culpados do que a eles se assaca, então estes são inocentes. É um direito constitucional.

Se isto é verdade, também não deixa de ser verdade que esta máxima só é aplicada quando nos toca a nós, aos nossos mais próximos ou àqueles com quem simpatizamos.

Confesso que é enternecedor ver e ouvir os Sebastiões Bugalhos desta aldeia a queixarem-se de que as buscas à casa de Rui Rio e às sedes do PSD são “manobras de diversão”, depois de terem passado os últimos sete anos a comentar afincadamente “casos e casinhos” que afectassem o Governo e que mantivessem a opinião de tais informados na ribalta. O mal não foi terem surfado a onda dos “casos e casinhos” afectos ao PS; o mal é agora mostrarem-se muito revoltados porque, desta vez, calhou a fava à direita. [Read more…]

Os dias do fim do PSD: o caso do cartoon

Há dias, quando estourou a polémica em torno do cartaz em que António Costa era representado com feições de porco e lápis espetados nos olhos, os partidos de direita desvalorizaram o sucedido.

O maior partido da oposição, porém, não se limitou a desvalorizar. Pela voz do deputado António Cunha, o PSD fez um exercício de whataboutism e relembrou que, no passado, também Passos Coelho foi alvo de representações pouco simpáticas, como aquela em que era retratado como um coelho enforcado. E rematou: “não é justo que se tome a parte pelo todo”, aludindo à minoria de professores que carregou tais cartazes. [Read more…]

“MAI ligou à administração da RTP por “desagrado” com cartoon sobre polícias”…

noticia o Jornal de Notícias.

Ministério da Administração Interna, PSD, Chega e CDS, todos juntos na tentativa de pôr açaimes à independência do canal público de televisão, sem perceberem (ou ignorando convenientemente) o essencial: o-cartoon-não-é-sobre-a-PSP.

E mesmo que fosse, desde quando é que, sucessivamente, a PSP se acha imune a críticas e a ironias, quando há até relatórios – e reportagens – que provam que há infiltração de forças de extrema-direita nas forças de segurança portuguesas? Segue-se o quê? A criação do “Secretariado Nacional de Informação”?

Que o Chega queira censurar tudo aquilo que não lhe convém, percebe-se, sabendo nós quem eles são. Que o CDS se junte à palhaçada, uma vez que para ressuscitar necessita dos eleitores do Chega, também se entende. Que o PSD, suposto garante democrático da direita liberal, lhe siga os passos, é bastante sintomático. E que o MAI, chefiado por um político da social-democracia europeia, se queira juntar à chicana, é ainda mais revelador e atesta o perigo em que estes supostos donos do pedaço estão a colocar a democracia em Portugal.

Cristina Sampaio @spamcartoon

Salários, produtividade e a voz do dono

BCE: a culpa da subida dos juros é dos aumentos dos salários dos trabalhadores.

CIP: o aumento dos salários deve assentar no aumento da produtividade e não pode ser feito sem essa contrapartida.

Ricardo Reis (economista liberal): os salários acompanham a produtividade. Para os salários subirem, temos que aumentar a produtividade.

 

Palavra da salvação.
Glória a vós, Senhor (do Monopólio)!

Dois actualíssimos retratos de Portugal

We elicited four pairs of words for each of the two contrasts embedded in 16 response sentences in L2-Spanish (/e/-/ei̯/: maceta-aceite, pena-peina, reno-reino, vente-veinte; and /d/-/ɾ/: cada-cara, moda-moras, oda-oras, todos-toros) and the same in L2-English (/i/-/ɪ/: cheap-chips, feet-fit, seat-sit, sheep-ship; and /ʃ/-/ʧ/: shake-cheque, sheep-cheap, shows-chose, shops-chops). The task took 5–7 min to complete.
— Mora & Darcy (2023)

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Hoje, além deste testemunho n’O Jogo

É bom falar nesse assunto, porque na altura retratei-me lá [em Portugal], foi uma coisa totalmente inesperada. Só me retratei no momento, nunca falei sobre isso. Estávamos a comemorar o título lá nos Aliados, estávamos muito empolgados, a praça estava lotada e, ao chegar lá e ver aquilo… Era boné para cima, faixas, bandeiras… Antes do cachecol, eu já tinha aberto umas trinta. O meu erro foi abrir à frente da Imprensa. Não vi, não pensei. Até me lembro do rosto da pessoa que me atirou. Apanhei aquilo, levantei dois ou três segundos. Sou um rapaz que respeita as instituições, mas depois, como não estava com o telemóvel, vi que a Internet estava a bombar três horas depois. Recebi ameaças e tive de me retratar. Sou uma pessoa que gosta da rivalidade dentro de campo, faz parte do futebol, mas do outro lado também há profissionais, amigos. Senti-me mal com esse momento, não faz parte da minha pessoa. Não preciso de desrespeitar um clube para ser amado no meu. Não sei se em Portugal houve outro atleta a retratar-se com um clube rival, não sei se já aconteceu, mas eu fiz isso porque achei que era necessário.

temos este pitoresco episódio político [Read more…]

O estranho fenómeno da twitterização da vida e do desfasamento das novas gerações

Dizem que são “luxury lovers”, ouvem podcasts sobre economia onde jovens brancos mimados que não entendem um cu de economia debitam alarvidades, nunca abriram um livro nem sabem o que é um “relatório” ou uma “ficha técnica”, rejeitam todo e qualquer meio de comunicação tradicional com a premissa de que é tudo “um lixo”, mas adoram youtubers e tiktokers com discursos vazios de “auto-ajuda” e acham que o MaisLiberdade é o pináculo da “literacia financeira” e da independência (spoiler alert: há gráficos para tudo, consoante o que se quiser mostrar e não, não é independente, é da IL) e que o Ventura até diz as verdades (spoiler alert: um relógio parado está certo duas vezes por dia). Acham que comportamentos racistas, xenófobos ou homofóbicos são mera “liberdade de expressão”, e exercem-na no Twitter ou no Facebook, porque nunca leram a Constituição para perceberem que tais actos são crime, não opinião e que liberdade de expressão é outra coisa.

Admiram o Elon Musk de cada vez que este se peida, acham que o Raul Minh’Alma é o melhor escritor português e o Cristiano Ronaldo é o role-model das suas vidas, consomem Prozis porque vão ficar muito bombados (e assim sempre estão na moda), acham que são os impostos o grande flagelo das sociedades, acreditam piamente que uma taxa plana de 15% num ordenado de 1000€ os vai deixar milionários, são contra taxar as grandes fortunas mas ganham menos de 1000€/mês… e vivem num T1 em Gueifões pelo qual pagam quase um ordenado mínimo, compram na Zara e conduzem um Ford Focus…

Não admira que a Iniciativa Liberal tenha tantos bots que a apoiem, quando vende a política como se de um sonho se tratasse, achando que riqueza é mero sinal exterior de quem “lutou muito para lá chegar”, mas depois quem tem de levar com um barbeiro que cobra 8€ por corte e que paga 600€/mês pelo arrendamento de um espaço comercial, mas que acha que vai ser milionário a trabalhar, na caixa de comentários de um qualquer jornal português sou eu. [Read more…]

Email enviado a Ana Bernardo

Enviei hoje a Ana Paula Bernardo através da plataforma “parlamento.pt”, o seguinte email:

Ex.ma Senhora,

Não fico particularmente surpreendido com o resultado da função que exerce de relatora da comissão identificada em assunto (Comissão Parlamentar de Inquérito à Tutela Política da Gestão da TAP). Num País onde a “verdade” não depende da factualidade ou da realidade, mas tão só da decisão de maiorias e numa AR cujo “estatuto dos deputados” (6 capítulos, 37 artigos, incontáveis números e alíneas mais 1 anexo) tem como única (uma só) exigência ética para os eleitos, o respeito pela dignidade (conceito vaguíssimo e materialmente indeterminável) da AR e dos deputados (cfr. al.e) do nº1 do art.14º da Lei n.º 7/93, de 1 de Março), nada daquilo que produziu e redigiu consegue ter a capacidade para surpreender.
Não. O que realmente me surpreende é a presunção que faço e que não deve estar muito longe da verdade (daquela verdade “à séria” e não da vossa) que V Exa consegue dormir à noite. Sem que pormenores como a consciência, os escrúpulos ou a probidade lhe atrapalhem o sono. O que realmente me surpreende é outra presunção que faço nas mesmas condições que V.Exa consegue encarar Filhos (desconheço se os tem ou não), Familiares ou Amigos sem que a vergonha a tolha.
Tem noção que num País que não fosse uma “choldra” como aquela em que o seu partido asquerosamente transformou Portugal, o que teve o, infelizmente corriqueiro, despudor de produzir acarretar-lhe-ia responsabilidade criminal, não tem?
O vosso salário devia ser pago em moedas de prata. Mais concretamente, 30 moedas de prata.
Ansiosamente à espera de uma queixa-crime que me permitirá “a posteriori” e em instâncias supra-nacionais, provar “retintamente” o que acima lhe digo,

Carlos Garcez Osório

“Post Scriptum” : esta missiva será divulgada.

Cristiano Ronaldo, embaixador informal do totalitarismo saudita

vem a Portugal com o Al-Nassr inaugurar um centro de alto rendimento. Triste.

RTP poderia melhor informar sobre riscos de Zaporijjia

Ontem, na rubrica “360”, a RTP 3  convidou o Prof. Pedro Sampaio Nunes (PSN) para comentar os potenciais riscos em caso de acidente em Zaporijjia. Os comentários deixam muito a desejar. Vejamos porquê:

1- Ao contrário do que foi dito por PSN, os riscos de acidente em Zaporijjia podem ser bem mais graves do que Fukushima e estão bem identificados, quantificados e publicados em revistas científicas da especialidade. Apesar de 5 reatores estarem parados e um no processo final de paragem, são as piscinas (não protegidas) onde está a arrefecer durante uma década o combustível usado nos reatores que constituem o maior perigo. Por exemplo, o trabalho científico da imagem abaixo mostra a extensão dos potenciais níveis de contaminação em caso de acidente em Zaporijjia tendo em conta a contribuição da fusão dos reatores (topo), de um incêndio na piscina de arrefecimento (meio) e reatores+piscina (baixo). Como se pode ver na imagem, o incêndio numa piscina de arrefecimento (que perde água ou é destruída) e libertação de uma nuvem de fumo contaminada com grandes concentrações de Cs137 é um cenário mais perigoso do que o cenário simples de fusão do reator e é dominante no caso de acontecer fusão de reator + incêndio numa piscina.

E o que é curioso é que em Fukushima esteve muito perto de acontecer uma catástrofe deste tipo [Read more…]

A morte de Luís Aleluia e o clickbait: TVI na senda da TV7Dias

Depois da abominação que foi a publicação de um vídeo do corpo do Luís Aleluia a ser retirado da garagem onde faleceu, a TVI decidiu descer ao lamaçal da TV7dias para fazer clickbait com o drama do actor, sem respeito pela dor da família, para expor algo sem o mínimo de interesse ou valor informativo. Horrível, degradante, desumano.

Lavrov na RTP: socorro, salvem-nos do putinismo!

Li por aí que entrevistar Sergey Lavrov é um acto de putinismo. A RTP já entrevistou Erdogan, Bashar al-Assad, Khadafi, José Eduardo dos Santos e outros personagens pouco recomendáveis durante a sua longa existência. E não me recordo de ter sido acusada de pactuar com qualquer um. Havia mais sanidade. Agora há menos noção. E hordas de virtuosos a salivar por mais censura. Tem tudo para correr bem.

Lagarde e a fascinante liberdade dos mercados

Christine Lagarde é uma tecnocrata nascida na política. Foi ministra de Villepin e Fillon, durante as presidências de Chirac e Sarkozy, e daí subiu à primeira, contratada para jogar a CEO no miolo do FMI. Seguiu-se o BCE, onde se encontra hoje a mandar nas finanças dos europeus, sem que 99,9999% dos europeus tivesse uma palavra a dizer sobre isso.

Esta semana esteve em Sintra, poderosa, para nos dizer que os juros são para continuar a subir. Para culpar os trabalhadores e os seus parcos aumentos salariais pelo aumento da inflação. Para avisar os governos que os apoios extraordinários relacionados com a covid e a guerra são para reduzir até desaparecer. Para nos dizer a todos, sem excepção, que temos que empobrecer. E tê-lo feito em Portugal tem um simbolismo que dispensa explicações. [Read more…]

O futuro da Ucrânia nas mãos dos agiotas

Military cemeteries in Ukraine are expanding just as rapidly as the northern Virgina McMansion beach front estates of executives of Lockheed Martin, Raytheon, and assorted beltway contractors, benefiting form the second highest level of military spending since WWII.

Defender a autodeterminação da Ucrânia não te obriga a negar a realidade. A Ucrânia não é uma preocupação do Ocidente. É um negócio. Um negócio rentável. Muito rentável.

Partido CH, uma ameaça à segurança nacional

Um dos argumentos mais usados pela extrema-direita para vender o seu projecto de autoritarismo e supressão da liberdade é o da segurança. Sempre de mãos dadas com o medo. Medo de crentes de outras religiões, medo da imigração, apimentada por teorias estapafúrdias de substituição populacional programada, medo de tudo o que é diferente.

Azar o deles, Portugal não padece de nenhum desses problemas. E voltou a surgir no top 10 do Global Peace Index, como o 7º país mais seguro do mundo. Uma chatice para a minoria liderada por André Ventura, que lá terá que continuar agarrada aos ciganos. [Read more…]

Só não vê quem não quer ver

Impressiona-me a quantidade de carros de luxo a circular em Portugal: Jaguar, Porsche, Tesla, Mercedes, BMW, etc. Isto, além dos que enchem stands de automóveis, por todo o país. Os SUV`s de luxo, esses, então, parece que pululam.

O recurso ao crédito pode ajudar a explicar alguma coisa, mas está longe de explicar a substância. Tanto mais com o aumento das taxas de juro.

Há,sim, sinais exteriores de economia paralela em todo o lado, e só não vê quem não quer ver.

Se atendermos ao PIB per capita (7º mais baixo na UE em 2021 e em 2022), ao custo dos bens essenciais e dos combustíveis, à carga fiscal sobre o trabalho e as empresas, para além das altas taxas de IVA, ao custo do metro quadrado de construção, o aumento das taxas de juro, e à alta inflação, é fácil de perceber que tanto carro de luxo não bate certo com a nossa realidade económica e social espelhada nos dados oficiais.

Faz lembrar o tempo de Alves Reis, em que as pessoas questionavam-se como é que num país tão velho, havia tantas notas de quinhentos Escudos novas.

Qualquer pessoa que viva do seu salário, ou que tenha um negócio lícito, sabe o quanto custa ganhar a vida para cumprir compromissos básicos. Aliás, quem tenha um salário, por exemplo, de € 4.000,00 – que face à nossa realidade salarial, é um salário alto, topo de algumas carreiras -, entrega cerca de metade ao Estado.

Só a economia paralela pode explicar – ou, pelo menos, numa substancial parte -, que crescentes sinais exteriores de riqueza coabitem com o aumento da perda de poder de compra e do empobrecimento.

E essa realidade, que tem vindo a crescer a olhos vistos, foi recentemente exposta por um estudo da Faculdade de Economia do Porto. Estudo, esse, que passou ao lado da divulgação e da discussão públicas.

Segundo aquele estudo da FEP, a economia paralela tem vindo a crescer desde 1999 e já representa, em 2022, 82.232 milhões de Euros.

Um governo que se diz (pf. não se riam) socialista, e que invoca, rotineiramente, a equidade fiscal para justificar o que é menos popular -, desde reduzir a remuneração do aforro até à redução ilegal dos apoios às rendas -, deveria, há muito, ter abordado esta fonte de desigualdade social.

É possível que quem leia este texto, ainda se esteja a rir do Governo se dizer socialista. Sim, é cómico. Mas, o enraizamento da economia paralela, é uma das maiores tragédias de qualquer país.

Imposto só é roubo quando um país é governado por ladrões

Não sei quanto a vós, mas eu adoro a patranha neoliberal que garante, com arrogância pseudo-académica, que os nossos jovens abandonam o país devido à carga fiscal, porque, lá está, “imposto é roubo”.

Depois vai-se a ver para onde estão a sair os nossos jovens e constata-se que estão a trocar o Reino Unido – onde Rishi Sunak anunciou há dias a intenção de reduzir impostos – pelos países nórdicos.

Imposto só é roubo quando um país é governado por ladrões. Porque, até ver, ainda não se produziu um sistema mais funcional, decente, humano e capaz de gerar tanto bem-estar a tantas pessoas como aquele que assenta precisamente na ideologia que propõe impostos elevadíssimos para financiar um estado social amplo e eficaz. Chama-se social-democracia, é filha do socialismo, neta de Marx, Engels e Lassalle.

Imposto não é roubo. Roubo é querer deixar o cidadão comum ao Deus-dará, para proteger as grandes fortunas que, regra geral, são quem mais beneficia dos serviços e infraestruturas do Estado. E do favor dos sucessivos governos. Taxem-se.

Polónia, o autoritarismo e o futuro

“O Mundo a seus pés” é um podcast do Expresso que merece ser ouvido. O último episódio foi sobre a “iliberal” Polónia.

Alto e quê, Expresso?

OK. Muito bem.

Alterações climáticas, em Portugal um não-tema

Bem podem o Alentejo e o Algarve estar em situação de seca severa, as temperaturas a níveis cada vez mais extremos: a única coisa realmente interessante é o PIB – mesmo que as pessoas continuem a fazer equilíbrios para chegar ao fim do mês. Não se larga o osso do modelo de agricultura super intensiva – que contribui para agravar a situação – nem a construção de enormes hotéis e resorts.  É sabido de cor e salteado que não é possível continuar com a ideia fixa do crescimento e delapidação de recursos, é sabido que há que priorizar a acção climática AGORA, se se quer evitar os pontos de ruptura climática, mas segue-se o caminho errado até ao fim, agarrados ao status quo que já nos trouxe aqui onde estamos. O governo/os governos/os presidentes de câmara querem ser eleitos; regulamentar bens escassos como a água – acabar finalmente com monoculturas exigentes em água, onde ela é exígua, acabar com piscinas em cima de cada apartamento dos condomínios de luxo, dimensionar o turismo em vez de o alavancar a todo o vapor – tudo isto não é nada favorável à obtenção de votos. Portanto adiante. Dessalinização para continuar no ritmo predador. Os preços da água aumentam? Paciência, o agronegócio precisa.

Este governo demonstra todos os dias que a preservação do ambiente lhe é igual ao litro e o ministro do ambiente só aparece para anunciar e justificar medidas com impactos negativos para o ambiente. Um pseudo-ministro do ambiente, com a função de legitimar os negócios. E pelo poder local abaixo, afinam-se todos pelo mesmo diapasão.

Os negócios. O crescimento. O PIB. A alimentação do sistema insaciável. A corrida para o precipício, ao som dos estridentes gritos neoliberais pela liberdade de conduzir um SUV em cidades enfartadas.

Bens escassos como a água terão, obrigatoriamente, que vir a ser racionados e terá de haver ALGUMA justiça nisso. Bem podem espernear os neoliberais: Quando chegar o momento da sobrevivência do e no planeta, a liberdade não lhes vai servir um tusto. E ainda vão clamar pelo estado para vir gerir a escassez. Como aliás já clamam quando há disrupções.

Bloco Central: a ganhar desde 1976

Aquando das últimas sondagens, houve alguma surpresa na opinião pública, acerca do PSD não ganhar impulso face ao PS, considerando tantos tiros nos pés dados pelo Governo, em tão curto espaço de tempo.

Ora, é por estas e por outras, que o PSD não se alavanca. Porque existe uma percepção clara de que não haverá muita diferença de políticas, com a excepção de que os socialistas são sempre mais generosos nos gastos públicos em apoios sociais. Mesmo quando dão o dito por não dito , a bem da “equidade fiscal”. Sim, porque  o respeito pelos direitos adquiridos, não é para todos.

Se juntarmos a isto o facto do discurso crítico do PSD, não ser acompanhado de uma mensagem clara e concisa do que faria diferente, percebe-se porque, nas sondagens, o PSD não capitaliza: há uma clara ideia de que são todos  iguais, mas, à boa maneira portuguesa, os socialistas  sempre “dão mais um bocadinho”.

Seja como for, o Bloco Central, esse, ganha sempre. Pois não há melhor cliente, do que o Estado.

Está tudo como dantes no sítio do costume?

For phonological similarity, for example, Flege (2003) concludes: “It will be necessary to study a wide range of L1–L2 pairs and L2 speech sounds in order to draw general conclusions regarding the nature of constraints, if any, on L2 speech learning” (p. 28).
— Schepens, van Hout & Jaeger (2020)

***

Curiosamente, na semana em que voltei a ouvir uma entrevista dada por Richard Dawkins, apareceu-me no Facebook um vídeo publicado pela Universidade de Oxford, com uma apologia do envio de memes aos amigos. Dawkins é um celebérrimo oxoniano e criador do conceito meme original. Por isso, tão-somente curiosamente. Adiante.

Nessa entrevista, Dawkins cita Bertrand Russell. Já lá vamos. Pouco antes de Russell, Dawkins citara Mark Twain, dizendo:

I was dead for billions of years before I was born, and never suffered the smallest inconvenience.

Tudo bem. É uma simplificação, chamemos-lhe uma “citação livre” de um clássico das citações de algibeira:

I had been dead for billions and billions of years before I was born, and had not suffered the slightest inconvenience.

Não há qualquer problema. Aliás, a simplificação até tem piada e é riquíssima em dados para as minhas notas.

No entanto, depois disto, quando Dawkins cita Russell, cita-o assim: [Read more…]

O Governo das Sombras Chinesas

A ancestral arte das sombras chinesas feitas com as mãos, é fascinante. O saber usar as mãos à contra-luz para se obter uma forma de algo tão distinto das mãos em ofício, seja um porco, um cisne, um cão ou um homem de chapéu, desperta não só o imaginário como aguça a nossa capacidade de percepção.

Ora, parece que António Costa tem sabido aplicar esta arte oriental à prática governativa.

O mais recente exemplo, e que melhor espelha esta fina arte de iludir, reporta-se ao tão propalado apoio ao pagamento das rendas habitacionais, como medida social para debelar os efeitos da inflação e da perda de poder de compra. Foi notícia de primeira página, abertura de noticiários, holofotes, palanque, gráficos e tudo mais.

Posteriormente, foi aprovado o DL 20-B/2023, de 22/03, que, segundo o Portal do próprio Governo, estabelecia o seguinte regime de acesso:

Para serem elegíveis, os inquilinos deverão ter uma taxa de esforço (rendimento mensal afeto ao pagamento da prestação) igual ou superior a 35% e rendimentos coletáveis anuais até 38.632 euros (6.º escalão do IRS) e com contratos de arrendamento ou subarrendamento para habitação permanente celebrados até 15.03.2023

Parecia ser linear, a interpretação do artigo 4º daquele DL 20-B/2023, de 22/03. Parecia. Pois, segundo a notícia de hoje do “Dinheiro Vivo”: [Read more…]

Viktor Orbán, o André Ventura favorito de António Costa

O desvio do Falcon a caminho da Moldávia é um pequeno peanut. Grave é ver o primeiro-ministro reincidir na normalização de Viktor Orbán. Se António Costa quer rasgar as vestes a cada nova gritaria do CH – que até já lhe “cercou” a sede do partido – não pode a seguir alterar a agenda oficial para se sentar ao lado da principal figura da extrema-direita europeia a ver um jogo de futebol. Nem pode exigir clareza ao PSD na sua relação com o CH. Ou até pode, mas deixa a nu a sua hipocrisia. [Read more…]

Uncomfortably Numb

Mesmo junto ao local onde trabalho, existe um daqueles espaços com máquinas automáticas que estão abertos vinte e quatro horas. “Aberto” é termo apropriado para este sítio em particular: os vidros que serviam de parede foram partidos por mitras em tempos imemoriais e jamais foram substituídos. E é desses mitras de que vos falarei hoje.

Habitualmente, o espaço está ocupado por um grupo de três ou quatro mitras e uma gaja, que deve andar a comer um deles, ou mais provavelmente os quatro. Fazem-se acompanhar de colunas de som e da bolsinha da ganza. Diria que o fumo pesado dos charros num espaço muito frequentado por crianças (é uma zona com várias escolas) seria desadequado, não fosse o lugar muito pouco kids-friendly por si mesmo, uma vez que uma das máquinas vende utensílios tão esdrúxulos quanto dildos, anéis vibratórios ou flashlights. Uma vez, de forma a pregar uma partida a um amigo mais ingénuo, uns alunos meus compraram uns preservativos na máquina, disseram ao amigo que se enganaram a pedir, que tinham pedido algo de que não gostavam, mas se ele quisesse podia ir buscar, que ficava para ele, e o pobre voltou confuso e com um anel vibratório na mão, que os colegas compraram convencidos de que eram preservativos. Ri-me e alertei que eles queriam enganar o colega, mas que nem sabiam comprar preservativos, contudo não daria mais explicações, alegando que lhes faltavam anos de vida para terem acesso à verdade, quando a mim é que faltava o conhecimento do que raio é um anel vibratório. [Read more…]

O Manuel do Laço (1947–2023)

Vi-o, pela última vez, há quatro anos, no dia 28 de Abril de 2019. Eu, ao  balcão do nosso Convívio, entre a melhor tosta mista do Porto, um príncipe e o SC Braga — Benfica. Ele, vindo do lado da tabacaria, a espreitar à pressa o mais cobiçado televisor da sala. Na ausência de informação do resultado no ecrã, olhou para mim, com confiança, à espera do veredicto: “O Glorioso está a ganhar”, disse-lhe eu: “3–1”. “Este já não me escapa”, rematei, piscando-lhe o olho. O Manuel riu-se, ainda viu uns cinco minutos do jogo — não chegou a ver o 1–4, golo do Rafa — e despediu-se. Um abraço aos familiares e amigos e a toda a nação boavisteira.

A quem serve o Estádio Nacional?

À beira de completar 80 anos, o Estádio Nacional, obra inspirada no estádio olímpico de Berlim, foi inaugurado com pompa e circunstância pelo Estado Novo no dia da raça 10 de Junho de 1944, servindo os propósitos do regime.

Desde 1946, salvo alguns anos que são excepção à regra, acolhe a final da Taça de Portugal, durante muitos anos recebeu jogos da selecção nacional e até a final da Taça dos Campeões Europeus em 1967. [Read more…]

Se tiver havido ocorrências de recepção em vez de recessão, agradeço que mas facultem

Corrigiram? Antes isso. Mas o mal já estava feito. Exactamente.

Tax the Poor

Guerra, inflação, especulação imobiliária e aumento generalizado do custo de vida.

O que fazer?

Não posso taxar as grandes fortunas, ou os lucros astronómicos dos grandes poluidores, que isso do clima resolve-se com bicicletas e palhinhas. Os lucros da banca também não, principalmente em Portugal, que ainda há para lá uns certificados de aforro a 2,5% e os bancos já não aguentam a concorrência, quanto mais outro imposto. Tecnológicas? Porra! Ainda nos substituem por AI.

Mas então, o que fazer?

Já sei: vou aumentar novamente a taxa de juro de referência. A malta já anda há muito a viver acima das suas possibilidades. Que gastem menos dinheiro em vinho verde e coisas.